LETRAS @CORdadas – Vergílio Ferreira

por Miguel Alves | 2016.07.26 - 16:14

 

 

(Vergílio Ferreira, 1916 – 1996)

Prémio Camilo Castelo Branco da APA, 1960

Grande Oficial da ordem Militar de Sant´Tiago de Espada (1979)

Prémio PEN da Associação Internacional de Críticos Literários, 1983

Prémio de Romance e Novela da APE,1988 e1994

Membro da Academia de Ciências (1992)

Prémio Camões de 1992

 

 

Vergílio António Ferreira nasceu em Gouveia. Onze anos depois, seus pais emigram para o Canadá em busca de uma vida melhor e perante a pobreza generalizada daquela zona da Beira Alta, tal como do país na sua generalidade. Ficou com os seus irmãos mais novos ao cuidado de tias maternas. Após uma peregrinação a Lourdes, ingressa no seminário do Fundão onde estudou durante seis anos. Acaba o curso liceal na cidade da Guarda, ingressando depois na Faculdade de letras de Coimbra onde conclui o curso de Filologia Clássica em 1940. Fez o estágio subsequente para a carreira no liceu D. João III na mesma cidade, tendo de seguida iniciado a sua atividade como professor que o levou por cidades como Faro, Évora, Bragança e Lisboa.

VF é um dos grandes nomes da literatura portuguesa do século XX nas áreas da ficção (romance e conto), do ensaio e diário. A sua obra literária desenvolve-se e assenta em dois modelos filosóficos que definem os dois períodos relativamente distintos sua vasta produção artística: o neo-realismo e o existencialismo. “Mudança”, 1949 é considerada a obra de transição entre estes dois períodos do seu porvir literário, a par de “Cântico Final”, 1960 onde começa a antecipar novos temas e novas técnicas*1.

O realismo surge na segunda metade do século XIX como reação ao romantismo (primeira metade) e este havia surgido como reação ao classicismo e neoclassicismo do século XVIII. O neo-realismo emerge na primeira metade do século XX, mantém princípios semelhantes ao realismo e ao naturalismo (uma variante do primeiro e cujo expoente criativo maior foi Émile Zola em França) e vai inspirar-se sobretudo nas correntes modernistas, em Marx e nas questões que Freud e a psicanálise freudiana levantara. A objetividade, a neutralidade, no fundo a realidade, são os princípios a respeitar para que a narrativa literária possa ter impacto e credibilidade. Os neo-realistas são, por isso, interventores sociais e políticos a que a crise da década de 20 não foi estranha, tal como os regimes ditatoriais em Portugal, Brasil e Espanha. O percurso neo-realista vai desembocar e culminar na corrente existencialista. O filósofo Soren Kierkegard é considerado o pai do existencialismo. Ele defendeu que todo o homem é o único responsável em dar significado à sua vida, por vivê-la ou não de forma apaixonada e apesar de todos os dramas que a possam constituir. Ao existencialismo podem ser ligados nomes decisivos da cultura e filosofia ao longo da história, como Sófocles, Santo Agostinho, A. Shopenhaueur, F. Dostoiévsky, F. Nietzche, M. Heideger. A existência precede a essência é a máxima do existencialismo. Aí se situará a fundação da liberdade e responsabilidades individuais, antes de qualquer definição prévia do seu ser e destino. A resposta ao que somos, o que fazemos, para onde vamos, o que nos move, remete para a liberdade e responsabilidade individuais. A consciência desta realidade, conduz para temáticas como o absurdo da vida, a barbárie individual e coletiva, a injustiça, o abandono, a solidão, a impotência, todas elas muito visíveis nos textos existencialistas. O existencialismo tornou-se mais conhecido e popular, mais uma vez, pela escrita de um casal francês, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir (“O Existencialismo é um Humanismo”, 1945). A criação e obra literária de VF enquadram-se nestes dois períodos do pensamento e cultura europeias, e é aí que este percurso é marcadamente visível.

 

Quero hoje @CORdar uma das suas obras fundamentais: “Aparição”, 1959. “Aparição” é uma viagem pelo interior da alma e condição humanas, onde sucessivas “aparições” surgem em pleno esplendor, como também carregadas de dramatismo, enlevo e sedução, angustia, fracasso e desilusão, expetativa e sonho (…procuro em mim a face original da minha presença no mundo). Esta viagem carregada de “aparições” é sobretudo um percurso interior de VF que ele também estende, espraia, aprofunda e questiona a muitos dos personagens da história que conta. História que, na nossa modesta opinião, é meramente subsidiária dessa viagem interior, aos interiores de que todos somos portadores. “Tinha talvez ainda alguns poemas a escrever, mas sobretudo tinha de me visitar de vez em quando, de me não perder da minha aparição. … mas a cidade pareceu-me despovoada. Sentia-a assim. As fachadas dos prédios desciam obliquamente, nuas, como numa aparição a um jacto de velocidade. Nunca pensaste na morte? Claro que pensei. Tenho seis filhos, quase sete. Como não pensar? Mas não era disso que eu falava. Adequar a nulidade da vida à sua brutal necessidade. Pensá-la no domínio práctico é fácil como estar entretido. Mas não era isso: era assistir à aparição incandescente da nossa própria pessoa, ver o jacto fulgurante que sai de nós e não ficar cego, não ficar atordoado. Teria ele atingido o cimo inverosímil que eu sonhava existir como limite indistinto da minha busca sufocante? Ter-lhe-ia aparecido a evidência da plenitude num mundo desértico, com rastos profundos de tantas vozes mortas? Chico pensa na utilidade práctica. Mas se através dos tempos o homem pensasse apenas na utilidade práctica, hoje não seria um homem seria um parafuso. Tu não és de parte alguma, de tempo algum, Cristina. Súbita aparição, foste surpresa em tudo para todos. Que tu sejas grande, Cristina. E bela. E invencível. Que te cubra o dom divino, no centro do qual te vejo como no milagre de uma aparição. Ana mergulhara já numa nova “natureza”, num ser integrado de si mesmo, fechado em si mesmo, como uma coisa. Não, não quero saber. Sei já há tanto tempo …mas nenhum saber conserva a força que estala do que é aparição. Não procures a noite por não suportares o dia. Leva para o sol a tua aparição e serás um homem. De Amarante a Vila Real, a serra do marão ressoa à hora original do meu destino, do mundo inicial da minha aparição, aberto a terrores de grandes córregos, de vastas superfícies nuas, de silêncios suspensos de nevoeiros. Um súbito clarão ilumina os vitrais, o silêncio da catedral, com um sinal antiquíssimo de aparição de um deus bíblico. Fale-nos de qualquer coisa. É o convite ao sonho, talvez à aparição. E então eu vi, eu vi abrir-se à nossa frente o dom da revelação”.

O conceito de aparição, remete para a essência de si próprio, da sua própria descoberta, das suas dúvidas, angústias e questionamentos, para a tentativa de o homem se tornar visível a si próprio. Esta viagem tem início numa outra acompanhada de avisos de tragédia: Alberto Soares professor de liceu, chega a Évora após a morte do pai, angustiado, sombrio e descrente. Alberto Soares é o alter-ego do escritor nele autobiografado nas suas relações consigo próprio, com Deus e com a sociedade. Será nele que irá processar-se a sua própria aparição (“Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu. Eis-me procurando a verdade primitiva de mim, verdade não contaminada ainda pela indiferença”). Évora é uma cidade branca, católica, plana na sua imensidão e imensa na sua planura. Não será fácil a sua integração (“… o Alentejo era trágico, não lírico, só a praga, a blasfémia ardente o exprimia”). Aparecem depois a amizade com Sofia, Ana e o conhecimento interno e aprofundado das suas respetivas famílias; também Carolino, o Bexiguinha, muito próximo das suas ideias, dúvidas e perplexidades. Este virá a assassinar Sofia, fascinado pelo poder criativo da morte (“Eu não digo que se mate, senhor doutor, eu não digo isso. Digo é que matar é igual a criar. E riu, imbecilmente, infantilmente, pálido, as espinhas pontuando-lhe de novo a cara”).

A narrativa de VF nesta obra é simples, mas profunda e essa profundidade encontra-se sobretudo na densidade emocional e lírica dos seus personagens. Uma aparição permanente. Introduziu em Portugal aquilo que já André Malraux havia lançado: o romance de ideias que ultrapassou os modelos anteriores de romance espetáculo, romance problema e romance lírico.

Depois falou Tomás. As suas mãos, grossas e escuras como fragas quase não faziam gestos, os seus olhos desciam sobre si, sobre Isaura e os filhos, como se receasse perder-se de uma comunidade de raízes onde tudo estava certo: a harmonia da vida e da morte. E enquanto o homem falava eu olhava-lhe a face escurecida dos séculos, os olhos doridos da sua divindade morta. A minha retórica vem do desejo de prender aquilo que me foge. E ali ficou com a sua presença inquietante, oblíqua de aviso nos olhos lúcidos que entreabria com um lampejar metálico. O meu pai era um anticlerical esturrado. Com pêra e tudo. O moralista é normalmente um pecador. A moral vivida não se prega. O que mais detesto num demónio não é o mal que faz: é a sua pedantice. Chico teve um riso cru, o seu riso áspero de fibra. E colado ao teu estratega talvez ingénuo mas eficaz, colado à tua luta subterrânea e imediata, incorporado a uma força quase natural. Ele criara-se em puro ateísmo, nada anti. Porque ser anti é correr o risco de ser pró. Carolino à frente, de olhar inquieto, mas não tímido, Chico atrás, bloqueado de força, o ar empertigado de boxeur. …a nulidade de um pobre professor, de um jovem magro, assustadiço, não alisado pelo uso e em cujas arestas é fácil prender as mãos. Ele sofreu um choque com a minha decisão. Eu olhava-o sempre, de coragem apontada. O seu olhar espesso de sonho, mas vivo de ânsia, de sorriso longínquo, envelhece agora numa quase severidade entre rugas de pedra imóvel. Tinha os seus meios de combate, sem que mostrasse aplicar-se a eles com muito empenho. Alfredo espalhava sobre a mesa uma torrente de palavras, mas que não nos atingiam. Como a agitação de uma superfície a uma profundeza”.

Face às influências filosóficas e em consequência sociais e políticas, bem como familiares, do país e do local de origem de VF, a sua escrita é marcada por temas humanos e sociais de primeira grandeza e importância como sejam o sentido da vida e da morte, a desigualdade, a amizade e a manipulação, a normalidade e a anormalidade/loucura, a autenticidade e a mentira, a arte, o belo e o ridículo. Muitos deles estiveram na origem de polémicas e discussões em que se envolveu no pleno exercício da cidadania de que ciosamente era portador.

A vida estará toda ela por conquistar, desde o limiar das origens. Eu não tenho medo da morte, a morte é a gente antes de ter nascido.  Que ilusão! A busca indefinida é do destino do homem. Mas outra busca depois desta. A minha procura é a primeira, a que está antes de todas, a que encontre para este corpo mortal, esta luz vivíssima e imortal, o seu lugar ignorado num universo que se cumpre com ventos e águas e serras e desertos e planetas e Vénus e Marte e estrelas. Mas eu queria soluções para toda a idade da vida, eu queria uma certeza assumida, assimilada para a ameaça da morte. Sei o milagre da vida, por isso a morte me humilha. Porque a mecânica dos meus dias, a execução da vida não dava pela sua falta. Mas que me é essencial? Que define realmente a minha necessidade? Descobri-me na negação e na procura. E os problemas, não sendo nossa invenção, não tendo nascido em nós, em que medida não são o nosso pensamento? Tu dizes e eu também que tudo o que interessa à nossa vida é a nossa criação: O teu problema criaste-o tu? Tens a certeza? É preciso cuidado, todos temos inimigos. A massa de amigos com que fui fraternizando através da vida, despreza-me com náusea. E, no entanto, nenhum deles tem uma resposta que aniquile o que me fascina. Porque só se é homem assumindo tudo o que fale em nós. Tenho então de descer ao nível deles, dar-lhes o prazer de me vencerem e tentar depois na minha aparente derrota, na minha submissão, o suborno para o que me interessa. Toda a profissão social é uma abdicação. Há homens que em toda a vida afirmam e se negam só para se afirmarem. Pergunto-me a que fundura de si mesmos vai o seu ser categórico. Mas eles próprios o ignoram ou se desinteressam disso. Há gente cobarde para tudo, para aceitar, para acreditar, para jogar a vida numa solução. Como se houvesse uma solução. Sê feliz, moço. Ou sê infeliz, que é a forma mais nobre talvez da felicidade. Arrepio-me, confrange-me, tento achar o significado deste prazer no rebaixamento do cómico, neste aceno à animalidade, no gosto da assunção do grotesco como se no homem não se calasse uma saudade do reles, um eco grosso da enxúndia.

Lembrei-me do Carolino: a loucura era acessível a todo o homem, era do destino de todos: chamamos “loucos” aos que não regressam dela.

 

Em síntese, diz VF: “Vivemos numa época formidável. A única verdade a conquistar é a de que todos os homens têm direito a comer. Mas, se em todas as épocas se tivesse só pensado na melhoria económica, hoje não seríamos homens, seríamos apenas máquinas. O meu humanismo não quer apenas um bocado de pão; quer uma consciência e uma plenitude”. Como hoje!

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*1. Um outro movimento importante deste período foi o estruturalismo com o qual VF não nutriu nenhuma simpatia, antes expressiva oposição. Surgiu nos anos vinte e teve o seu apogeu nos anos sessenta do século passado. É considerado por alguns como não sendo um sistema filosófico, antes um processo de análise em que são criados modelos (estruturas) explicativos da realidade. Estrutura é um sistema abstrato cujas componentes são interdependentes e que, ao verificarem-se os factos e relacionando as diferenças entre eles os pode descrever, ordenar e explicar os seus dinamismos. O estruturalismo foi usado por figuras incontornáveis da cultura europeia: Claude Lévi-Strauss (mitos); Ferdinand de Saussure (linguística); Roland Barthes (mitos nas sociedades modernas); Michel Foucault nas estruturas discursivas que condicionam o pensamento e a ação. As prisões foram um exemplo (“Vigiar e Punir, 1975); Louis Althusser que fez uma leitura estruturalista de Marx.

De alguma forma, o estruturalismo pode ser considerado como a fundamentação teórica da anulação do sujeito na realidade e ação humanas. Para VF, ele “proclama o sistema no lugar do sujeito, a morte do autor”. Todos tiveram alguma razão. A questão maior é sempre a mesma: O que é a razão, onde está a verdade, o que é a verdade? “Tinha eu afinal uma verdade e não apenas uma dúvida? Que orgulho subtil de termos sempre razão, ainda que a razão magoe?”, pergunta VF em “Aparição”.

 

Outras obras de VF

Ficção

A curva de uma vida, 1938;

Onde tudo foi Morrendo, 1944;

Vagão”J”, 1946;

Promessa, 1947;

Mudança, 1949;

A face Sangrenta, 1953;

Manhã Submersa, 1954 (transposta para o cinema em 1980 por Lauro António);

Cântico Final, 1960:

Apelo da Noite, 1963;

Alegrias Breve, 1965;

Nítido Nulo, 1971;

Rápida, a Sombra, 1974;

Para Sempre, 1983;

Até ao Fim, 1987;

Em nome da Terra, 1990;

Na tua Face, 1993;

Cartas a Sandra, 1996.

Conto

Contos, 1976.

Diários

Conta Corrente, 1980 – 1987;

Pensar, 1992;

Conta Corrente (nova série), 1990 – 1994.

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Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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