Letras @CORdadas – Ramalho Ortigão

por Miguel Alves | 2016.04.20 - 09:36

 

 

(Ramalho Ortigão, 1836-1915)

 

Ramalho Ortigão nasceu no Porto e foi o mais velho de nove irmãos numa família abastada da burguesia portuense; o seu pai era primeiro-tenente de artilharia e combatente da causa liberal. Iniciou o curso de direito na universidade de Coimbra que não viria a concluir. Dirigiu o colégio da Lapa no Porto de que seu pai havia sido diretor e tivera como aluno Eça de Queiroz. Iniciou-se no jornalismo e cedo começou a escrever em diversas revistas, nomeadamente: Gazeta literária do Porto, 1886, Revista de estudos livres, 1883-1883, Galeria Republicana, 1882-1883, Branco e Negro, 1896-1898, Acção realista, 1924-1926, Serões, 1901-1911.

Envolveu-se na questão coimbrã com o folheto “Literatura de hoje”, tendo desafiado Antero de Quental a um duelo de espada, apelidando-o de cobarde pelo facto de ter insultado António Feliciano de Castilho quando este já se encontrava cego. Saiu ferido num braço deste embate que perdeu.

Fez parte do grupo de intelectuais que constituía o Cenáculo e onde teve os primeiros contactos com o positivismo de Comte e o socialismo utópico de Proudhon.

Insatisfeito com a sua vida no Porto, conseguiu um lugar de oficial na Academia de Ciências em Lisboa, onde viria a reencontrar o seu velho amigo Eça de Queiroz. Com ele escreveu o primeiro livro, “O Mistério da Estrada de Sintra, 1870”, que foi considerado pelos próprios autores “um romance execrável”, mas que viria a ser o embrião da literatura policial em Portugal. Com Eça começa em 1871 a escrever os primeiros folhetos de “As Farpas”, tarefa que passou a caber-lhe apenas a ele em 1872 quando Eça inicia funções consulares em Havana. Eça viria a ser crítico em relação a esta obra e à orientação que RO lhe imprimiu. Numa carta publicada na revista portuense “Renascença”, Eça caraterizou essa mudança na orientação literária de RO afirmando que ele evoluíra de “folhetinista diletante” para “panfletário ilustre”*1.

Fez parte da famosa Geração de 70, mais tarde assumida como de “Os vencidos da vida”, por força da sua evolução intelectual, artística e ideológica. Na última fase deste grupo marcante da história cultural portuguesa do século XIX, à sua intectualidade dominante juntou-se um rol notável de membros da alta aristocracia portuguesa, como o Conde de Ficalho, o Conde de Sabugosa, o Conde de Arnoso, o Marquês de Soveral e outros, que almejavam a restauração do prestígio da monarquia portuguesa, tendo o próprio rei D. Carlos sido seu confrade suplente, facto muito pouco conhecido e assinalado.

Foi bibliotecário da Real Biblioteca da Ajuda, membro da Sociedade Portuguesa de Geografia, da Academia de Belas Artes de Lisboa, do Grémio Literário e do Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro.

Foi agraciado com a comenda da Ordem Militar de Cristo e da Imperial Ordem da Rosa do Brasil. Em Espanha com a Grã Cruz da Ordem de Isabel a Católica. Neste país foi membro da Academia de História de Madrid, da Sociedade Geográfica de Madrid, da Academia de Bellas Artes de San Fernando e da Unión Iberoamericana.

RO é reconhecido literariamente sobretudo pelas “As Farpas”. É esta obra que melhor o carateriza como escritor e homem; cosmopolita, mundano, dândi, diletante e, ao mesmo tempo, crítico e defensor das tradições nacionais. É aqui que a sua escrita se desenvolve escorreita, clara, leve, expurgada e utilizando como veículo dominante a sátira política e social. A sua obra mistura anotações estéticas e muitas componentes líricas e humorísticas.

Quero hoje @CORdar a obra que mais aprecio em RO: “A Holanda, 1885 ”. Trata-se de um livro de 482 páginas, numa nona edição da Livraria Clássica Editora não datada, enriquecida com gravuras que retratam a Holanda territorial e que traz o prefácio escrito pelo próprio RO para a terceira edição da mesma obra. Desenvolve a viagem que RO empreendeu a este país e no qual nos transmite um retrato culto, atento, minucioso e bastante exaustivo na descrição da história e cultura deste país. O livro tem ainda uma caraterística que considero muito interessante: a comparação que faz de alguns aspetos e períodos da história, cultura e costumes do povo holandês com as idiossincrasias dos portugueses, bem como de figuras históricas em períodos semelhantes dos dois países. Fá-lo com um sentido crítico, muitas vezes mordaz e irónico, mas acutilante e possuidor de uma capacidade de análise penetrante e dirigida, numa escrita clara e muito desenvolta.

Este livro tem oito capítulos: As Origens, Os primeiros Aspectos, Campos e Aldeias, As Cidades, As Casa e os Indivíduos, As Colónias, A Arte.

Vivemos hoje tempos decisivos da construção do projeto europeu, a caminhada mais visionária e ambiciosa da história da humanidade. Num continente em que as guerras fizeram parte constante e dominante da sua história, a União Europeia é o sonho maior das relações e governo de/entre povos e nações a nível planetário. Este sonho e ambição, que todos desejamos se realize, tem em si a circunstância de recortar e evidenciar de forma clara e muitas vezes dolorosa, as potencialidades e limitações de todos estes povos resultantes do seu passado e da forma com eles integraram e assimilaram as influências e “dogmas” dos tempos que foram vivendo. A conciliação de percursos históricos tão diversos e desencontrados, a par dos processos tão multiformes como foram geridos e vividos, faz do sonho europeu, talvez, a maior ambição da humanidade. É o que RO faz neste livro: evidência e recorta alguns dos traços que, parecem, invariar e dominar a nossa forma de ser, ao lado do que verificou acontecer na Holanda.

A frase com que RO começa o livro é, por si só, um marco referencial para tudo o que nele escreveu: “A Holanda tomou na história o nome de nação quando Portugal, tendo já quatro séculos de existência, acabara de definir o seu vasto papel gloriosos no drama da Renascença. Até ao século XVI a Holanda era para nós o pântano tenebroso, a região anfíbia, ora água, ora terra firme; um pouco de lodo envolto em névoa. Habitado por uma raça misteriosa, maldita dos deuses. Foi preciso que Filipe II pretendesse impor-lhe o catolicismo e a inquisição para que a Holanda entrasse na vida histórica, dando à humanidade um novo direito – todo um mundo moral – o direito da cada um à inviolabilidade da consciência”.

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Em Portugal, D. João III, anuncia frei Baltasar de Sousa como seu negociador em Roma para a instalação e domínio da inquisição no país.

“Para opor à vontade esmagadora do soberano espanhol, a Holanda, anárquica, pobre e obscura, teve a liga dos Maltrapilhos*2, à frente deles dois verdadeiros heróis: um que é o braço da revolta, o príncipe Guilherme de Orange, o Taciturno; o outro que é a cabeça da revolução, Marnix de Sainte Aldegonde. Portugal monárquico, glorioso e rico, não teve resistência que opor ao arbítrio de um tirano. Em frente da ameaça de aniquilamento lançada pelo despotismo católico, em Portugal não aparece um homem”.

Em processos históricos desta dimensão, estão sempre as elites e o seu comando. Na Holanda Marnix de Sainte Aldegonde; em Portugal Febo Moniz. A descrição de RO não é otimista nem lisonjeira: “Em Portugal a vida de corte corrompera e arruinara a nobreza: A fidalguia, arrebanhada em volta do rei, abdicara da sua importância e da sua influência nos solares abandonados. Os feitores e os rendeiros predilectos do morgado largavam a direcção das lavouras para acompanharem o amo à ociosidade luxuosa da corte subindo em categoria servil da obscuridade de trabalhadores à graduação agaloada de escudeiros. Os estímulos cavaleirescos da força, da lealdade e da justiça, extinguem-se na tradição. O luxo tornara-se grotesco à força de ser desenfreado. Febo Moniz não é mais que um simples coração de patriota diminuído por uma pusilanimidade de beato. O célebre procurador de Lisboa, em vez de se dirigir ao povo para organizar a resistência, dirige-se ao cardeal-rei para contemporizar. As palavras de Febo Moniz têm a debilidade da súplica, lastimavelmente enunciada em nome de todas as fraquezas com que a corrupção havia depauperado o vigor e envenenando a seiva de uma sociedade. É fundamental a diferença entre a atitude de Marnix e a de Febo. O confronto dos dois documentos em que essa diferença se baseia, basta para nos dar a chave dos destinos de Portugal e da Holanda depois do grande conflito religioso do século XVI”.

A história diz o resto: Na Holanda, Filipe II é estrondosamente derrotado na pessoa do seu vice-rei o Duque de Alba, Fernando de Toledo (“Os espanhóis tomados de um terror pânico perante a fúria nunca vista do mar do norte, fugiram desordenadamente, lançando à água a artilharia e abandonando o campo ao mar que crescia para eles”). O mesmo Duque de Alba chegaria à foz do Tejo em 1580 para, por ordens do mesmo Filipe II, conquistar Portugal. A Cidadela de Cascais guarda os sinais da nossa curta e débil resistência. Acabou por morrer no paço real de Lisboa, alimentado a leite de mulher, o único alimento que tolerava, já que Filipe II o impediu de ir morrer em sua casa. Foi o maior conquistador e derramador de sangue do século XVI (“confessado e absolvido pelo seu amigo frei Luís de Granada, coração bastante grande para nele caber toda a indulgência divina pelos maiores pecados dos homens”). As linhas de Leida, hoje Leiden, foram decisivas na resistência holandesa e derrota espanhola. O Príncipe de Orange perguntou á cidade após a vitória se queria, em reconhecimento, a abolição de todos os tributos (impostos) ou a criação de uma universidade. A resposta foi a que ainda hoje lá está, universidade que tenho o privilégio de conhecer.

RO sintetiza este capítulo: “Repetir que a Holanda é uma nação muito mais sabiamente dirigida do que Portugal parece-me inútil. Uma razão, entre outras, basta para explicar esta diferença: o dique. A primeira influência do dique é o desenvolvimento do espírito de associação baseado na noção da solidariedade. O dique é para o holandês a contingência eterna de ter juízo, ou morrer inundado. A segunda é a gravidade imposta ao acto político da delegação do poder. Os triunfos, tão fáceis noutros países – da mediocridade palavrosa sobre o mérito verdadeiro – são impossíveis na Holanda”.

O futuro dos povos e nações está nas suas gerações de juventude. As suas elites saem, por regra, dos seus sistemas universitários. Os mais importantes e antigos núcleos universitários da Europa estão em França (Sorbonne), Leiden (Holanda), Lovaina (Bélgica), Coimbra (Portugal), Salamanca (Espanha), Bona/Heidelberg (Alemanha), Oxford/Cambridge (Reino Unido). Vejamos o que RO nos diz sobre isso: “É preciso vir a Leida para conhecer um tipo especialíssimo de estudante – o estudante holandês. É nele que mais em evidência se encontra o cunho de seriedade que a história belicosa da nação e a natureza do solo imprime aqui na fisionomia e no carácter de todos os cidadãos. Nenhum vestígio da antiga boémia escolar de Salamanca, de Coimbra ou do Quartier Latin. O salamanquino, com a colher dos mendigos do século XIV metida no chapéu como um símbolo de miséria profissional, cantando à bandurra por dinheiro de porta em porta, o coimbrão jogando a vassoura da casa contra um prato de sardinhas fritas na taberna da camela (na versão pós moderna, os engenheiros de vão de escada, os doutores feitos no manobrismo político, o triste e dramático caso praia do meco), ou Shaunard tomando um cabriolet ao mês para pedir cinco francos emprestados, seriam tidos em Leida por um opróbrio”. Na Holanda, Leiden e Utreque são consideradas cidades sábias, devido ao valor e importância das respetivas universidades.

Cabe aqui, talvez como consequência disto tudo, falar de Espinosa, português de origem tornado holandês por “emigração forçada”. Diz RO: “Desapossando-se deste cidadão, filho de judeus expulsos por D. Manuel, Portugal antecipou o pagamento de uma boa indeminização à Holanda pela perda do Brasil… tornado holandês pela intolerância do nosso despotismo católico, funda no país a que o rejeitámos as bases de um novo critério que pôs a Holanda à frente de todo o grande movimento filosófico do mundo moderno… foi este português de Amesterdão, magro, sóbrio, moreno, nervoso, terno, namorado – legitimo português por todos os carateres fisiológicos -, quem mais poderosamente manejou ideias, renovou e fortaleceu inteligências, renovando proporcionalmente no seu meio social o nível da dignidade humana, e criando em toda a parte, pela penetração e pela independência do seu génio, novas e fecundíssimas correntes de investigação e de processo, na filosofia, na moral, na politica e na arte, atraindo magneticamente e arrastando na sua órbita luminosa toda uma constelação de espíritos, entre os quais vemos sucessivamente irradiar Leibnitz, Malebranche, Voltaire, Lessing, Goethe, Byron, Hegel, Schopenhauer, Spencer, todos aqueles que uma vez perguntaram a si mesmos, num intuito moral, num intuito politico, num intuito pedagógico ou num intuito estético, se as acções humanas são livres ou necessárias?”. Espinosa respondeu que toda a ação humana deve ter uma causa, sem ela não faz sentido.

Finalizo com alguns subtis contrapontos que, como português, RO recorta e identifica na sociedade holandesa, que merecem reflexão, a par do olhar atento que nos deve merecer a sua evolução. São ele a economia, a política e o trabalho. “Económico, o holandês é-o com efeito. Em nenhuma outra parte tem sido estudada como aqui a questão das pequenas perdas acumuladas por ininteligência ou por desleixo nas grandes indústrias. O holandês é da mais singular indiferença para com as formas políticas… não presta mais que uma leve atenção superficial, de quarta ordem, à entidade chamada governo. Pelo facto de não lhe pedir senão muito pouca coisa, ele confere ao Estado o direito pleno de não lhe dar quase nada. O poder do governo, é como o de um médico que o doente escolhe mas com quem não discute. Desde que não confie nele manda-o embora e escolhe outro. Discursadores não há. Não há diletantismo político… não há interesses de classes dependentes do favor do Estado, não existe a intriga como elemento das instituições. Ninguém deseja ser titular. Quando se pergunta a algum cidadão se é monárquico ou republicano, ele arregala os olhos, espantado, porque nunca se consultou a si mesmo sobre essa matéria. A aristocracia de sangue, a antiga nobreza de espada, não tem preponderância nem exerce influência alguma na opinião e no espírito do país. Todos os trabalhadores holandeses se acham associados; mas estas corporações operárias têm fins técnicos ou fins de assistência mútua, e não fins políticos. Todas as greves feitas até hoje se têm resolvido rapidamente e pacificamente. Aquele que deseja permanecer ao meu serviço não deve ser para isso influído pela consideração de que a sua partida lhe faria perder o fruto do tempo consumido na minha casa. Pela minha parte, não quero tão pouco ser coartado na liberdade que me assiste de despedir quem quer que seja pela consideração de que devo apiedar-me de um trabalhador que por esse modo se veria privado da segurança do futuro, que se lhe achava garantido pelos anos de serviço até esse momento decorridos. No meu projecto de regulamento a independência é completa, já para o operário, já para o patrão” (um retrato perfeito de um certo hiperliberalismo que, felizmente, a história sancionou e amaciou).

RO sintetiza e carateriza a Holanda e o povo holandês de uma forma lapidar: “é um povo de guerra que não poderá ser jamais um povo de parada”. A história de Portugal confirma e contrasta bem esta definição.

“A Holanda” é um livro muito rico, muito informativo sobre etapas decisivas da história e evolução europeias e cuja leitura é, em simultâneo, tão estimulante porque quase encantatória, como provocadora de alguma melancolia perante os tempos atuais do nosso recanto lusitano (“Uma terra onde não passam permanentemente os destinos do mundo”, Miguel Torga, 1950). A ler! Em RO não ressoa um clamor profundo de amor por ela. Fechemos, por isso com Torga:

PÁTRIA

“Soube a definição na minha infância.

Mas o tempo apagou

As linhas que no mapa da memória

A mestra palmatória

Desenhou.

Hoje

Sei apenas gostar

Duma nesga de terra

Debruada de mar”.

 

*1. Veja-se o que diz Miguel Torga sobre Eça: “O mais completo romancista que Portugal teve até hoje. Embora incapaz de auscultar o coração terroso e vivo da humilde camada social. Escapou-lhe ainda o sabugo do processo, a recôndita significação. E era de uma perfuração a pique, de uma introspecção no tutano que o boçal e burlesco herói necessitava” (Discursos: Panorama da literatura Português e o Drama do Emigrante Português, 1950).

*2. Liga dos Maltrapilhos (Ligue des pauvres gueux): Nome dado pelo conde de Barlaymont aos Homens de primeira nobreza que adotaram este nome, e com vestuário adequado, para tranquilizar a regente Margarida relativamente àqueles que lhe iam pedir a abolição do tribunal do Santo Ofício: ”Madame, ne sont que des gueux”.

 

Outras obras de RO:

O Mistério da Estrada de Sintra, 1870;

As Farpas, 1871,1872 e 1871 a 1882;

Banhos de Caldas e Águas Minerais, 1875;

Teófilo Braga, um esboço biográfico, 1876;

As praias de Portugal, 1876;

Notas de viagem, 1876;

Pela terra alheia, notas de viagem, 1876;

O culto da Arte em Portugal, 1896;

Carta de um Velho a um Novo, 1914;

Últimas Farpas, 1914.

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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