Letras@CORdadas – Descartes

por Miguel Alves | 2016.03.26 - 11:17

 

 

(René Descartes: 1596 – 1650)

 

René Descartes foi, talvez, o maior pensador seu tempo e um dos maiores da história da humanidade. Com ele, a filosofia e o conhecimento deram um salto epistemológico relativamente à Antiguidade Greco-Romana. Nesta, era a substância o conceito suporte para o conhecimento da realidade e não os fenómenos de que esta é constituída. RD introduz o valor da experiência do sujeito, logo o próprio sujeito, como fonte, princípio e desenvolvimento de todo o conhecimento. Este movimento iniciado por RD, levará á perspetiva transcendental que David Hume (1711-1776) lhe opôs, ao defender o abandono definitivo da essência e da substância, já que para ele a razão humana apenas tem o condão de apreender os fenómenos humanos e da realidade, tout court. Esta perspetiva da fonte e fundamento do conhecimento, viria a ter a sua máxima sistematização no seu expoente maior: Kant, Immanuel, (1724-1804) com a sua “Crítica da Razão Pura”.

RD foi ainda fisiologia e matemático, sendo considerado o pai da matemática moderna.

RD nasceu em La Haya, na província de Touraine, cidade que passou a adoptar o nome La Haya-Descartes. Seu pai era advogado, juiz e conselheiro parlamentar, possuindo o primeiro grau de nobreza – escudeiro. Por força dessa tradição familiar, cursou direito na Universidade de Poitiers formando-se em 1616, mas nunca tendo exercido essa profissão.

RD foi educado durante oito anos num colégio da Companhia de Jesus que, como sempre aí, o terá formatado intelectualmente. Entre 1614 e 1620 participou na guerra dos trinta anos*1 na Holanda contra as tropas espanholas sob o comando de Maurício de Nassau, um dos pais fundadores daquele país. Regressou a França depois de ter viajado pela Alemanha e pela Dinamarca. Morreu em Estocolmo com uma pneumonia, na corte da Rainha Cristina da Suécia*2, em cuja corte se encontrava a seu convite desde 1649. Aí trabalhou como perceptor e conselheiro da Rainha.

Quero hoje @CORdar uma obra essencial de RD: “Regras para a Direcção do Espírito”, 1628. Este pequeno livro, pretende ser um guia para quase toda a atividade humana, mesmo em ter termos puramente intelectuais, podendo, por isso, ser considerado como um dos fundadores do pensamento, atividade e método científicos. A par com o “Discurso do Método”, outra das suas obras maiores, fizeram com que se tornasse frequente classificar a atividade e o pensamento humano como cartesiano ou não cartesiano, remetendo esta adjetivação para a implacabilidade da razão, da sistematização e do método.

Este livro é ele mesmo um exemplo desta adjetivação. Puramente ”cartesiano”! Identifica com toda a clareza aquilo que nele é básico e essencial e aquilo que se destina e leva ao seu desenvolvimento A obra é constituída por vinte e uma regras, sendo estas em algumas partes um misto de filosofia, matemática e geometria, ciências em que ele foi mestre e cuja importância considera básica para todo o conhecimento. “De resto, estas três últimas proposições (Regra V, Regra VI e Regra VII) não devem ser separadas, porque é preciso, regra geral, reflectir nelas ao mesmo tempo e porque elas concorrem todas do mesmo modo para a perfeição do método. Não teria grande interesse determinar qual delas seria ensinada em primeiro lugar e nós explicamo-las aqui em poucas palavras, porque não temos quase nada que fazer para além disso no resto do Tratado, em que faremos ver em pormenor aquilo a que nos dedicámos aqui no geral. …Daqui resulta que deve haver uma ciência geral que explica tudo o que se pode investigar respeitante á ordem e á medida sem as aplicar a uma matéria especial. …porque encerra tudo o que fez dar a outras ciências a denominação de parte das matemáticas. Não são apenas as ciências de que já se falou que se diz fazerem parte das matemáticas, mas ainda a astronomia, a música*3 a óptica a mecânica e muitas outras”.

“Regras para a Direcção do Espírito” é constituído por vinte e uma REGRAS. Como o próprio RD sistematiza, as Regras V, VI e VII são as mais importantes do Tratado. Vamos enunciá-las todas até à VIII, onde essa elencagem é feita, e analisar melhor aquelas três fazendo um convite para que se revisite este Tratado de verdadeira sabedoria, aparentemente uma obra que parece ser constituída de conceitos óbvios e vulgar bom senso. Porém, está hoje mais atualizada que nunca. O “fatalismo” da globalização das sociedades modernas teve aqui a sua génese e a prática deste Tratado impõe-se hoje a níveis e complexidade que RD estaria longe de poder imaginar e prever mas cujo génio lhe coube.

REGRA I: “Os estudos devem ter por fim dar ao espírito uma direcção que lhe permita fazer juízos sólidos e verdadeiros sobre tudo o que se lhe apresenta”.

REGRA II: “Os objectos de que nos devemos ocupar são apenas aqueles que os nossos espíritos parecem conseguir conhecer de uma maneira certa e indubitável”.

REGRA III: “No que respeita aos objectos considerados, não é o que o outro pensa ou que nós próprios conjecturamos que é preciso procurar, mas aquilo que podemos ver com intuição, com clareza e evidência, ou aquilo que podemos deduzir com certeza: nem de outro modo, com efeito se adquire a ciência”.

REGRA IV: “Para a investigação da verdade é necessário o método”.

REGRA V: “Todo o método consiste na ordem e disposição dos objectos sobre os quais é preciso fazer incidir a penetração da inteligência para descobrir qualquer verdade. A ele permaneceremos cuidadosamente fiéis, se reduzirmos gradualmente as proposições complicadas e obscuras a proposições mais simples, e em seguida, se partindo da intuição das que são as mais simples de todas, tratarmos de nos elevar pelos mesmos graus ao conhecimento de todas as outras”.

REGRA VI: “Para distinguir as questões mais simples das que são complexas e pôr ordem na investigação, é preciso, em cada série de coisas em que deduzimos directamente algumas verdades umas das outras, observar o que é mais simples e de que modo tudo o resto deles está mais ou menos ou igualmente afastado”.

REGRA VII: “Para completar a ciência, é preciso passar em revista uma a uma todas as coisas que se destinam ao nosso fim, por um movimento de pensamento contínuo e sem a menor interrupção, e é preciso abarcá-las numa numeração suficiente e metódica”.

REGRA VIII: “Se se apresentar na série de objectos a procurar qualquer coisa que a nossa inteligência não possa intuir suficientemente bem, precisamos de nos deter aí, sem examinar o que se segue e abstendo-nos de um trabalho supérfluo”.

Aplicar o pensamento e a metodologia de RD será hoje possível, vantajoso e exigível? Certamente que sim, apesar da multiplicidade de fatores que complexificam a vida e a condição humana nas sociedades atuais. Porém, muita da sua complexidade, pode ser desdobrada e agrupada (seriada) em componentes de progressiva simplicidade que atenuará aquela. Conhecido é também o conceito de que as grandes realizações se fazem e são compostas de pequenas e aparentes insignificâncias.

Vejamos, por exemplo, as áreas da gestão, da política e da sociologia, com os seus vetores dominantes: o resultado/lucro para a gestão, a conquista/manutenção do poder para a política, a análise e estudo da organização social, dos grupos, valores e mecanismos sociais, da liberdade/tolerância /convivência sociais para a sociologia.

Aplicar as “Regras para a Direcção do Espírito de RD à gestão e à política é tarefa arriscada que não me atrevo a tentar. Os seus vetores estratégicos e decisórios, dependem de fatores psicológicos e sociológicos complexos em que a implacabilidade da razão, da sistematização e do método aí estão muitas vezes alheios, quando não manipulados. Mesmo que para esses processos as regras sejam também de enorme utilidade!

Um exemplo atual  e enquadrável na sociologia:

O terrorismo internacional dos últimos anos e dias, tornou as sociedades livres e democráticas em sociedades de risco e em risco latente e permanente. Para fazer face aos esses riscos, é necessário em primeiro lugar método (Regra IV); depois: é imperioso identificar os valores e princípios inabdicáveis; os processos e métodos de promovê-los e defendê-los; finalmente, os instrumentos/ferramentas a mobilizar para essa promoção e defesa (Regra V: Ordem e disciplina, reduzir gradualmente as proposições complicadas, partindo da intuição das que são mais simples para o conhecimento de todas as outras). Neste caminho, é também imprescindível agrupar (seriar) conjuntos de questões, vantagens, riscos e soluções alternativas ou não, partindo daquelas que se conhecem, dominam e controlam para as que se apresentam de abordagem mais sensível, duvidosa ou ignorada (Regra VI: …séries de coisas, deduzir directamente algumas verdades umas das outras, observar o que é mais simples). No plano da reação e sobretudo da ação, impõe-se previamente a negociação, a consensualização, a partilha de informações, a firmeza e determinação sem quebras (Regra VII: passar em revista todas as coisas que se destinam ao nosso fim, num movimento e pensamento contínuo e numa numeração suficiente e metódica; Regra III: No que respeita aos objectos considerados, não é o que o outro pensa ou que nós próprios conjecturamos que é preciso procurar, mas aquilo que podemos ver com intuição, com clareza e evidência).

Uma citação final: “Não tenho soluções para o terrorismo. Mas sei que enquanto diligentemente fizermos por ignorar este mal sob o sol que cresce nas comunidades muçulmanas residentes na Europa, enquanto não afirmarmos com contundência (inclusive judicial e penal) que os valores europeus são incompatíveis com o estatuto das mulheres no islão (um exemplo), estaremos a apimentar o caldo periclitante. O primeiro passo para resolver um problema costuma ser perceber onde está e qual é” (Marques, M. J., 2016).

 

 

*1. Guerra dos trinta anos: Foi constituída por várias pequenas guerras entre diversos países europeus, ocorridas entre 1618 e 1638. Teve um fundo religioso marcado pela oposição entre e Reforma Protestante assumida por alguns países do norte da Europa e o Catolicismo dos Habsburgos, Império de origem alemã dominante na Europa Central. Foi, na essência, uma guerra pelo poder na Europa entre os Habsburgos e os Bourbons.

Terminou com a assinatura do Tratado de Vestefália sob a liderança do Cardeal Mazarino, eminência parda do governo de França, país que mais reforçado saiu após o Tratado, a par da Suécia, das Províncias Unidas (hoje Holanda) e da Suíça. A Espanha sofreu uma derrota humilhante na Holanda que até aí ocupava.

Este Trado é considerado o marco originário da diplomacia atual, criou o conceito de Estado-Nação e da sua soberania, e pôs fim às guerras religiosas ao atribuir a católicos e protestantes os mesmos direitos como crentes.

*2. Rainha Cristina (1632-1654): Esteve do lado da Reforma Protestante na guerra dos trinta anos, mas acabou por converter-se ao cristianismo, vivendo os últimos anos de vida em Roma. É a única mulher sepultada no Vaticano. Era uma mulher de cultura que quis transformar Estocolmo na Atenas do norte.

*3. Música: Shönberg, Arnold, compositor austríaco, naturalizado americano (1874-1951). Este compositor criou o dodecafonismo: sistema de composição baseado em 12 séries das 7 notas musicais usadas de quatro formas: série original, série retrógrada, série original tocada de trás para a frente e série invertida. Schönberg criou este modelo de composição no início do século XX como reação aos métodos tradicionais do século anterior. Viria a ser desenvolvido pelo maestro Pierre Boulez (1925-2016), ele próprio matemático no início da sua carreira, e que desenvolveu os conceitos de abstração e experimentalismo nas artes.

 

Outras obras de RD:

Tratado do Mundo, 1634,

Discurso do Método, 1637;

Meditações Metafísicas, 1641;

Princípios da Filosofia, 1644;

Descrição do Corpo Humano, 1647;

As Paixões da Alma, 1649.

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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