Letras @CORdadas – Miguel Torga (1907-1995)

por Miguel Alves | 2015.08.24 - 13:17

 

 

 

(Grande Prémio Internacional de Poesia Konokke Heist (1976), Prémio Morgado de Mateus (1980), Prémio Montaigne (1981), Prémio Camões da APE (1989), Prémio de Vida Literária da APE (1992), Personalidade do ano da Associação da Imprensa Estrangeira (1992).

 

Miguel Torga é o pseudónimo de Adolfo Correia Rocha. Nasceu em S. Martinho de Anta, concelho de Vila Real em 1907 e faleceu em Coimbra em 1995. Formado em medicina pela faculdade de medicina de Coimbra, especializou-se em otorrinolaringologista.

Foi seminarista no Seminário de Lamego de onde saiu para trabalhar numa fazenda de um tio no Brasil. Passados cinco anos regressa para acabar os estudos liceais, que completa apenas num ano, e ingressar na faculdade de medicina. Esteve presente nas principais publicações culturais dos anos 30: A Presença, o Manifesto e o Sinal, esta fundado por si. Ainda nessa década viaja pela Europa e espanta-se com a brutalidade da guerra civil espanhola, sobre a qual escreve um dos seus poemas dedicado “A Garcia Lorca”.

O grupo da Presença, foi o grupo que introduziu as ideias modernistas na literatura portuguesa. MT abandonou-o em 1930 por razões estéticas, de liberdade humana e porque os membros do grupo se consideravam fora do comum e longe das realidades humanas. Após a publicação do “Quarto Dia da Criação do Mundo”, é preso nas cadeias de Leiria e do Aljube em Lisboa.

MT é um dos maiores vultos das letras portuguesas do século XX: Transmontano dos sete costados, de antes vergar que partir, representa o grito telúrico do país profundo na cultura portuguesa e aquele que mais profundamente o viveu, sentiu e expressou na sua obra. A escolha do pseudónimo TORGA terá sido, por isso, a projeção profunda de si próprio no seu nome, a sintonia de identidades entre a sua identidade profunda e a sua identidade social externa que pretendeu e realizou coincidentes. Só poderá ter sido essa a sua ambição (um telúrico imperativo de coerência) que, embora não sejam conhecidos os motivos da escolha, a sua obra o atesta. Talvez por ser tão evidente, nunca ninguém se terá atrevido a questioná-lo sobre isso, nem ele teve necessidade de fazê-lo por tão essencial e evidente.

Por força desta identidade, soberana e olimpicamente coerente e frontal, MT foi um cidadão empenhado social e politicamente. Por isso foi preso pelo antigo regime, por isso ele se empenhou também no pós 25 de Abril. Recorda-se a este propósito que ele foi o Mandatário de uma das candidaturas presidenciais do General Ramalho Eanes a Presidente da República.

Porque vivemos um tempo em que a cidadania e a participação cívica a todos nos responsabiliza, resolvi neste mês de Agosto e bem próximos do ato cívico por excelência em democracia que é o voto, aCORdar este enorme vulto da nossa representação como povo. Povo simples na sua subtil e complexa inteligência, sacrificado, mas destemido e arrojado nas suas ambições, emigrado, mas TORGA no mais profundo da sua alma, previsível, mas de todo surpreendente nos meandros sinuosos que constroem o seu destino.

Toda a obra de MT tem subjacentes três temáticas essenciais: o seu caráter telúrico, a questão religiosa (muito presente também em Saramago, embora denegada e não assumida como questão existencial decisiva) e a angústia humanista.

Antes de saltitar por dois dos seus livros de que hoje quero escrever (Ensaios e Discursos e Diário – volumes V a VIII de 1949 a 1959, ambos do Circulo dos Leitores), quero ainda falar do reconhecimento público, pouco ou muito justo, de que MT foi objeto. MT deveria ou não ter recebido o Nobel da Literatura? O ponto de clivagem entre o sim e o não, parece situar-se numa espécie de literatura localizada social e culturalmente e a grande literatura universal, isto á a literatura das grandes questões da condição humana. Não tenho nenhuma pretensão de sobre o tema ter opiniões sólidas e fundamentadas, por não ter stock de competências para tal. De quer forma, as questões humanas cultural e socialmente localizadas, não são, elas também da global condição humana? “Cem anos de Solidão”, esse portento do realismo mágico é o quê? São grandes questões da humanidade vividas num contexto social e político bem localizado. De uma riqueza, conteúdo, condições históricas, sociais e políticas de grande violência e dramatismo.

Sem ter opinião fundamentada sobre a questão, estou hoje relativamente mais esclarecido porque não terá MT sido laureado. Aconteceu com a leitura de um livro sobre Antero de Quental escrito por um grande especialista em literatura portuguesa que foi Sant´Anna Dionísio: “Antero – algumas notas sobre o seu drama e a sua cultura”, uma edição da Seara Nova de 1934.

É um livro espantoso na minúcia, detalhe e profundidade da análise do texto literário, no caso a obra de AQ. Algum esclarecimento que nele encontrei relativamente a MT encontra-se na questão que SAD formula relativamente a AQ: AQ produziu ou não uma obra que o identifique e distinga, que o autonomize como criador de um “estilo” próprio, que o defina como tendo um modelo subjacente ao seu pensamento e obra criativa?

Esta questão entronca com a análise muito pormenorizada que ele faz do conjunto dos seus “Sonetos” que, segundo ele, alguns comparam a um ciclo de um diário bruscamente interrompido com o seu suicídio numa faze de grande valor criativo. “Este desenlace final dos sonetos mostra bem a que erros e equívocos pode conduzir a preocupação de se fazer uma obra destas, profundamente afetiva, flagrantemente circunstancial, uma obra com princípio, meio e fim, ordenada e bem repartida, em uma palavra, uma obra lógica. …um soneto pode valer como ponto de referência, como uma página de um diário, a verdade é que o diário, por sua vez, só vale quando é o mais rico possível em informação, em variedade e cortes de humor e, especialmente, quando não sofre interrupção. … o diário de Antero, sendo qualitativamente um dos diários mais belos e comoventes de todos os tempos é, em compensação, pela unilateralidades das perspetivas humorais e, principalmente, pela abundância de hiatos, excessivamente lacunar. A ideia de ciclo implica repetição – e a vida espiritual é essencialmente irreversível. Inútil pois esperar que um diário nos dê, como uns pretendem, indicação da estrela polar da sua idealidade”.

SAD parece caracterizar um diário em termos de valor literário como obra afetiva mas circunstancial, lacunar e não indicadora de idealidade. Por outro lado, diz também que um diário deve ser o mais rico possível em informação, cortes de humor e sistemático. “O Diário” de MT é-o em plenitude a que ele associa uma componente poética sistemática. Feita esta divagação atrevida em matérias em que sou incompetente, passemos a MT.

“Diário” é a componente maior da obra literária deste autor e abrange o período da sua vida compreendido entre 1941 (34 anos de idade) e 1994 (87 anos de idade), o ano anterior à sua morte. “Diário” é, em simultâneo, uma obra poética na medida em que, em quase todas as suas anotações MT associa um poema. Ele próprio considera-se poeta e a poesia, a literatura por excelência. “Luz fechada nas pétalas da noite, Abre a rosa imortal do teu sorriso! Ou não merecemos nós, mais uma vez, O Paraíso?”

Comecemos pelos “Ensaios e Discursos”. Este livro é composto por três partes: a primeira, é um ensaio de MT sobre as características humanas e psicológica de todas as províncias de Portugal continental; na segunda fala do Brasil e das relações entre os nossos dois países, da América do Sul, da literatura portuguesa e alguma brasileira e ainda sobre a emigração; a terceira (Fogo Preso, 1976), é constituída por reflexões políticas e algumas das suas intervenções nesse âmbito.

É interessante revisitar o que MT aqui escreveu sobre a Beira. Para ele, a Beira tem uma carateristica e componente dominante: a Serra da Estrela. Dominante no porte, na definição do território, na divisão das influências e na subjugação das habitantes. Este domínio imperial, terá forçado os habitantes a abandonar os limites que ela própria impõe (emigração) e estará na origem do relativo desinteresse de que a Estrela tem sido objeto ao longo de décadas e que só agora começa a despertar para o seu enorme potencial? “O Marão separa dois mundo – o minhoto e o transmontano. O Caldeirão no polo oposto imita-o como pode. Mas a Estrela não divide: concentra. O muro cresceu, alargou e transformou-se na extensão que teria de partilhar. O pouco que ficou desse abraço são flancos, abas, encostas e escorrências de aluvião. Jungida assim à razão centrípeta da granítica matriz, a Beira ganha um sentido geográfico que não anda nos mapas administrativos. De cima da sua fraga primária, a Beira espelha-se nas águas claras do Alba, do Mondego ou do Zêzere, três rios que sulcam a sua alma de frescura, lirismo e persistência. …refúgio amplo e seguro onde não chega a poeira da pequenez, nem o ar corrompido da podridão”.

Se a realidade física que MT desenha da Beira, permanece muito semelhante, que dizer dos Beirões hoje? Aqui, as coisas já terão mudado muito, por força dos sistemas diversos de comunicação da sociedade atual, da destruição física e psicológica de fronteiras, dantes com rigores bem mais impositivos, bem como de todo o tipo de influências que esse trafego carrega. “Não é o brilho que o impõe, nem a honradez, nem a inteligência, nem outras qualidades que o português não tenha. É uma obstinação de caruncho, muda, modesta, inflexível, incapaz da piedade de ceder ao seu próprio cansaço. Mas essa teimosia dá-lhe o triunfo e a convicção de que só ele pode e deve conduzir os destinos da Pátria. Sem o dizer, sem o afirmar, o Beirão sente-se dono de Portugal (a Beira sempre foi uma terra de governantes do país). …uma limitação de tamanho e de posses limita também o arco-íris do cenário. É quase preciso cair inesperadamente sobre certos recantos para os surpreender na intimidade nua das suas horas felizes”.

É de salientar a perspicácia psicológica de MT ao captar estas duas componentes dos habitantes da Beira: a representação deles próprios e o manejo dos afetos. No conjunto do capítulo destinado à Beira, MT dedica especial cuidado à Coimbra do seu coração, à Beira Litoral, à Estremadura e às Berlengas.

Em termos gerais da idiossincrasia do ser português escreve MT: ”Dos lastimáveis defeitos do português, o mais feio é certamente a manha sorna de ter sempre na manga do casaco um baralho falsificado, uma navalha de ponta e mola, uma pistola de cinco tiros, um porrete erguido por detrás de uma bouça, uma aleivosia diabolicamente maquinada”. 

Da segunda parte deste livro, ressalvo a conferência dada na Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro em Agosto de 1954. Nela MT faz uma viagem relativamente exaustiva pela história e pelos períodos da literatura portuguesa, bem como dos seus representantes. Trata-se de uma visão muito própria, aqui e além polémica, daqueles que foram e eram seus colegas de arte e que merece atenta e cuidada leitura por constituir uma visão interna à própria literatura. Curiosas são as suas opiniões sobre alguns dos vultos das letras portuguesas e que é, no mínimo, curioso assinalar. Uma das características mais notáveis deste texto, é a capacidade e a argúcia de MT de ligar e conjugar as obras e os autores às características humanas e psicológicas do seu tempo, à história e à cultura do país. Vejamos, por exemplo, o que diz MT de três dos maiores vultos da literatura portuguesa: António Viera, Eça de Queiroz e Aquilino Ribeiro. “…tecem redes de palavras à volta de nada. Apenas um nome é justo destacar de tão rasa mediocridade (no seu tempo): o do Padre António Vieira. Porque as suas inquietações humanas transcenderam o mastigar prolixo das proximidades bíblicas, pôde sentir a tragédia incipiente do nativo explorado pela nossa civilização. No seu cristianismo tolerante cabiam índios, negros e judeus. Por isso palpitam, em algumas das suas páginas, dores que ainda persistem nas terras e nos povos aonde, juntamente com a devota cruz evangelizadora, chegava a espada da conquista e do esbulho”. Sobre Eça de Queiroz: “…o mais completo romancista que Portugal teve até hoje. Embora incapaz de auscultar o coração terroso da humilde camada social que na Lusitânia espera ainda a sua hora, soube surpreender o que havia de gasto, de ridículo e de tóxico na classe burguesa de que era ornamento e cronista. Nem como sátiras, porém, os seus livros saem da rua larga. O ácido não morde a chapa onde o símbolo fique a viver perene. Até como inventário de fim de feira, do desmoronar de uma sociedade, a obra é complacente demais, o autor está interessado nela em demasia. Ninguém pode aderir profundamente a semelhante fraude. A lição de Garrett alargava-se e organiza-se”.

Numa conferência que era para ser lida na Associação Académica de Coimbra no centenário da morte de Eça e que acabou por ler-se no Ateneu Comercial do Porto em Novembro de 1954 e incluída em “Fogo Preso”, MT é depois mais demolidor na desmontagem da obra de Eça: “Em Coimbra é que era, a sua geração é que fez e aconteceu, é que bebia bem e matava gatos melhor. Mete dó. Que continuidade e influência pode ter a sua obra? O risco escarninho não se contagia. É um esgar individual sem horizontes. Nem sequer areja a própria alma de onde sai. Um funcionário perfeito, um manga-de-alpaca igual a muitos da sua galeria. Emigrante exportado directamente do berço: quantas pessoas há na sua aldeia, o que fazem e o que têm. Essa aldeia era Coimbra com a sua Universidade. Era esta maravilhosa luz, esta maravilhosa paisagem, esta maravilhosa promessa, e esta trágica mentira que são o corpo e a alma da própria obra de Eça”.

Sobre Aquilino Ribeiro: “ Sem querer, contra a lógica dos seus próprios valores, Raul Brandão acaba por ser tão monótono como um frade do século XVII. E deixa nas mãos de Aquilino Ribeiro a prosa portuguesa, mais viva apesar de menos profunda. Já que a perfuração psicológica que usou não foi tão concludente como precisávamos, valha-nos ao menos um pitoresco sadio de almocreves e naifadas. Histórias truculentas, onde o burburinho das feiras supra a deficiência da broca”.

Em “Fogo Preso”, estão algumas das intervenções políticas ou politizadas de MT antes e depois do 25 de Abril. No prefácio por ele escrito da compilação dessas intervenções, MT tinha, como sempre teve, a noção clara do seu papel como homem de cultura no meio político e até dos riscos que aí corria: ”Ao fazer-se homem público, o poeta empresta a voz a quem não a tem, e arrisca-se a ficar sem voz e sem eco”.

Na campanha eleitoral de 1949, MT teve inúmeras intervenções: Em entrevista ao Diário de Lisboa afirmou: “O tempo só trabalha a favor do futuro. Ninguém pode dignificar uma coisa em que não acredita”. Em mensagem para a campanha da oposição afirmou: “Saúdo-vos de Coimbra, desta Meca do fascismo português que queremos derrubar. Por isso me senti aqui um representante humilde deste Reino Maravilhoso com o pensamento posto nos imperativos telúricos e morais que mandam dizer não diante de cada a violência”. Já em 1974, depois do 25 de Abril, são suas as seguintes intervenções, em diversos momentos, e que incluíram comícios, artigos em jornais e palestras: “Por regra, sempre que os sentimentos se exaltam no palco do comportamento, a razão some-se diretamente na sombra dos bastidores. Que não se confunda no seu entusiasmo os que querem servir verdadeiramente, com os abnegados da última hora, que nunca lhe cheiraram sequer o suor e se louvam no seu nome. Temos que renunciar de vez ao messianismo épico. É forçoso ouvir atentamente os recados do futuro. O risco é o preço da esperança. Toda a solidão egoísta é um roubo feito ao vizinho. Não podemos confundir a vocação de servir com a ambição de mandar. Vamos às urnas dizer o queremos e não sancionar às cegas o que nos querem dar. Porque nos querem dar muito, e nós queremos relativamente pouco”.

Vamos agora aCORdar o “Diário – Volumes V a VIII”. São 830 páginas de um assombro permanente. MT abre este Diário com um ato de humidade consciente sobre si próprio e sobre o seu trabalho, que passa pela pequena euforia de ser quem é, seguida da tristeza dos resultados, para acabar na dúvida e melancolia sobre o futuro.

Exame de Consciência (Abril de 1949)

“Por tudo passa o artista:

Primeiro, pela alegria

De se julgar criador;

Depois, por esta tristeza

De ver morrer o que fez,

Sem ter nas mãos a certeza

De erguer o sonho outra vez.

É uma obra que pode ler-se de forma completamente avulsa, conforme os títulos, todos muito singelos, e das anotações que faz ao longo do período da sua vida a que dizem respeito. Porém, à medida que se lê um e outro e mais outro, é quase impossível não o devorar por inteiro. Veja-se, por exemplo, como as circunstâncias e a história se repetem, com diferentes atores, diferentes desígnios, mas talvez o mesmo tsunami civilizacional:

 

Canção Helénica (Setembro de 1950)

Na sua mais perfeita arquitetura,

Cada coluna como um sonho erguido,

Deixou aqui a Grécia a assinatura,

Aqui ao pé do mar adormecido.

 

Ia acabar o mundo da beleza,

Roma viria com as suas leis.

Criar as formas doutra natureza,

Dobrar os homens e os capitéis.

 

Ficasse, pois, firmado o testamento

De uma pátria de todos que morria.

Com as imagens do seu pensamento

Desdobradas em ondas de harmonia.

Como país, vivemos tempos de incerteza: ganharemos terra (riqueza), ou ganharemos memória (identidade social). Bom será que os ganhos e as percas não sejam abissais para nenhum dos lados. As opções espreitam-nos, interpelam-nos e clamam por nós.

 

Agenda (Dezembro de 1950)

Ganhar terra nos sentidos,

Perder terra na memória…

Que história

Triste e mesquinha

A do homem que caminha!

Um palmo de descoberta,

Um metro de esquecimento…

Só na retina deserta

Cabe a luz do firmamento…

A vida social, política e, sobretudo, económica do país dos últimos (largos) anos foi objeto de sismos devastadores. Em consequência, as relações entre as pessoas e as organizações deterioraram-se, diminuiu-se a confiança, a solidariedade, o zoom com que olhamos a realidade reduziu em muito a sua abertura. Ao que parece, nada de novo. A condição humana no seu pleno. “Não há contornos para nenhuma intimidade” (Novembro de 1955). “Tanto lume aceso em todo o Portugal e tanto frio nos corações” (Dezembro de 1956).

30 de Outubro de 1949: “ O medo da originalidade mata-nos a criação. Original, aqui e em todas as épocas, só quem manda. Só quem nos governa se atreve a ter opiniões e a exprimi-las. Os outros, com receio de qualquer heterodoxia, refocilam no académico lugar-comum e vão puxando a carroça”. Hoje já não tanto assim!

19 De Julho de 1958: “O mais trágico da vida portuguesa é ela ser uma inocência crónica, não sei se fingida, se verdadeira. …aqui é esta leviandade coletiva que vai do governante ao governado, do avô ao neto, do culto ao inculto. Ninguém erra, ninguém é responsável, ninguém se sente culpado. É uma bebedeira nacional de boa consciência”.

11 de Março de 1959: “É que ninguém vem ao que nos diz, mas a outra coisa sempre inconfessável ou que não convém confessar. …a grande maioria das pessoas são ambíguas no seu natural. Inequívocas por fora, mas equívocas por dentro. …Em vez de uma confusão mútua à superfície, era um erro unilateral em profundidade”.

Exemplo disto é a cidadania de que todos tanto falamos e onde, seguramente, muitos falam de cor e não vêm ao que dizem. Que dizer dos nossos níveis de abstenção eleitoral e até onde nos podem conduzir?

O “Diário” de MT é um navegar constante nas subtilezas da alma humana: perspicaz mas sinuoso, profundo mas simples, melancólico mas consciente, algo pessimista mas arrebatador, alerta mas proactivo (“Quem faz o que pode, faz o que deve”, 1958). Temos é que poder mais!

“”Que continuidade e influência pode ter a sua obra? O risco escarninho não se contagia. É um esgar individual sem horizontes”, perguntou e afirmou MT sobre a obra de Eça. Perguntas com estas, podemos hoje fazer hoje sobre muitos dos atores sociais que todos os dias ouvimos e se afirmam marcos históricos. Tal não acontece com o precioso e perene legado de MT. Porque ele vai fundo na nossa humana condição e é ai que reside a sua perenidade. Não na poeira dos dias e das circunstâncias.

Acabo com um poema de MT que, de forma clara e brilhante, o descreve humana e psicologicamente, bem como o classifica na sua gigantesca dimensão ontogénica.

“Sonho, mas não parece.

Nem quero que pareça.

É por dentro que eu quero que aconteça

A minha vida.

Intima, profunda.

Com o sentimento de que se tem pudor,

Vulcão de exterior tão apagado,

Que sobre ele o pastor possa apascentar o gado”.

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Outras obras de Miguel Torga:

Poesia

Tributo – 1931;

Libertação – 1944;

Alguns poemas ibéricos – 1952;

Orfeu Rebelde – 1958;

Camara ardente – 1962.

Teatro

Terra Firme – 1941;

Sinfonia – 1947.

Contos

A Terceira Voz – 1934;

O Quarto Dia da Criação do Mundo (Prosa) – 1939;

Bichos – 1940;

Contos da Montanha – 1941;

Pedras Lavradas – 1951.

Ensaio

Portugal – 1950;

Traço de União – 1955;

Fogo Preso – 1976.

Poesia e Prosa

Diário: 16 volumes que abarcam os anos de 1941, 1943, 1946, 1949, 1951, 1953, 1956, 1959, 1964, 1968, 1973, 1977, 1983, 1987, 1990 e 1994.

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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