LETRAS @CORdadas – (Salman Rushdie: Bombaim, 19 de Junho de 1947)

por Miguel Alves | 2014.08.23 - 07:35

(Salman Rushdie: Bombaim, 19 de Junho de 1947)

Salman Rushdie é um escritor de origem e cultura anglo indiana que faz uso da mitologia, da religião, da tradição oral e da fantasia nas suas obras. Há quem o inclua no chamado realismo mágico, cujo expoente máximo é o recentemente falecido Gabriel Garcia Márquez e que na literatura de origem inglesa inclui nomes como Peter Carey, John Fowles, Emma Tennant, Ângela Cárter e outros.

Quero hoje @CORdar o seu livro mais conhecido: “Versículos Satânicos” (1988*1) e que lhe valeu a condenação à morte por parte dos líderes religiosos do regime teocrático do Irão em Fevereiro de 1989. Esta condenação teve origem na polémica gerada no mundo islâmico com a linguagem violenta e obscena do livro e nas referências que nele são feitas a figuras, imagens, instituições e história islâmicas que ofenderiam o Islão (“A luxúria do bode é a largura de Deus”). O título do livro foi buscá-lo a um acontecimento da vida de Mohamed (Momé): Os versículos satânicos teriam sido palavras que Maomé terá pregado aos seus fiéis e que não teriam sido enviadas por Deus através do anjo Gabriel, mas de satanás. Maomé ter-se-á arrependido do que dissera, justificando-se que os profetas também tinham os seus desejos adulterados por satanás, mas que Deus teria reposto a verdade da fé através do seu arrependimento e que o levou a retirar os versículos satânicos do texto original. Também o profeta Momé é retratado no livro pelo profeta Mahound, nome que corresponde ao de Maomé satânico na perspectiva dos islamistas medievais. Ofensas ao Islão são ainda nesta obra, as referências à atividade sexual de Mahound no bordel Hijab (véu islâmico), bordel este situado perto de Ka´aba, o maior e mais importante local de culto islâmico em Meca. Importa referir que a Maomé foram concedidos privilégios sexuais únicos que nenhum outro muçulmano podia ter.

Por força da reação internacional a este atentado às liberdades individual e de expressão e do manifesto fator de divulgação da sua obra que a mesma representou, essa condenação acabou por ser revogada pelo regime iraniano em 1990 após um pedido de desculpas aos muçulmanos por parte do escritor e a reafirmação do seu respeito pelo Islão. Mesmo assim, a Fundação dos Mártires afirmou que a condenação continuava em vigor e ofereceu um prémio de 2,8 milhões de dólares pela sua morte.

“Versículos Satânicos” é um romance que começa com um salto inimaginável, embora verosímil: dois passageiros de um Bostan, voo AI-420, estoira sobre o canal da mancha a vinte e nove mil pés de altitude, em resultado de uma atentado terrorista, cujo “realismo mágico” é descrito em I-4 do livro. Por entre destroços, Gibreel Farishta, um lendário ator indiano e Saladin Chamcha, uma personalidade patética e anglófilo radical, “migalhinhas de tabaco de um velho charuto partido”, precipitam-se sobre o canal da mancha agarrados um ao outro, cantando canções rivais e anunciando algumas das grandes questões de que o livro irá tratar. ” Para se nascer de novo, é preciso primeiro morrer. Digo-te que tens de morrer, digo-te, digo-te. Vai para o diabo mais as tuas canções; nos filmes tu só mexias a boca enquanto outros cantavam por ti. Poupa-me a esses barulhos infernais. Será o nascimento sempre uma queda? A digna Londres, pestanejava, piscava, acenava no meio da noite! Aí vamos nós! Esses sacanas lá em baixo nem vão perceber o que lhes aconteceu. Meteoro, trovoada ou castigo de Deus? À mistura com os restos do avião, igualmente fragmentados, igualmente absurdos, flutuavam os detritos da alma, recordações destroçadas, mudas de pele de personalidade várias, línguas maternas decepadas, privacidades violadas, anedotas intraduzíveis, futuros extintos, amores perdidos, o sentido olvidado de palavras sonoras e ocas, pátria, pertença, lar. Lá em cima no ar-espaço, o lugar do movimento e da guerra, do encolher do planeta e do vazio de poder, a mais insegura e transitória das zonas: quando se atira tudo ao ar tudo se torna possível; sob uma pressão extrema do ambiente, certos carateres foram adquiridos”.

Na queda para o mar, Gibreel vislumbra Rekha Merchant, umas das personagens do romance e que foi das primeiras mulheres com que se envolveu: “perdeste o caminho do céu ou o que foi que te aconteceu? Palavras insensíveis para dizer a uma mulher morta. O que é que julgas, meu excremento de porco; com a morte vem a honestidade, por isso posso agora tratar-te pelos teus verdadeiros nomes. Não lhe devias ter feito o que fizestes, foi um pecado. Bem podes vir pregar agora, riu ela. Não deixa de ter graça ouvir-te falar como um professor de moral. Foste tu que me deixaste, que se escondeu atrás de uma nuvem. E eu cega, perdidas por amor. Agora que estou morta já me esqueci como se perdoa.

Foram eles os únicos sobreviventes do desastre, os únicos que deram á costa. Tinham caminhado sobre as águas e as ondas os tinham trazido suavemente até ali. Meu Deus que sorte. A primeira coisa que essa vontade de viver lhe comunicou foi que não queria ter nada a ver com a sua personalidade lastimosa, esse composto semi-construído de mímica e de vozes. Tencionava ignorar tudo isso. Qual deles operou o milagre: o satânico, o angélico? Renascemos, pateta, tu e eu”.

 

“Quem lê quer saber; quem não lê quer errar”

(Pe. António Vieira-1608.1697)

Quem são Gibreel Farishta e Saladin Chamcha?

Gibreel é objeto da piedade de um casal sem filhos que o introduzem no mundo do cinema. Começa por entrar em filmes sem importância com papéis de falhado, idiota e vigarista incompetente. Vivia sozinho, sexualmente abstinente. Finalmente entra numa série de grande sucesso e daí em diante a sua ascensão foi imparável. Se até aí fugia dos temas do amor, do desejo e sonhava como seriam as mulheres depois de tirarem a roupa, após o sucesso desta série, com o poder e estatuto social que esta lhe permitiu, começou a atrair as mulheres de forma quase irresistível. O seu auto conceito eleva-se de tal forma que passa a considerar-se o centro do (seu) mundo, orientando toda a sua vida pela matriz dos seus interesses, sem memória, honra ou dignidade. Nesta fase, cruza-se com a mulher que constituirá para ele uma espécie de alter-ego (demonstrado na queda após a explosão do avião), que ele utilizara sem escrúpulos e sem que tal papel alguma vez tivesse penetrado na sua estrutura psicológica. Conheceu ainda Alleluia Cone, uma mulher com quem realizou todas as sintonias: sentimentais, carnais e existenciais: “Juro-te, quando a beijei apareceram faíscas, foda-se, podes não acreditar mas é verdade. Uma pessoa por quem fosses capaz de dar a volta ao mundo, por quem deixasses tudo, saísses porta fora e apanhasses um avião.

…as seduções da sua fama eram tão grandes que várias jovens senhoras lhe pediam para pôr a máscara de Ganesh (Deus) enquanto fazia amor com elas. Sentia grande necessidade de compensar o tempo perdido. Tinha tantas parceiras sexuais que não raro esquecia os seus nomes mesmo antes de elas lhes saírem do quarto. Não só se transformou num galanteador da pior espécie como aprendeu também as artes da dissimulação, pois um homem que faz de Deus deve estar acima de todo o reparo. Despreza a carne de que se alimenta. O teu problema é que toda a gente te perdoou sempre, só Deus sabe porquê, sempre te deixaram em liberdade, os teus crimes sempre compensaram. Nunca ninguém te responsabilizou pelo que fizeste. Só Deus sabe de onde é que julgas que vinhas, criatura saída da sarjeta, só Deus sabe que doenças de lá trouxeste. Mas as mulheres eram assim mesmo. Eram os recipientes onde ele se vazava, e quando as deixava, deviam compreender que era assim a sua natureza e perdoar. E a verdade era que ninguém o censurava por se ir embora, pelos seus mil e um momentos de negligência, quantos abortos, quantos corações destroçados. Ao longo de todos esses anos fora assim beneficiário da infinita generosidade das mulheres, beneficiário mas também vítima, pois o seu perdão permitia a mais profunda e a mais doce de todas as corrupções, ou seja a ideia de não estar a fazer nada de mal. Criatura de superfícies, como um ecrã de cinema”.

Após este período de intenso trabalho, adoeceu quase até à morte. O país parou, o primeiro-ministro vai visitá-lo. Após ter perdido a fé, de ter violado as leis da sua religião, regressa ao trabalho e mete-se no avião que irá cair a caminho de Londres. Nesse mesmo avião viaja Saladin Chamcha de regresso ao seu país.

Quem é Saladin? Filho de um industrial de produtos químicos e fertilizantes em Bombaim, que “sentia o perfume do dinheiro a cem milhas de distância”. Em criança, ao vir da escola encontra no chão uma carteira cheia de rupias e libras. Ao chegar a casa, o pai tira-lhe a carteira (mais tarde entenderia que seu pai sempre o espiara) e guarda-a. Mais tarde esse dinheiro servirá para seu pai o levar para Londres para se educar e se formar. Entre Londres e Bombaim, nas férias e ao longo da vida, Saladin conhece Palmela Lovelace, inglesa, deprimida e desolada de quem não teve filhos por ser sua a culpa e Zeenat Vakil, atriz e mais tarde médica de renome. Para esta, Saladin é um desertor que pretende ser mais inglês que os ingleses. Na sua carreira artística, começa com pequenas representações até que um programa de televisão para crianças (A hora dos extra terrestres) lhe faz perder o sentido do dinheiro. O programa é objeto de críticas de natureza social e política que o transformam num alvo a abater. Este período corresponde ao desaparecimento de Gibreel e, na sua falta e perante a necessidade de quem o substituísse como grande estrela, ele irá ocupar o seu lugar: “empertigado, quarentão, o rosto era belo de uma beleza um pouco desdenhosa, aristocrática, com lábios grandes, grossos, de cantos voltados para baixo, como os de um rodovalho enfastiado e sobrancelhas finas firmemente arqueadas sobre uns olhos que examinavam o mundo com uma espécie de desprezo atento. A combinação de rosto e voz era poderosa. Homem corpulento, um gigante até, para já não falar da sua riqueza e posição social, conservara sempre a ligeireza de movimentos. Dá cá. O chão é sujo e o dinheiro é ainda mais sujo do que o chão. A partir de então o filho convenceu-se de que o pai frustraria todas as suas esperanças a menos que ele próprio se fosse embora, e daí em diante andou sempre desesperado por partir, por fugir, por colocar oceanos entre si e o grande homem. Quando o impossível aconteceu: o pai, sem mais nem menos lhe propôs que fosse estudar para Inglaterra, para me afastar do caminho, pensou ele, não pode haver outro motivo, é evidente, mas a cavalo dado… A mãe, recusou-se a chorar, e ofereceu, em vez disso, uma série de conselhos úteis. Vê lá não fiques porco como esses ingleses. Eles limpam o traseiro só com papel. E além disso usam a água suja do banho uns dos outros”.

O longo da obra estas duas figuras confundem-se, sofrem metamorfoses e transformações físicas que fazem deles “anjo” um, e diabo (bajulador) o outro. A sua relação expressa o eterno conflito entre o bem e o mal. Gibreel questiona e perturba-se com a sua velha identidade inglesa, perde a fé e desiste do amor e dos afetos. Saladin regressa às suas origens e cultura indianas, reconciliando-se com aquilo que havia recusado. No final, o que fora o bem suicida-se perante os tormentos da sua identidade e o mal melhora de aparência e caráter.

Nestes dois personagens centram-se alguns dos maiores dramas da condição humana e daquilo que dela podemos conhecer, nomeadamente o bem e o mal: quem é e o que é bom e quem é e o que é mau. Como conhecer a estrutura que suporta uns e outros. Gibreel na versão do seu alter-ego é um sociopata ostensivo que os manuais não descreveriam melhor, apenas com linguagem mais técnica e menos construída sobre a expressão concreta da sua essência. Porque será que quase toda a literatura precisa de uma figura parecida para a construção literária? Estará aí expressa a maldade da condição humana nas suas formas e gradientes mais expressivos? O seu suicídio terá sido uma redenção (nestes casos pouco provável) para a sua “personalidade lastimosa de mímica e vozes”, “homem funesto” a expressão de Agustina sobre José Augusto em Fanny Owen, ou o resultado da carga estrutural negativa que era sua condição? Saladin remete-nos para o que de mais arcaico e primitivo tem a condição humana: as raízes que a formatam com a sua força e peso, decisivos e implacáveis. A sua qualidade determinará sempre o desenlace final ou as socializações ditarão, de uma forma ou de outra, as suas regras?

Determinante neste livro é a questão religiosa. O Islão, tolerante, pacífico e não violento, na sua matriz original, carrega componentes extremistas que lhe alteram essa matriz primeira. Poderá a religião (monoteísta ou não) impor a Deus programas de fé e destino da condição humana que impeçam aquilo que Deus, ele próprio, quererá para ela? “A fé religiosa que representa as mais altas aspirações da raça humana é agora no nosso país escrava dos mais baixos instintos. Uma espécie de pulsão de morte deslocada: matar aquilo que se ama e assim se destruir a si próprio”.

A teocracia, os regimes teocráticos, não darão a Deus aquilo que não lhe pertence, na medida em que retiram à condição humana aquilo que é a sua “quinta-essência”: a inteligência e a liberdade de usá-la?

Rushdie afirmou em entrevista “A liberdade de expressão é o coração da humanidade. A despolitização do Islão é a urtiga que todas as sociedades muçulmanas terão de agarrar com as mãos para se poderem modernizar”.

Se juntarmos à liberdade a liberdade de expressão e a solidariedade, estará aqui a matriz mais nobre para a vida e a condição do progresso” dos nossos irmãos muçulmanos e de qualquer outra sociedade: a Deus o que é de Deus e ao homem o que é do homem, mesmo que este seja obra sua.

Os tempos que correm exigem o retorno da velha orientação humana e psicológica da realidade e da condição humana. A solidariedade e o caráter têm que ser destino. Ao contrário do que é dito neste livro, embora em sentido crítico: “Nos tempos que correm, o caráter já não é destino. A economia*2 é o destino. A ideologia é o destino. As bombas são o destino. Uma grande fome, uma câmara de gás, uma granada, querem lá saber como é que…”.

Nestes dois paradigmas, onde cabem a Palestina, Israel, o Iraque, o Afeganistão, a Ucrânia?

*1. D. Quixote/Círculo dos Leitores/1ª edição.

Apoiada pela Secretaria de Estado da Cultura, Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, Associação Portuguesa de Escritores, Pen Club Português e Sociedade Portuguesa de Autores.

*2. Economia, sobretudo, especulativa e gananciosa. Veja-se, obrigatoriamente, o programa “Inside the Job – as origens da crise”. SIC – 14.08.17.

Outras obras de Salman Rushdie:

Grimus, 1975.

Filhos da noite, 1981.

Vergonha, 1983.

O sorriso do Jaguar, 1987.

Oriente, Ocidente, 1994.

O último suspiro do mouro, 1995.

Shalimar, o equilibrista, 2005.

A feiticeira de Florença, 2008.

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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