Museus e evolução

por Sérgio Gorjão | 2013.11.28 - 11:13

Será uma verdade à “la Palisse” dizer que tudo é composto de mudança, tudo é impermanente. Na verdade assim é, mas o que mais nos sobressalta hoje é a velocidade com que tudo muda.

A sociedade muda, a cultura é mutável, logo os museus, como instituições de cariz social e cultural, naturalmente têm de se modificar, mas será forçoso que esse movimento seja o de perder a perspetiva da essência, da sua natureza e dos seus objetivos?

A pergunta é retórica, não carece de resposta. Dizer “não” ou “sim” é apenas defender uma ideação extremada (como diz um amigo meu quando me falava de esquizofrenias).

Apesar de um museu ter objetivos muito explícitos, aliás consignados em diploma legal na Lei-quadro dos Museus Portugueses, alguns paladinos da nossa museologia, entendem que o museu hoje TEM de ser um espaço de glamour, um lugar para elites, uma passerelle. O Museu TEM de ser um espaço de novas tecnologias, TEM de estar permanentemente num frenesim de atividade e de estar envolto permanentemente num véu diáfano de criatividade.

O reverso da medalha também é verdadeiro. Os museus, tal como todo o sector cultural português, padece de falta de investimento, o que se reflete na procura (se não se semeia, não se colhe…). Segundo algumas estatísticas recentes só 6% da população tem hábitos regulares de leitura, de fruição de um museu ou de um monumento, de assistência a espetáculos, etc. A crise está aí (para durar) e a maior e mais preocupante forma de crise é o evidente desinteresse intelectual, não apenas a falta de dinheiro.

Não é de estranhar que a nossa sociedade esteja a caminhar em muitas áreas para um beco sem saída, veja-se o que se passa com a Educação e Cidadania.

É necessário um equilíbrio de forças: os museus precisam de ser espaços fruídos, disponíveis e atractivos para a sociedade. Para tal há que investir. O Museu é um espaço que pode e deve recriar-se, pode e deve ser mais que um depósito de bens, mas não deve transformar-se num palco onde tudo ocorra, nem uma pista de corridas para atingir metas e amenizar estatísticas.

Um museu, como um monumento, são espaços de memória, de identidade, de investigação, de interpretação, de tratamento, de integração social e educativa, enfim, são agentes vivos, simultaneamente propulsores e guardiões de algo que vai além da materialidade dos bens. É também um fórum de encontros e de diálogos, com os outros (outras pessoas e outras culturas), mas também um grande espelho onde nos podemos reencontrar e compreender. Podemos evitar os extremos: não precisamos de ser malabaristas dos museus, nem precisamos de nos deter pela dificuldade que nos rodeia, um museu precisa de ser cada vez mais um lugar de bem-estar e de qualidade de vida, o que obrigará a compreender a dinâmica e as necessidades do momento e perceber como é que podemos recentrar estas importantes instituições de referência como guias de desenvolvimento, em vez de nos deixarmos ir, sem rumo, na torrente impetuosa do momento.

Um mero mortal, com aspirações a poder ajudar a transformar este mundo num num espaço menos espinhoso... porém ser sucesso; contudo como institucionalmente a coisa tem de funcionar de outra maneira: Sérgio Gorjão, Licenciado em História, Mestre em Museologia, com formação especializada em História da Arte, Património e Filosofia. Presentemente exerce funções como Diretor do Museu Grão Vasco.

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