NO NATAL, OS SONHOS SERVEM-SE COM A CALDA DA ESPERANÇA E DA CERTEZA

por Ana Cristina Mega | 2013.12.27 - 18:42

Desde miúda que vivo o Natal com paixão. Os meus Pais sempre o encheram de magia e segredos. Era aquela época do ano em que se tirava tempo ao tempo e que havia desculpa para se satisfazer os desejos que se adivinhavam nos outros. Os anseios de cada um eram olhados durante o ano e sondados discretamente mais perto da noite mágica…Também havia aqueles que não tinham desejos concretos e, para esses, o mais importante era tentar descobrir o que lhes faria acender a luz no olhar. A emoção da noite não se revia no valor das ofertas, mas naquilo que dinheiro algum poderia comprar, o calor emanado de cada objecto ofertado. Em cada dádiva sentia-se o coração de quem nos ama, de quem nos conhece os gostos e as manias, de quem pensou em nós e só mesmo em nós, para nos aquecer a alma, de quem nos deu e dá atenção… e muitas, muitas vezes, de quem se privou de algo para naquela noite nos ver resplandecer de alegria.

Também o Natal sensato estava garantido, o tostãozinho amarelo, para assegurar o futuro, vindo do Avô Zé Pais; os paninhos da louça rendados e os carpins feitos pela Avó Zita para assegurarem o presente. Hoje, ambos celebram o Natal em nós e nas nossas histórias. Nesta consoada, do alto dos seus quase 99 anos, a Avó Aida brindou-nos, a noite inteira, com o olhar satisfeito sob o chapéu de pêlo negro (sintético, claro!) recebido das mãos dos bisnetos. O prazer de dar é geral, descende, ascende e espalha-se.

E assim se vão passando os nossos Natais, numa renovação anual dos votos silenciosos que nos unem, do afecto que sentimos o ano inteiro mas que o desjeito da vida afasta da sua manifestação constante. É a altura sem pressas, é a trégua do calendário para a brincadeira e a conversa farta, é o cheiro e o sabor das filhós e rabanadas…Mais, os sonhos, nesta casa, servem-se com a calda da esperança e da certeza que as duas crianças que contemplam encantadas a árvore de Natal, testemunham muito para além das luzes e já lêem, bem fundo, as almas que se querem humanas.

Médica veterinária, docente na Escola Superior Agrária, ISPV

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