MARIA LÓIA – JEITO DE AMOR PRIMEIRO

por Alberto Correia | 2016.05.26 - 13:47

 

Se a Maria Lóia estava para dentro de casa, bastava sentir-me para vir à porta. Conhecia o meu jeito de marcar o passo, e não era preciso mais nada.

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 Eu deitava-lhe o rabo do olho, como quem não quer a coisa, e tinha a impressão de que ela sorria.

Pelo menos eu tinha essa presunção, e no entanto não resistia a dar uma apitadela. Mas a cachopa, embora acudisse logo, representava. E representava, permanecendo abrigada por detrás da fecheleira, a ponta do nariz a branquejar e o esmalte da pupila luze que luze.

In  Cinco Réis de Gente

 

 

 

 

 

Cheirava a urze o vestido de chita da Maria Lóia na meia tarde, quando voltavam das abas da serra, da busca dos ninhos.

Cheirava a urze a pele morena da Maria Lóia nos finais de Maio, quando as encostas refulgiam naquela cor roxa e alegre que permaneceria como retrato ou luminosa memória do findar do dia.

Sabia a amoras a boca vermelha da Maria Lóia nas tardes de Verão.

Ela e o irmão, o Manuel Lóio, moravam, com os pais, na vizinhança.

Nem um nem outro foram à Escola. Mas o Manuel conhecia os pássaros todos, carriças, milheiras, pardais, rolas, estorninhos. Sabia onde faziam os ninhos, a cor branca, azul, pintalgada dos seus ovos. Sabia tirar os grilos dos buraquinhos na fresquidão dos lameiros. Conhecia os caminhos da serra onde havia sinais gravados nas pedras, dizia ele, pelos antigos. Sabia do tempo das amoras, das cerejas, dos pinhões e dos mostajos. Sabia fazer piões e gaitinhas dos ramos tenros dos castanheiros.

O Manuel Lóio no Verão andava descalço. No Inverno calçava tamancos de madeira que o pai lhe fazia. A irmã calçava tamanquinhas que a mãe lhe comprara numa feira.

Quando fosse mais velho havia de ir ter com um tio ao Brasil, dizia ele.

A Maria Lóia era a namorada de Aquilino nas tardes de brincar. Um dia deu-lhe de presente uma rolinha nova. E toda a gente sabia.