Lovely. May I cry?

por Sara Augusto | 2014.01.23 - 17:14

Subi a colina sem saber muito bem onde ia chegar. Havia um caminho de pedras, quase uma escada, mal talhada, cheia de folhas molhadas e escorregadias. Ainda era Outono. Depois de quatro dias de intenso nervoso miudinho tinha-me sobrado apenas um dia para sair da cidade. E ali estávamos, uma carrinha, um guia, eu e o americano. Agora, não faltaria menos de uma hora para escurecer. À minha frente seguiam Stuart e Jon, escorregando de vez em quando nas pedras soltas. Costuma trazer aqui os turistas, levantei a voz para chegar quatro metros lá à frente. Não, ficam lá baixo junto ao lago, mas hoje apeteceu-me vir aqui. Só percebi como o apetecer dele tinha sido a minha fortuna quando chegámos ao cimo da colina.

Para norte e para ocidente as águas perdiam-se de vista, por entre as margens recortadas. Temos tempo? Até escurecer. E ficámos ali os três, sentados numa rocha, eu no meio deles, o guia escocês que me pôs a ouvir a banda sonora do Braveheart até chegar ao Loch Lomond, e o engenheiro americano, brando nas palavras, que gostava de whisky e tinha uma namorada de olhos verdes no Ohio. A neblina sobre as águas tinha cor, uma cor indefinida, que se espalhava sossegadamente dentro de mim e, entre o escocês e o americano, eu não sabia o que fazer do choro que rompia de um coração torcido como o meu. So? Lovely. May I cry? Sure. Caíram rentinhas à pele. Com um gesto cúmplice, Stuart colheu uma das lágrimas com o dedo e lançou-a ao ar, time to smile?

A luz do Loch Lomond àquela hora, com um céu tão baixo que podia tocá-lo ao levantar o braço, era indizível. Reconheci-a e sorri-lhe como a um velho conhecido encontrado na rua por acaso e por acaso encontrado antes em lugares tão estranhos e diferentes. Os meus companheiros não teriam Santo Agostinho nas leituras recentes, e vinguei-me do forte acento escocês de Stuart quando não lhe traduzi do latim a terrível inquietação sobre a surdez do tempo e do coração humano nas palavras confessadas do bispo de Hipona, sero te amavi, pulchritudo tam antiqua et tam nova, sero te amavi! Et ecce intus eras et ego foris et ibi te quaerebam. Lembrei-me da Helena, minha companheira de tantas viagens. Passávamos na South Street, por debaixo da Brooklyn Bridge e nas margens do East River um grupo de miúdos jogava à bola. Não seriam seis da tarde, a luz dourada do pôr-do-sol batia na ponte e estava um silêncio absolutamente impossível àquela hora. Ouves, Helena? Sim, Sara, sinto. Está dentro de nós. Mas como é que eu ia explicar aquilo, et ecce intus eras, no meu péssimo inglês aos meus companheiros, sentados num rochedo das Highlands, junto do lago?

Levantei-me. Podia ficar ali, dias e dias, como podia ter ficado no outono das White Montains, no mar transparente de Cayo Blanco, no azul tão fundo de Akrotiri, nas planícies de Aljustrel, no vale do Rossim ou em qualquer vereda da mata do vale. Inside your mind? Sim, Stuart, and in my heart as well.

Nasceu em Viseu. Investigadora e professora universitária no campo das Ciências Sociais e Humanas.

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