LETRAS @CORdadas – Padre António Vieira (1608/1697)

por Miguel Alves | 2015.01.24 - 16:17

 

 Iniciou-se recentemente um NOVO ANO. É social, política e culturalmente saudável nesta ocasião, questionarmo-nos sobre as grandes questões que nos afetam como sociedade, os horizontes que se desenham ao nosso futuro e com que ferramentas, métodos e atores poderemos interferir na sua escolha e construção.

É altura de recortarmos os valores éticos e morais, logo genuinamente democráticos, que deverão presidir à gestão do interesse público, porque de coisa pública se trata. Esse deverá ser o fim último do seu governo e meta exclusiva dos seus atores. Só assim, o NOVO ANO que começou poderá ser um ANO NOVO.

Como um dos povos mais antigos do planeta, temos na nossa história centenária, uma figura ímpar, que neste contexto resolvi @CORdar: o Padre António Vieira. Resolvi fazê-lo tentando demarcá-lo da sua natureza religiosa e clerical, salientando-o como cidadão empenhado e interveniente e que constitui um marco exemplar na história da intervenção pública. Também por isso, carregado de zonas cinzentas menos conhecidas que, apesar do seu peso e densidade, não alteram a potência da sua intervenção na defesa de valores e no afrontar de poderes instalados que a eles se opunham.

Vou servir-me de três fontes bibliográfica sobre o Padre AV: “VIEIRA, textos escolhidos” da coleção “Nossos Clássicos”, uma edição de 1971 da AGIR editora do Rio de Janeiro; “Sermão de Santo António aos peixes e Carta a D. Afonso VI”, uma quarta edição em 1948 da Coleção “Textos Literários” com prefácio e notas de Rodrigues Lapa; “CARTAS do Pe. António Vieira”, nº 20 da Colecção Portugal de Mário Gonçalves Viana.

Este levantar do túmulo de AV terá duas linhas mestras: AV como homem e cidadão influente no seu tempo e AV como jesuíta e clérigo da Igreja Católica fortemente comprometido e intrometido com os “negócios” do Reino de Portugal, negócios estes muitas vezes ligados a valores humanos éticos e morais e outras nem tanto assim.

Comecemos pelo homem e cidadão: AV nasceu em Lisboa. Seu pai tendo sido nomeado para um cargo na Relação da Baía, levou para lá a mulher e o filho, vindo a ter mais tarde um segundo. Cedo começou a frequentar o colégio dos jesuítas, tendo aos quinze anos fugido de casa para se abrigar na sede da Companhia de Jesus. Apesar da resistência dos pais, o mesmo veio a professar para se dedicar ao apostolado dos escravos e gentios. Desde o colégio que haviam sido visíveis as suas aptidões para as letras, a posse de uma erudição rara e um estilo grandioso ao nível da pureza e elegância da linguagem que tornavam eloquentes todas as suas intervenções.

O prefácio e notas de Rodrigues Lapa da fonte acima referida é um texto notável pela fundamentação biográfica e psicológica de aspetos e carateristicas da personalidade de AV que são menos conhecidas e que e que fazem dele, afinal, como um entre os muitos membros das elites portuguesas de todas as épocas, a saber:

– A ambição.

– A sedução.

– Uma ideia algo grandiosa de si próprio.

– A capacidade de manipular e influenciar.

– O cavalgar os movimentos sociais e políticos dominantes

(abraçando-os ou lutando contra eles).

– O sentimento de ingratidão quando não foi aceite pelos outros.

A ambição

 “O orador jesuíta converte-se numa espécie de cabo de guerra e descreve com realismo e pormenor os principais lances da refrega, mostrando-nos o inimigo açodadamente em fuga e deixando, na pressa, o pão a coser no forno e as panelas dos soldados ainda a ferver no lume. Dir-se-ia um cabo-de-guerra a arengar aos seus soldados (Sermão de acção de graças após a derrota dos holandeses em 1638). Uma vez em Portugal, agora patriota exaltado, começa desde o púlpito a fazer sermões de propaganda, animando todos na luta contra Espanha. Nos vagares da sua fauna missionária ia agora compondo um tratado messiânico, o “Quinto Império do Mundo”, que procurava demonstrar a ressurreição de D. João IV e a conversão geral dos infiéis sob a égide do rei português. Partiu em 1675 para Lisboa. O acolhimento por parte do soberano e da corte foi frio. Era suspeito de quase todos. Sem o favor da corte que tanto ambicionava. Vieira estava metida a fundo nos negócios da política e esquecia por vezes a sua qualidade de religioso, passeando através da cidade em liteira, como um senhor fidalgo. Pensaram em expulsá-lo da Companhia. O rei cobriu-o com a sua protecção e evitou o desaire. Vieira abandonou para sempre Portugal em 1681”.

A sedução

“O rijo homem de acção, que assim perorava as gentes, sabia ser no convívio pessoal um verdadeiro sedutor. Exercia enorme influência no rei e na rainha e, pelo extremo encanto e persuasão da sua lábia – assim lhe chamava D. João IV- logo se tornou o mais activo e dedicado conselheiro do paço. A sua fascinação logo se exerceu sob o Regente, e o perseguido logo se tornou em perseguidor, clamando contra os que tinham desprestigiado a autoridade religiosa e desacatado as leis do soberano. Alto, moreno, com olhar vivo, faiscante, o grande orador jesuíta usou e abusou talvez desse lugar, para ventilar com brilho e força persuasiva os problemas do momento”.

Uma ideia grandiosa de si próprio

“Vieira nada temia. Sabia que tinha inimigos e acaso gostava de os ter. Encontrava na refrega com adversários poderosos um secreto prazer. Homem de acção e com uma alta ideia de si próprio, nem sempre se escusou a despejar do alto da tribuna do templo o caudal turvo das suas ambições, das suas vaidades e dos seus secretos rancores”. “É possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz? Assim como há Lexicon para o grego e Calepino para o latim, assim é preciso um vocabulário de púlpito. Ah! Pregadores! Os de cá achar-vos-eis com mais paço, os de lá com mais passos, ironizou referindo-se aos Dominicanos”.

Capacidade de manipular e influenciar

“Enredado em questões políticas, de política tratou na maior parte dos seus sermões, sob o disfarce mais ou menos velado das alegorias da Bíblia, onde o seu engenho encontrava com inacreditável facilidade correspondência para o que queria. Nem sempre usou dessa facilidade com decência apostólica. Data desse tempo, 1640, o famoso sermão que pronunciou na Baía contra as armas holandesas. O que constitui a vigorosa originalidade dessa peça de oratória é o censurar Vieira o próprio Deus de favorecer os hereges contra os fiéis portugueses e espanhóis. Compreende-se que uma tal audácia empolgasse de divino terror o auditório. Hoje, lido a frio, o sermão perde o patético que lhe emprestava a força das circunstâncias, e sentimos através dele um certo artifício hiperbólico nos meios de comover”. (“Abrasai, destrui, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia querereis espanhóis e portugueses e que não os acheis… Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebatarão essa custódia em que agora estais adorado pelos anjos; tomarão o cálice e os vasos sagrados e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes. Derrubarão os altares, os vultos e as estátuas dos santos; deformá-los-ão a cutiladas e metê-las-ão no fogo; e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas nem ás imagens de Cristo crucificado nem às da Virgem Maria”). “É certo que a defesa que fazia dos oprimidos não seria inteiramente desinteressada. Por vezes, tal convicção e tão generoso entusiasmo, persuade-nos que sabia conciliar os seus interesses de jesuíta com os da verdade. Os seus sermões tinham uma voga extraordinária, por serem uma espécie de comício público. Disputavam-se os lugares no templo”.

O cavalgar de movimentos sociais e políticos dominantes

“Um dos seus primeiros sermões foi dirigido contra os sebastianistas que pululavam em Portugal e nos seus domínios, e representavam a resistência popular contra os Filipes. Vieira aceitou de bom grado a dominação espanhola e defendia-a até nos seus sermões, indo contra a voz popular, a voz da maioria. Deu-se o movimento da Restauração em 1640. Vieira que pouco antes fizera um sermão em que exaltava a glória de Filipe IV e doestava os sebastianistas, aderiu com todos os jesuítas imediatamente á nova situação e foi incumbido pelo Vice-rei de apresentar cumprimentos ao novo soberano português. Era sina sua: pela vida adiante, defendendo embora causas justas, colocava-se por via de regra contra a opinião pública, que tinha particular gosto em afrontar. Aliás não era raro que se retratasse das suas primeiras ideias, como aconteceu com o sebastianismo. Combatendo-o a princípio, veio afinal a aceitá-lo e abraça-lo fervorosamente, substituindo apenas o nome de D. Sebastião pelo de D. João IV. Vieira nem sempre evitou o que censurava nos outros. A sua vida abunda em frequentes contradições. Por via de regra, Vieira não passava do jogo dos conceitos, traduzida uma ou outra vez em equívocos verbais (“Os de cá achar-vos-eis com mais paço, os de lá com mais passos”). Vieira era uma admirável inteligência, um pouco volúvel, e como que girando ao sabor dos ventos. Honra-o, porém, a constância com que manteve até à sua morte os dois grandes ideais da sua vida, pelos quais lutou e sofreu: a tolerância da crença para os judeus e a liberdade dos índios”.

O sentimento de ingratidão quando não foi aceite pelos outros.

“O Regente D. Pedro não manifestava grande afeto pelo jesuíta. Isto doeu-lhe, e do alto do púlpito aludia sem disfarce a esse inexplicável desfavor. Ressentido da ingratidão resolveu partir para Roma em Agosto de 1669. O pretexto era o serviço da Companhia, a razão principal era o caso da Inquisição. Aí foi procurar o apoio que aqui não encontrava”. 

Como membro da Companhia de Jesus, AV é uma das figuras mais notáveis de toda a história da Igreja Portuguesa. Notável pelas grandes causas sociais em que se envolveu, notável pela qualidade e profundidade doutrinárias do seu pensamento e escrita e notável pela ação humanista, empenhada, visionária, combativa e pela densidade argumentativa que bramia contra aqueles que a ela se opunham. AV foi ainda um paladino da educação e do desenvolvimento humano (que constituem ainda hoje um programa de qualquer governo), um defensor acérrimo da sua pátria e um lutador empolgado contra os seus inimigos a partir da tribuna em que era mestre: o púlpito.

AV foi um homem de espírito aberto, viajado e cosmopolita que manteve com uma constância irredutível dois grandes desígnios para a sua vida: a liberdade religiosa expressa na defesa da cultura e religião judaicas e a defesa dos direitos humanos para os índios do Brasil, expressa no seu valor primordial: a liberdade.

Se a vida de AV está eivada de pequenas contradições, elas foram sobretudo visíveis na transição doutrinária e argumentativa entre a identificação destes dois desígnios e a ação concreta necessária à sua consecução.

Como todas as grandes figuras da história, não passou incólume por entre o fogo cerrado que lhe foi movido pela própria Companhia de Jesus, pela Ordem Dominicana e pelo Tribunal do Santo Ofício, Inquisição, (em 1665 foi preso no cárcere da Inquisição e em 1667 foi condenado ao silêncio perpétuo e á reclusão numa casa da Companhia de Jesus – “é privado para sempre de voz activa e passiva e do poder de pregar, e recluso no Colégio ou Casa de sua religião, que o Santo Ofício lhe ordenar e de onde, sem ordem sua, não sairá”. Quando em 12 de Junho de 1668 foi cabalmente absolvido e restituído á liberdade, confessou: “ouviu-me quem não me entendeu e sentenciou-me quem não me ouviu”). Também o poder político o combateu em alguns períodos da sua vida (em 1661, os jesuítas com ele à cabeça – urubus, como lhe chamavam por causa do traje preto, chegam a ser expulsos do Maranhão por se oporem ao trabalho escravo e impedirem a sua utilização em favor dos colonos e roceiros. Chegaram a Lisboa em Novembro desse ano). A esta saga persecutória, não escapou, sequer, a sua própria família (em 1683, o governador da Baía acusou o seu irmão de cumplicidade no assassinato do alcaide mor da cidade, pelo facto de os assassinos se terem refugiado no colégio dos jesuítas. Foi ilibado).

Desígnios de vida de AV

Em 1649, AV promoveu uma disposição em benefício dos cristãos novos: ficavam isentos da pena do confisco quando fossem condenados pelo Santo Ofício. A Inquisição reagiu violentamente para o Papa, circunstância que acicatou ainda mais a sua índole de lutador ao ponto de investir direta e declaradamente contra esse tribunal do alto da sua tribuna. Não fosse a proteção real, a própria Companhia de Jesus teria reagido àquilo que considerava imprudente e irresponsável.

AV empenhou-se na libertação dos Índios da alçada dos colonos por ela ser um impeditivo á sua doutrinação. Este facto suscitou a ira dos colonos acusando os jesuítas de pretenderem tê-los para seu próprio interesse e provocar a sua ruína. Remeteu diversos pedidos ao Rei para os mesmos serem subtraídos à jurisdição civil, facto que já na altura foi considerado excessivo e hoje seria de todo intolerável. Foi netas circunstâncias que pronunciou o seu célebre sermão de S. António aos peixes, tendo de seguida partido para Lisboa tratar deste problema. “Louvai, peixes, a Deus, os grandes e os pequenos; louvai-o todos uniformemente. Louvai a deus, porque vos criou em grande número. Louvai a Deus, que vos distinguiu em tantas espécies. Louvai a Deus, que vos vestiu de tanta variedade e formosura. Louvai a Deus, que vos habilitou de todos os instrumentos necessários para a vida. Louvai a Deus que vos deu um elemento tão largo e tão puro. Louvai a Deus que vos sustenta; louvai a Deus que vos conserva, louvai a Deus que vos multiplica. Louvai a Deus, enfim, servindo e sustentando ao homem, que é o fim para que vos criou. Como não sois capazes de glória nem graça, não acaba o vosso sermão em graça e glória”. Aí conseguiu a provisão real de 9 de Abril de 1655 que proibia fazer guerra aos indígenas sem ordem régia e os selvagens convertidos serem governados pelos seus próprios chefes sob a superintendência religiosa.

Qualidade e profundidade doutrinárias de AV

AV é considerado um exímio seguidor de Séneca nas suas conceptualizações filosóficas, éticas e morais. A parenética*1 de AV processa-se quase sempre com o mesmo rigor construtivo:

– Definir o conteúdo para que se conheça;

– Dividi-lo para que se distinga;

– Prová-lo nos fundamentos;

– Declará-lo com a razão;

– Confirmá-lo com o exemplo;

– Ampliá-lo com as causas, efeitos, circunstâncias e inconvenientes;

– Responder às dúvidas;

– Satisfazer as dificuldades;

– Refutar os argumentos contrários;

No final há que densificar conceitos, concluir perspectivas, persuadir tendo em vista a ação e esperar colher resultados.

AV envolveu-se frequentemente em polémicas teóricas e doutrinas até com colegas seus. Um exemplo delas foi a tida com o padre Jerónimo Catâneo, jesuíta como ele, quando ambos se encontravam em Roma e AV pregava para a rainha Cristina da Suécia que aí se encontrava, após abdicar do trono sueco e se ter convertido ao catolicismo. A rainha desfiou-os a falar sobre o riso e o choro. O salão estava repleto de personalidades convidadas pela rainha para ouvir os dois afamados pregadores. O primeiro defendia o riso de Demócrito perante os males e misérias humanas. AV respondeu e rematou: “Demócrito ria, porque todas as coisas humanas lhe pareciam ignorâncias; Heraclito chorava, porque todas lhe pareciam misérias, logo maior razão tinha Heraclito de chorar que Demócrito de rir, porque neste mundo há muitas misérias que não são ignorâncias, e não há ignorância que não seja miséria”. Há dois géneros de inimigos, uns que se perseguem, outros que se adulam. Uns comparam os aduladores ao camaleão, que não tendo cor certa nem própria se reveste e pinta de todas as cores. Outros o comparam à sombra. Outros o comparam ao espelho. Biante, um dos sete sábios da Grécia, perguntado qual era o animal mais venenoso, respondeu que dos bravos o tirano dos mansos o adulador. Mas em distinguir o tirano do adulador não disse bem: porque, como acabamos de demonstrar todo o adulador é tirano. Os erros e as ignorâncias é certo que são muitos mais que as ciências porque para saber e acertar não há mais que um caminho e para errar infinitos. Os erros alheios conhecemo-los com o juízo livre, os próprios com o entendimento cativo: os alheios conhecemo-los como juízes, os próprios como namorados. Os que ouvem são os ouvidos; mas os que ouvem bem ou mal são os corações. Tudo o que entra pelo ouvido, faz eco no coração. Notável é o artifício com que a natureza dotou os nossos ouvidos. Cada ouvido é um caracol e que de matéria tem sua dureza; e como as palavras entram passadas pelo oco deste parafuso, não é muito que quando saem pela boca saiam torcidas. Como os ouvidos são dois a e boca uma, sucede que, entrando pelos ouvidos duas verdades, saia pela boca uma mentira. Assim fazem os mentirosos: partem duas verdades pelo meio, e sem mudar nem acrescentar nem mudar nada ao que dissestes, de duas verdades partidas, fazem uma mentira inteira. Para falar ao vento bastam palavras; mas para falar ao coração são necessárias obras”.

Ação concreta / Relações com o poder político de AV

“Este padre não morre na Companhia; mais certo parece que acabe nas mãos do Santo Ofício”.

Em 1640, D. João IV, alarmado com os custos da guerra com Castela, resolveu aumentar os impostos. A reação popular foi muito violenta e, por tais razões, lembrou-se de recorrer a AV para tentar serenar os ânimos das populações que exigiam do rei igual sacrifício por parte da aristocracia. No sermão de Santo António na igreja das chagas em Lisboa, AV desenvolve uma teoria sobre os tributos que fez serenar a contestação popular ao monarca.

Mais tarde, em 1649 conseguiu impor junto de D. João IV a implementação de uma de duas medidas que lhe havia sugerido: a criação de um banco e a criação da Companhia de Comércio. Esta foi constituída por alvará de 6 de fevereiro de 1649 com o nome de Companhia Ocidental. Acabou por ter uma expansão superior àquela que o próprio AV lhe perspectivava, tendo desencadeado sobre ele grandes ódios pela coragem que lhe estava subjacente e porque ela serviu para atrair capitais judeus para o interesse público que ficavam isentos de impostos. Nessa sequência, após a morte de D. João IV e sob a regência de D. Luisa de Gusmão, a isenção fiscal aos judeus veio a ser revogada em 2 de Fevereiro de 1657, até que em 1720 a Companhia veio a ser extinta.

Por provisão de 9 de Abril de 1655, ficava proibido fazer guerra aos indígenas sem ordem régia e os selvagens convertidos eram governados por seus chefes sob a superintendência dos religiosos.

Em 1663 foi abolida a jurisdição temporal dos padres sobre os índios e a autoridade espiritual foi concedida por igual a todas as ordens religiosas com residências no Brasil.

 

O “pregar aos peixes” é um dado ancestral da cultura portuguesa. AV apenas o recortou com lucidez e perspicácia analíticas. A reprodução histórica de processos sociológicos em que ele faz sentido, reproduziu também “pregadores” semelhantes, cujo perfil imortaliza AV. Permitem até que as analogias e os papéis se invertam e os pregadores sejam os cidadãos em geral e se dirijam a algumas minorias sociais. São estes que é urgente ouvir porque constituem a razão e alma de todas as “religiões e cultos”.

A parentética social e política dos tempos que correm parece muito desfalcada nos seus fundamentos teóricos e conceptuais. Há que ler Séneca e AV. Doutra forma, o seu resultado será próximo do contrário daquilo que dela se espera e a mesma deverá produzir.

 

Outras obras de AV

AV escreveu, aproximadamente, 200 sermões e 700 cartas.

Além disso, escreveu o “Quinto Império do Mundo*2”, “História do Futuro” e outros tratados, que não constituem obras relevantes na definição do seu perfil humano, psicológico, literário, intelectual e pastoral. Apenas acentuam parcelas desse perfil global.

 

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*1 Do grego paraínetikós: próprio para aconselhar. Arte de pregar. Eloquência sagrada. O discurso parenético é distinto do discurso científico no sentido de que este é baseado em dúvidas e hipóteses. O discurso parenético situa-se naquilo que já é conhecido e claro entre quem fala e quem ouve. Destina-se a provocar a sua eficácia ao nível das atitudes, comportamentos e ação, através da coerência e da responsabilidade pessoal, mesmo que em desfavor da lógica discursiva.

*2 Terá sido o maior erro de AV: a estultícia de profetizar para Portugal um destino de superioridade planetária, circunstância que o coloca ao lado do tosco Bandarra. Terá isso sido reflexo da ideia grandiosa que também tinha de si próprio?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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