Natalidade e felicidade

por Graça Canto Moniz | 2014.03.01 - 01:45

Decidi escrever um texto popularucho, à la “Sex and the City”. Se bem que sou moça dos 90’s, daquelas que ambiciona ser uma Carrie ou uma Miranda (vá, meninas, deixem-se de rodeios!) mas que é, em bom rigor, uma personagem de “Girls”, uma Jessa ou uma Hannah. Maldito choque de expectativas, nem a ficção lhe escapa. Adiante porque este texto não é só sobre gerações é mais sobre coincidências.
Começando pelas últimas, como se diz na minha terra a propósito de bruxas, “não acredito em coincidências mas que as há, há”. Eu que o diga: tinha o Dr. Passos Coelho acabado de anunciar, no Congresso do PSD, a natalidade como prioridade nacional e eu desato a ler textos relacionados com a temática, com a sua base pelo menos: relações. Confesso que fiquei confusa. Primeiro, e antes de os ler, julguei imediatamente que o Dr. Passos Coelho iria aumentar o IVA dos preservativos. O efeito dissuasor certamente seria eficaz, sobretudo se associado a uma campanha com um slogan do género “não arrisque: a cada 21 horas nasce um novo político” e uma fotografia, por exemplo, de um lapin recentemente tirado da cartola. Talvez o efeito dissuasor fosse, neste caso, demasiado eficaz.

Depois, e aí começaram as coincidências, li dois textos, um de um homem e outro de uma mulher, na casa dos 30-40, sobre relações amorosas e as respectivas situações. Fiquei ainda mais confusa. Ladies first: o texto da mulher começava “todas as mulheres querem uma relação estável e duradoura. Errado. Duplamente errado.” Começei a suar. A úlcera a palpitar. Caramba, devo andar muito enganada, se há coisa que eu gosto é de estabilidade (em tudo na vida, apesar das circunstâncias) e se há coisa que eu não gosto é do efémero, do temporário. A menos que seja um daqueles affairs “Lost in Translation” mas, também esses, são duradouros pela impressão digital que deixam. A autora continua a incursão e chega à conclusão de que o problema são as mulheres. Que não se amam a si próprias, que não são felizes. Imediatamente me senti mais como Lady Mary do que como uma das Girls. Ufa, não sou daquela geração. Mas será que pertenço à minha?

Oh, Meu Deus, quem suporta esta obrigação totalitária de ser feliz? A infelicidade não é uma proibição; é obrigatória, por natureza, pela natureza humana. Quero evitar mal entendidos: não sou vitoriana, nem masoquista ao ponto de negar a ideia da felicidade mas tenho, digamos, bom senso para dizer que é uma bênção ocasional, um cometazinho que, em obediência às difíceis regras da astronomia, atravessa uma noite escura como o breu. É difícil viver decentemente nesta terra, habituemo-nos à ideia.

O texto do homem era sobre “Speed dating”. Duas palavras que não deviam ser escritas na mesma frase, mas que estão embeiçadas uma pela outra na nossa adorável (pós) modernidade. A língua inglesa tem falhas graves, como esta. Sou tipicamente europeia pelo que abomino o amor made in the USA como canta Frank Ocean. Será mesmo preciso dizer que o amor exige tempo e conhecimento? Cultiva-se, trata-se, alimenta-se, sofre-se, sem speeds. A dor, angústia, melancolia, são processos lentíssimos, amputações incontornáveis e, quantas vezes, inultrapassáveis.

Aqui estou eu, a falar consigo, senhor leitor, como Cara (a lindíssima Stéphane Audran) fala com Charles, em “Brideshead Revisited”: «oh, Charles, how good it is to be sitting in the shaddow, talking about love». Não só é “good” como é “easy”, eu sei. Sou uma garota. Mas parece-me é que este desencontro dos géneros, esta dispersão dramática, tem reflexos na natalidade, na noção de família, não? E isto não vai lá com subidas de IVA nos preservativos. Receio que, em breve, para resolver este problema, teremos a também dispersa esquerda a apresentar uma proposta de consagração do “direito à felicidade” ao jeito de George Mason, em 1776.

Graça Canto Moniz é filha do ano revolucionário de 1989 mas é, ela mesma, muito pouco dada a revoluções. Jurista e devoradora de livros, séries, filmes, paisagens e viagens.

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