Letras @CORdadas – William Faulkner (1897 / 1962)

por Miguel Alves | 2014.06.23 - 13:23

 

William Faulkner (1897 / 1962)

(Nobel da Literatura em 1949 e Prémio Pullitzer em 1955)

 

Os Estados Unidos da América são, em termos históricos, um país adolescente, se comparados com Portugal e a grande maioria dos países europeus. Desenvolvido, avançado, rico e dominador, mas adolescente.

Não vai muito longe o tempo em que o planeta era dividido entre o velho mundo (Europa), o novo mundo (todo o continente americano) e o mundo oriental.

Vejamos:

Os EUA foram fundados a partir das 13 colónias do Império Britânico ao longo da costa atlântica norte do continente americano e após a divisão das Carolinas em 1729 e a colonização da Geórgia em 1732.

Em 1776 teve lugar a proclamação do direito à sua autodeterminação e à declaração da independência, após a Guerra Revolucionária Americana contra os ingleses que constituiu a primeira guerra anti-colonial bem sucedida da história.

Os conflitos entre o sul agrário e o norte industrializado, assim como a utilização maciça da escravatura e a sua expansão no século XIX, conduziram à Guerra da Secessão ocorrida entre 1861 e 1865. A vitória dos estados do norte impediu a divisão do país e pôs fim à escravatura.

Muita da literatura americana debruça-se, por isso, sobre a história “recente” deste país, entre os quais dois dos grandes vultos da literatura universal: William Faulkner e John Steinbeck.

Convido hoje os leitores a atravessarem o atlântico comigo para @CORdar um desses grandes vultos do século XX: William Faulkner e uma das suas obras de referência: “LUZ EM AGOSTO”*(1932), que é uma obra incluída no período da maturidade criativa e literária do seu autor.

WF nasceu trinta anos após o sul dos Estados Unidos ter sido derrotado na  Guerra da Secessão. Membro de uma antiga e ilustre família sulista, o seu avô foi um dos heróis desta guerra. Banqueiro, construiu uma linha de caminho de ferro após a guerra, vindo depois a ser morto após uma eleição local que havia ganho.

A obra de WF está quase toda centrada no Estado do Mississípi e na sua decadência, iniciada na excessiva supremacia e consequente queda do poder branco de origem inglesa, protestante e de cultura puritana. Esta decadência arrastou consigo brancos e negros e teve como base a abolição da escravatura que era o suporte maior de toda a economia. Este universo é o pano de fundo que marca a sua obra, por ele o ter marcado em termos económicos, políticos e religiosos individuais.

 

“Quem lê quer saber; quem não lê quer errar”

(Pe. António Vieira-1608.1697)

 

A obra de WF é considerada uma escrita complexa e desafiadora incluída no chamado “FLUXO DE CONSCIÊNCIA” onde se incluem figuras marcantes da literatura mundial com Marcel Proust, James Joyce, Virgínia Woolf e Thomas Mann. Este fluxo de consciência é um processo profundo de pensamento e de associação de ideias em que tem lugar o domínio das emoções e da consciência, bem como do tempo em que surgem e se interligam, sobre os aspetos formais da narrativa, da sua coerência factual e temporal, domínio este expresso quer na descrição de múltiplos pontos de vista em simultâneo, histórias diferentes narradas em paralelo, factos contados por personagens diferentes, interpretações psicológicas com base em posturas físicas e até históricas, longos parágrafos sem cuidar da sua organização gramatical e mudanças bruscas de tempo narrativo. WF estilhaça o tempo e desses estilhaços nascem novas figuras e factos, sempre sublimes, grotescos e imprevisíveis.

É uma técnica de escrita em que as fronteiras entre o consciente e o inconsciente se diluem, tal como o desejo e a realidade, a memória e o presente. “O fluxo da consciência é um rio impetuoso de palavras e imagens que atravessam constantemente a mente humana e onde a água remoinha durante algum tempo para depois voltar á corrente” (Ceia, C. em Dicionário de termos literários).

Em WF, salienta-se a caraterização quase maciça do olhar e olhos dos personagens como se eles fossem a ferramenta e a expressão no real do fluxo da consciência e o caminho de acesso ao inconsciente.

WF utiliza também com frequência, tal como outros autores, a expressão “como se”, para levar a cabo interpretações diversas, quase sempre relativas a questões essenciais do homem e da humanidade. Uma espécie de transporte do real para o território da consciência.

Este fluxo da consciência equivale ainda a uma espécie de erupção do inconsciente, catarse psicanalítica em que o objeto da descarga de processos interiores de grande densidade e intensidade, acaba por ser a escrita num ritmo e forma verdadeiramente avassaladores. Esta avalanche das profundezas aparece frequentemente como pronuncio do caminho da narrativa: ela desenvolve-se na mente dos personagens para se reorientar, avançar, alterar ou concluir nos diálogos subsequentes. Em WF, é como se em cada parágrafo houvesse uma identidade própria carregada de significados e questionamentos diversos, independentemente do contexto narrativo em que inserem e das personagens envolvidas.

“Tinha um rosto de olhar atento e feições brandas, mas harmoniosas. …e um jeito de virar a cabeça muito depressa para olhar para trás e olhar por cima do ombro como fazem as mulas quando na estrada encontram um automóvel.  …não havia um homem que não estivesse de olhos postos naquele forasteiro de roupas sujas e citadinas, rosto moreno e insolente e aquele olhar de desdém, frio e silencioso.  Foi muita amabilidade da sua parte.  …gora, ele está a olhar para Hightover com aquele seu olhar compadecido, perturbado e fixo, olhando através da secretária para o homem que está sentado do outro lado, com os olhos fechados e o suor a corre em bica pela cara como lágrimas.  …Continuou a fitar aqueles olhos gélidos, já desconfiados, a decifrar os seus, convencido que ela estava a ler o que neles estava escrito e não aquilo que ela pensava que lá estaria.  …via a criança com olhar profundo, intenso e interrogativo de um animal.  …os olhos eram claros e gélidos.  …mas o menino não se atrevia a olhar para o homem por causa dos seus olhos. …embora estivesse a olhar para ela, não parecia estar a vê-la, pelo menos não com os olhos. Pareciam cegos, desorbitados gélidos e fanático.  …Uns olhos, que sem serem eles próprios duros, estavam para além da própria dureza”.

“Não era só o não ser alta, era seu ar frágil, infantil. O olhar adulto, porém, via que essa pequenez era sinal, não de uma figura naturalmente esguia, mas de uma deformação interior, de algo de corrupto no próprio espírito, uma magreza que nunca fora jovem, onde, em cada curva, nenhum traço de juventude palpitava ou transparecia.  …Não sei, já disse. Os seus olhos passavam de um para outro, assustados, mas ainda não fuzilantes.  …E ali estava ele sentado, com os olhos para cá e para lá, e eles no meio do gabinete sem tirarem os olhos dele e as caras esborrachadas contra os vidros do lado de fora.   …Nada transparecia dos seus olhos, nem dor nem surpresa. Mas aparentemente não se podia mexer; estava ali caído com uma expressão profundamente contemplativa, fitando serenamente os dois homens. …Brown lança-lhe um olhar furioso, subterrâneo, indignado. desconfiado. – Já percebi, diz ele.  …ao mesmo tempo que os olhos dele, aterrorizados e desesperados percorriam incessantes o quarto vazio.  …A voz finou entre os olhos desesperados.  …Os olhos estavam submissos, atentos, misteriosos, mas, por detrás deles, à espreita, ainda lá se acoitava o medo e o desespero.  …Porque olhou para ela, despido nesse instante de toda a sua lábia, todas as mentiras.  …Estava estendido no chão com os olhos abertos e vazios de tudo exceto da lucidez e com algo vago, talvez uma sombra em torno da boca.  …O seu olhar era grosseiro, atrevido, mas simpático.  …O menino, arrebatado, de olhos arregalados, meio assustado, meio deliciado, e a velha com uma mágoa e um orgulho selvagens e pensativos no olhar.   E a olhar para ele como se sempre tivesse sabido o que ele ia fazer antes mesmo de o próprio o saber.  …O seu olhar fica vazio de expressão, como se nele se começasse a esvair aquilo que lhe dava solidez e firmeza.  …Ela começava a chorar e ele olha para ela com o desespero próprio de todos os homens perante as lágrimas de uma mulher.

Por detrás das lentes, os olhos brandos e perturbados da diretora, tinham uma expressão aflita, amedrontada, COMO SE estivessem a tentar forçá-los a ser algo que estava para lá  das suas capacidades de coesão física. …Ela não tirava os olhos dele. Daqueles olhos brilhantes e estáticos que pareciam estar, não tanto a olhar para ela, mas mais a envolvê-la.  …Era COMO SE fosse atrás de si mesma, para ver o que ia fazer numa expressão gélida e fechada COMO SE olhasse, mas não visse. …via uma criança a observá-la com olhar profundo, intenso e interrogativo de um animal. Era como se ela estivesse à espera que eu lhe batesse.   …A loira já se encontrava no quarto há algum tempo, mas ele viu-a a primeira, vez sem surpresa, COMO SE ela se tivesse, aparentemente materializado do nada, ali parada com aquela sua tranquilidade adamantina que lhe conferia uma respeitabilidade tão calma e implacável como a luva branca em riste de um polícia.  …Como se buscasse nos confins da mente um último movimento desesperado para um jogo já perdido.

Joe Natal é o personagem, branco, com sangue negro, principal do livro. Joe McEeachern por adoção. “É que tu és preto, percebes? Tu próprio mo contastes. Mas eu sou branco”.

McEeachern, pai adotante, é um proprietário agrícola vigoroso, implacável, violento e de fé presbiteriana. “McEeachern começou a chicoteá-lo metodicamente, com golpes lentos mas deliberados e fortes, sem demonstrar cólera ou emoção”.

Joe estrutura-se sobre uma denegação básica de si próprio, ter sangue negro sem desse facto conhecer as origens, que o condiciona numa contradição e dúvida existenciais permanentes, e dois pilares: 1. Uma estrutura emocional de superfície, vinda de uma mãe adotiva que não queria ter, mas que o ama genuína mas substittutivamente e constrói para ele esquemas de cumplicidade relativamente ao pai. 2. Um pai puritano, rígido, violento e crente num modelo de desenvolvimento e formação para o seu filho, baseado na fé e na posse, obtida numa riqueza responsável a partir do trabalho. O resultado é explosivo: Joe Natal será violento, dissimulado, manipulador, sociopata exímio no manejo das emoções alheias, para ele meros interesses, mas incapaz de gerir os seus próprios afetos, que não existem pela ausência individualizada e psicológica do “outro”. Tudo isto numa estrutura aparentemente normal, até cativante, assintomática á luz de uma análise apenas corrente, funcional e pouco profunda.

Sigamos Joe em parte do seu caminho: “É que tu és preto.  …E depois pensou ainda: Ele vai parecer uma ervilha numa caçarola cheia de grãos de café. …Que esse miúdo, esse Natal é preto. É o quê? Não acredito. Eu não acredito. …Ainda com três anos, o menino já tinha percebido que existia qualquer coisa entre eles que dispensava as palavras. …pois só um negro sabe dizer se uma mula está a dormir ou acordada. …o murmúrio volumoso das vozes das mulheres que o atingia, sobrepondo-se aos ruídos do seu próprio sangue. …Oiça, ele diz que criou um blasfemo e um ingrato. Pois eu desafio-a a dizer o que ele criou. A dizer-lhe que ele criou um negro debaixo do seu próprio teto, com a sua própria comida e á sua própria mesa. …Malandro, fp! A meteres-me em apuros, eu que sempre te tratei como se fosse branco. Branco. …É melhor tomares cuidado com que dizes, se é de um branco que estás a falar, diz o xerife. E não me interessa se ele é um assassino ou não”. …Via com as mãos – as travessas ainda estavam mornas, pensando: Mesa para o preto. Para o preto.   …Sempre gostou de animação. Nunca gostou de levar uma vida calma. Por isso é que nos decidimos mudar: pelo dinheiro e pela animação. …rosto moreno e insolente e aquele ar de desdém, frio silencioso e calculista. …Onde é que guardas-te o dinheiro? Deste-o à tua mãe adotiva para ela to guardar? Foi, disse Joe. A boca disse-o. Disse uma mentira e foi com um misto de choque e espasmo que ouviu a boca dizê-lo. …Mas continuava a lutar; era como se tivesse soprado um vento mau, forte e certeiro. …Quando nessa noite se foi deitar, estava resolvido a fugir. Sentia-se como uma águia: rijo, auto-suficiente, potente, sem remorsos, forte, embora soubesse que, tal como a águia, a sua própria carne e o espaço que o cercava, seria sempre uma gaiola. …Onde pensas tu que ela pode estar: Não sei, não sou vaca. …E o Brown percebeu que o Natal era doido e que não era altura de se meter com ele e então disse: Então, não somos amigos? Para que é que é que eu havia de contar uma coisa que não é da minha conta? …percebi que a minha vida não era nada se eu alguma vez o irritasse e, por isso, disse: Acho que sei ao que te referes. Podes estar descansado que não faço tensão de me meter no que não é da minha conta. Vocês também teriam dito o mesmo. Ali sozinho naquela cabana com ele e sem ninguém que me ouvisse se começasse a gritar. Vocês também iam ficar cheios de medo! …Acho que para ele, o crime que o Natal cometeu era mais um erro que um pecado.

E Mrs. McEachern: “Era ela que confiava nele, que teimava em confiar nele, tal como teimava em obrigá-lo a comer: por meio de conspirações, em segredo, fazendo até segredo do próprio facto que deveria ser supostamente ser um exemplo de confiança. …Era a mulher, com a sua proverbial tendência e propensão para o secretismo, que lançava sobre as ações mais triviais e inocentes uma sombra, mesmo se ténue, de maldade. …Ela tinha procurado ser boa para ele, desde essa primeira noite de Dezembro, havia doze anos. Estava à espera no alpendre.   … criatura paciente, martirizada, sem outra marca de sexo além, do esmerado carrapito de cabelo grisalho e a saia que vestia. …Ela tirou-lhe as meias e depois foi buscar uma bacia de água quente, fazendo-o de forma tão imediata que só uma criança não perceberia que ela já a tinha preparada e á espera, provavelmente, durante todo o dia. Só então ele falou pela primeira vez: Inda ontem me lavei. …Aos dezassete anos, recordando o passado, dava-se conta agora da longa série de esforços vãos, desajeitados, triviais, nascidos de frustrações, inseguranças, e instintos recônditos. …ela tentava meter-se entre ele e o castigo, merecido ou não, justo ou injusto, mas impessoal e aceite como um facto natural e inescapável. …Era a mulher: aquela bondade toda ela doçura, da qual se via condenado a ser vitima e a qual detestava ainda mais do que a justiça dura e implacável dos homens. Ela está a ver se me faz chorar. Ela estava a ver se me fazia chorar. Julga que é assim que me consegue prender.”.

E o pai McEachern: “O rapaz não se mexeu. Vai dar-me mais chicotadas? …O rapaz pôs o catecismo no chão. Aí não disse McEachern. …repete lá o catecismo. …A cara lavada e barbeada, apresentava-se tão dura COMO SE fosse talhada em pedra e os olhos mantinham-se frios e implacáveis, mas não hostis. …Sim, disse McEachern. Dei-ta para te ensinar a responsabilidade de possuíres, de teres, de seres dono de alguma coisa. …já destes provas de outros pecados de que és capaz: preguiça, ingratidão, irreverência. E agora apanhei-te nos dois que faltavam: a mentira e a lascívia. McEeachern atingiu Joe com o punho fechado. Não volte a bater-me, disse ele. Fui eu que lho comprei, disse Mrs. McEeachern. Comprei-lho com o dinheiro da manteiga. Ainda mentes pior que ele, disse McEeachern. A sua voz suava comedida, áspera, sem calor humano e sem prestar atenção. De joelhos. De joelhos, ajoelha-te mulher, e pede perdão a Deus; não a mim. …mesmo no acto de comer, o homem parecia manter uma postura rígida e ultrajada. Comia-se depressa. …Aproveita para dares uma volta e conheceres a cidade. Olhou de novo para Joe duro, calculista, preocupado, como um homem justo forçado a tomar partido entre a justiça e o julgamento.”

 

Vivemos tempos dominados pelo FLUXO DO AGORA, onde a consciência é cada vez mais alheia, até distante:

O AGORA financeiro com esse poder diário, quase absoluto porque anónimo, tentacular e volátil dos chamados mercados, que têm quase reféns os povos, as democracias e os governos.

O AGORA social, político e orçamental: o leitor preencha o item. Nele cabem cambiantes de todas as cores.

O AGORA caraterial com fronteiras ténues entre a verdade e a mentira, entre a seriedade e o embuste, entre a cordialidade genuína e o “ódio amistoso” e fronteiras, mais ou menos claras, entre o que se diz, o que se pensa e aquilo que pensa fazer-se.

O AGORA emocional: As relações humanas cada vez mais baseadas, na sua estrutura e funcionamento, nas AGORA mútuas vantagens.

O AGORA afetivo: As relações humanas cada vez mais mutuamente descartáveis porque ligeiras, superficiais e passageiras e, ás vezes, parecendo implantadas sólida mente e já assim, no subsolo da consciência.

 

Os resultados são, muitas vezes, já visíveis e em muitos casos quase flagrantes: os Joe/s todos os nomes andarão por aí ou estarão apenas a caminho? Oxalá nem uma coisa nem outra!

 

 

*Edição Mil folhas do Jornal Público

 

Outras obras de WF:

O Som e a Fúria, 1929

Sartoris, 1929

Enquanto agonizo, 1930

Uma Fábula, 1954

Os Desgarrados, 1962

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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