Mean Streets

por Jose Cruzio | 2013.12.12 - 23:10

Retomo o meu anterior scriptum como ponto de partida para um novo.
Permitam-me a primeira de várias ousadias, ou seja, a de começar por uma das áreas que mais me marcam, o cinema, em especial por “Mean Streets”, de Scorcese, ou melhor, pelo título português do filme, “Cavaleiros do Asfalto”. Importa não esquecer as peculiaridades das traduções de títulos cinematográficos nesta (ben)dita terra.
Será, assim, o “Day Two” de um separador ao qual, a partir de agora, chamarei | MEAN STREETS. Um outro separador será | ON STAGE, sobre fotografia de espetáculo, mas ficará para outra altura.
“Cavaleiros do Asfalto”. Julgo, assim, ser mais pertinente para este capítulo. O título, claro. É dedicado à fotografia de rua e documental, a esses “fotógrafos viajantes”, bem como a reflexões a ela dedicadas. Nada que me impeça de abordar outras artes nem que seja tangencialmente, como o vídeo ou a ilustração por urbansketchers, dignos “ desenhadores andarilhos”.
Por “asfalto”, vêm-me à memória as estradas. Uma só e ao longo de uma vastidão verdejante ou desértica. Cinefiliamente, evocaria a Route 66. Ou o dramático Big Sur. Perto, perto… aquele rasgo alcatroado pela planície ou ao longo da costa selvagem. De muitas, a tremenda e complexa rede das cidades. Superlativamente, as das metrópoles. As das Asphalt Jungles do imagético cinema americano.
Já estarei a alongar-me demasiado na fisicalidade e espacialidade. Bem, como noutros temas a elas ligados.
O núcleo urbano, seja qual for a sua dimensão, e, na sua forma suprema, a cidade ou a “selva de asfalto”, tornou-se, ao longo dos tempos modernos e pós-modernos, um dos temas preferenciais das várias artes, sendo as mais recentes a fotografia e o cinema. Como também o graffiti, se bem que utilize o medium da pintura – a tinta, e no devido contexto.
Do cinema, e por este momento, só tomarei o título, a forma e as vivências implícitas do filme de Scorcese. A urgência de se afirmar através de uma história visual e sonora com um apurado sentido da realidade vivida numa forma mais essencial do que de aproximação ao real físico seriam os motes que retiraria do cineasta para aflorar em seguida.
Os “cavaleiros” que aqui tento fazer enunciar são fotógrafos (videastas, graffiters e urbansketchers) e a sua obra em torno deste cosmos e dos seus vários microcosmos. Existem os amadores e os profissionais. Ambos, diletantes à sua maneira. Andarilhos. Flanêuses, como diria ainda Baudelaire. Outra ousadia? Talvez.
Melhor queria eu ser também! Versões modernas de um Bruce Chatwin, cuja ferramenta não seria a caneta nem o Moleskine, mas a máquina fotográfica. Mais por ser um modelo mais próximo. Ideal, para mim. No “horror ao aprisionamento”, físico e expressivo, e na deriva pelos lugares da experiência. No compulsivo viajar, observar, cheirar, por fim, vivenciar. Transcrevê-las e sobre elas reflectir. Daí ter aqui evocado Chatwin.
Para esta pequena e prévia dissertação sobre a fotografia, socorro-me de Gabriel Bauret, para já. A devida vénia por um precioso livro. De muitos outros da minha pequena “biblioteca”.
Fotógrafos. Outros, simples “amantes da fotografia”. Como humildemente se afirmam. Uns, amadores, e outros, profissionais, como aqui relembro. Mas com diferenças. Bem grandes, por sinal.
Embora existindo nestes a noção de documento, visual, em que o tempo é vetor primordial, há quem os separe. Naqueles que são amadores, não pejorativamente, tomam como assuntos situações banais, o momento captado é mais intenso, no ponto de vista emocional, dado estar associado “à tomada de consciência, de mudança, do desaparecimento ou morte”, como escreve o mesmo Bauret ao evocar Barthes de “A Câmara Clara”. Na fotografia profissional, apesar de balizada entre dois enormes mundos – o da encomenda e o da arte, tem-se a consciência de um projeto, com fundamentos e pesquisas intensas, de obtenção de “instantes” como documentos visuais específicos, quase sempre subordinados a um desses dois mundos. Deste tópico, falarei, quando a isso houver, mais tarde.
De momento, interessa-me a flanêrie, o compulsivo viajar, a observação em campo e, no fim de contas, a auto-descoberta.
Volto às cidades como tema e território de experiências. Dos inúmeros passeios, necessários ou nem tanto, pelas suas avenidas – uma modernice, é bem verdade!, ruas e vielas. Pelos encontros deliciosamente improváveis, como ainda diz Bauret. Com pessoas, objetos e cheiros. Um imenso repositório de nuances sensoriais. Se pegar no tema da “viagem”, poderia imaginar-me num imenso e caótico souk árabe; num outro momento, num dos quartiers parisienses ou mesmo e mais longe, num dos barríos cubanos. E, em todo o lado, paisagens deliciosamente “cinematográficas”. Para este texto, fotográficas. Dessas e outras intocadas já Chatwin se encarregou, entre outros.
Um desafio, se não um dos maiores, seria encarnar um desses viajantes e partir não para fora das muralhas urbanas da própria cidade, mas percorrê-la, senti-la e absorvê-la. No banal e recorrente quotidiano, captar aqueles momentos fugidios.
Instantes decisivos. Não o de Capa, embora preste-lhe a devida reverência. Aqui farei uma picardia, válida, claro: cada um vê a mesma realidade, à sua maneira e sensibilidade. Daí que o instante decisivo de um não é o mesmo de outro. Daí a pluralidade da imagem como do olhar. “Congelar o tempo” e registar o momento, quando intuir a sua irrepetibilidade. Cada vez menos em película e mais em ficheiros de dados. Soou a frio?!
Como um território a explorar, é um delicioso e imenso campo de trabalho. A rua. E as suas inúmeras vielas.
A rua é como a cena de um teatro que fascina o espectador-fotógrafo; nela se representam, dia e noite, toda a espécie de dramas, tristes e alegres, dramas em que se misturam personagens de toda a espécie.” (Bauret, 2006, p. 29)
Rua Direita. Todas as cidades têm a sua Rua Direita. Muitas não com este nome. Nem a mesma forma. Umas, espacialmente lineares. Outras, confusas. Reflexos de evoluções, revoluções e involuções. De camadas de vivências, vestígios materiais e de memórias. Um povo sem memória não é um povo, diz-se. Mas uma massa informe de indivíduos sem referências. Se não as têm, não têm passado a partir do qual possam construir o seu futuro.
O que é certo, quanto mais e melhor conscientes do seu passado, dos seus avanços e erros, melhor o futuro. Divaguei.
Retorno à Rua Direita. Não como apologia da página onde este texto se encontra alojado, atenção. Mas como um microcosmos muito particular. O lugar antropológico, de onde se nasceu, viveu…. e, desejavelmente, a ele retornar, ou melhor, voltar a vivê-lo.
A emergência de novos centros urbanos – pólos centralizadores – dentro da mesma cidade em detrimento do lugar antropológico, faz-me pensar. Devia fazer-nos pensar.

Podia dizer-te de quantos degraus são as ruas em escadinhas, como são as aberturas dos arcos dos pórticos, de quantas lâminas de zinco são cobertos os telhados; mas já sei que seria o mesmo que não te dizer nada. Não é disto que é feita a cidade, mas sim das relações entre as medidas do seu espaço e os acontecimentos do seu passado.” (Calvino,1980, p.14)
E como muitas outras, fascinante. Imageticamente rica. A rua.
Julgo, para já, ter conseguido algo que se não impossível, mas dificilmente possível. Arrolei Baudelaire e a sua flanêrie; de Chatwin, a sua versão do “horror ao domicílio” e o ideal do viajante com o dom do sentir e absorver o mundo à sua volta; por fim, as descrições de Marco Polo do Calvino das “Cidades Invisíveis”.
Ah, não esquecendo o imenso “Mean Streets” de Scorcese e a nossa provincial Rua Direita. Assim, termino este segundo tomo.

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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