Letras @CORdadas – Miguel Real (1953)

por Miguel Alves | 2015.07.26 - 11:25

 

 

 

 

(Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores e Livreiros, prémio da Associação dos Críticos Literários, prémio Fernando Namora, finalista do prémio romance e novela da Associação Portuguesa de Escritores e prémio da Sociedade Portuguesa de Autores).

 

 

Miguel Real é o pseudónimo de Luís Martins. Nasceu em Lisboa em 1953, vive em Sintra e considera-se sintrense por adoção. É filósofo, professor de filosofia e considerado um dos grandes pensadores da atualidade, da história e da cultura de Portugal. A sua obra abarca o ensaio, a ficção e o drama.

Vou hoje @CORdar a última das suas obras editada pela D. Quixote no presente ano: O Último Europeu. Trata-se de um romance que tem lugar no ano de 2284 e nele entra a Ilha do Pico nos Açores.

Esta obra é um “ensaio” de base antropológica e sociológica, a par de um exercício de imaginação. É um romance híbrido no género: MR aborda os assuntos e desenvolve-os na forma de imaginação, num mundo hipotético e gerando grande especulação: o que será o mundo nessa altura (2284), não tão distante como poderá pensar-se. A obra é também um exercício de algum pessimismo, que poderemos ou não compartilhar nas suas múltiplas componentes.

O Último Europeu situa-se no nosso planeta e nele existem três impérios em disputa: o império asiático liderado pelos mandarins, o grande império americano, o império russo, insignificante na narrativa, e um pequeno enclave chamado a Nova Europa de 100 milhões de habitantes, limite populacional que nunca poderá ser ultrapassado. Este controle (nascimentos à medida) é levado a cabo por um sistema e métodos tecnológicos desprovidos de quaisquer componentes afetivas e emocionais.

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O restante do planeta são bárbaros/escravos, que ocupam as terras de ninguém (baldios) e que assim são consideradas.

“Os Mandarins de Tóquio, Pequim, Xangai e Nova Deli, retorquiram caluniando os membros do Conselho, chamando-lhes aristocratas, elitistas e humanista. O Conselho Superior de Mandarins, reunido, analisando fria e cuidadosamente o mapa do mundo, decidiu reivindicar o território europeu como continuidade geográfica da Ásia.

Tínhamos criado a Nova Europa, uma sociedade perfeita em que predominava, como rainha ética, a harmonia entre a tolerância e a liberdade, a sociedade mais perfeita até hoje criada.

O Império Americano, com 100 milhões de habitantes, criou na passagem do século XXI para o século XXII, um novo regime político que designou, paradoxalmente, de Tecnocracia Democrática. O Departamento de Controle do Espaço Virtual do Império Americano, o serviço oficial que controlava a entrada de emigrantes no espaço americano, descobriu uma comunidade humana na Ilha do Pico, até então practicamente desabitada e registou uma concentração inusitada de “curiosidade cientifica”, na pequeníssima e desconhecida Ilha do Pico.

O Conselhos dos Pantocratas, ainda que considerando desprezíveis as populações bárbaras dos baldios, não podia consentir na sua exterminação sem grave ofensa de princípios éticos”.

O que irá acontecer será o relato de uma sociedade “perfeita” e em risco, cujo registo para a posteridade será levado a cabo por um só homem, sábio e isolado, o Reitor.

“Hoje, paradoxalmente, últimos dias da civilização humanista que os nossos pais fundadores criaram, designada por Nova Europa, vejo-me obrigado a registar por escrito as minhas impressões sobre os tempos próximos do Absolutismo Oriental. Escrevo constantemente e não passei de um terço das informações que intento deixar registadas. Refugio-me na escrita do livro”.

A Nova Europa é uma sociedade perfeita onde o bem coletivo se sobrepõe sempre e em todas as circunstâncias ao interesse e desejos individuais. Mas deste paradigma foram extintos os sentimentos, afetos e emoções através da imposição de uma racionalidade artificial acrescentada fisicamente pelo hipercortex que despersonaliza todo o europeu. Ironicamente, nesta sociedade que pretende ser humanista e valorizadora da liberdade individual é gerida por um grande Cérebro Eletrónico que tudo comanda, molda, orienta e dirige, de acordo com decisões de uma elite dominante.

“A felicidade individual e a abundância geral deram pela primeira vez as mãos com a criação genética de uma nova organização cerebral, o hipercortex, e com a inserção de placas bio-electrónicas neuronais implantadas no cérebro e mudadas de dez em dez anos.

A actual filosofia da Europa é profundamente humanista. Somos livres de pensar, de propor, de criar alternativas de vida, de querer e desejar, mas devemos atender aos conselhos lúcidos do Grande Cérebro Electrónico, que reúne a experiência de 150 anos de sabedoria social, não permitindo que, pelos desejos individualistas e narcisistas de cada Cidadão Dourado, a organização científica dos Conglomerados se estiole, enfraquecendo-se, regressando aos velhos tempos da desigualdade e da injustiça sociais, do aterrador domínio do trabalho obrigatório sobre o prazer próprio e da perversão das leis harmónicas da natureza”.

Esta obra de MR é notável pelas analogias sociológicas que o controle absoluto da vida humana já Orwell pressagiou. Ao mesmo tempo, MR associa à sua narrativa as evoluções universais em alguns domínios já hoje existentes, ou parte delas, para as desenvolver, imaginado e especulando sobre o que poderá ser o panorama geoestratégico do planeta daqui a alguns séculos.

A história da humanidade é uma história de extermínios. Poder-se-á dizer que nunca ninguém exterminou ninguém ou que, simplesmente, a humanidade sempre caminhou pelo extermínio, porque este conceito pode ser lato, circunscrito ou de limitação precisa. Aqui poderia colocar-se a velha e essencial questão existencial: a condição humana é, genuína e intrinsecamente, boa ou má? A socialização, o desenvolvimento e a cultura eliminam ou apenas atenuam, disfarçam ou reformulam a componente comum a todas as espécies: a sobrevivência e o domínio (haverá ou não ”rapazes maus”?- Padre Américo). Este livro, tem um pessimismo subliminar latente, como já dissemos e que subentende algum fatalismo histórico.

“Os Mandarins orientais cortaram a rede neo-europeia de abastecimento de energia a partir de oito centrais geotérmicas. Os Mandarins da Grande Ásia transferirão do seu território 500 milhões de habitantes para o continente europeu, exterminando-nos ou escravizando-nos, a nós, designados por Nativos neo e hetero. …não passará um mês até que a invasão seja metodicamente processada, activada com meticulosidade, como é seu hábito. …os Mandarins ordenaram a celebração da Grande Festa da Família, cujo acto central consistia na matança colectiva de todos os cidadãos com mais de noventa anos, executados em antigos estádios desportivos, para aí transportados por filhos e parentes.

Os nossos concidadãos são passivos e amáveis, fruto de uma educação electrónica fundada na tolerância e na liberdade, não se revoltarão senão acicatados pela fome e pela sede. …serão por natureza própria mais propícios à resignação que à revolta.

A todo o momento se aguarda a chacina aérea dos Bárbaros dos Baldios, sugados para o espaço interplanetário, decompostos celular e molecularmente”.

O Último Europeu não deixa de abordar alguns dos problemas mais graves da sociedade atual, nomeadamente da Europa e que “fizeram implodir a Europa após 40 anos de arrastamento decadente”: a especulação bancária, a falta de liquidez dos Estados, a substituição do valor económico dos bens pelo seu valor financeiro, o desregramento luxuoso, a emigração de países da cintura europeia cuja transição democrática foi irresponsável, porque não suportada em Instituições Democráticas consolidadas mais do que em eleições, tout court, que apenas conduziram outros extremistas ao poder, o ressurgimento de antigas rivalidades nacionalistas, a mediocridade das elites, as ambições pessoais desmedidas para competências individuais vulgares.

O Último Europeu é um livro que me deixou ambivalente após a sua leitura: por um lado, se dele é possível recolhermos algumas das angústias, dúvidas e encruzilhadas que perpassam pelo nosso tempo e sobretudo pela sociedade europeia e ocidental, a “premonição” do seu futuro, os caminhos desencadeados, as soluções e instrumentos com que se realizam e os resultados consequentes, deixam-nos perplexos. É uma deriva romanesca que, a começar pelo título, cria grandes expetativas mas que no limite da sua resolução fica próximo do tudo na mesma, nalguns casos pior, pela incapacidade duma resultante diferente e qualitativamente superior. Também os atores desta saga de mudança civilizacional nos inquietam pela insatisfação que em termos humanos e psicológicos da sua natureza apresentam. À criação de um qualquer futuro tecnológico, de um qualquer homo technos que se possa vislumbrar para o futuro da humanidade, não poderá bastar uma superior organização social, uma escala de valores liberta dos vícios e corrupções em que todos os dias tropeçamos e uma segurança individual e coletiva isenta de todos os riscos (“A Bolha Hiperatómica de Protecção e Segurança”) da intranquilidade universal em que hoje vivemos. “O Grande Irmão” eletrónico que tudo controla, regula e resolve, é afinal o quê quem? O grande Mestre e o seu Conselho, a quem todos ouvem e obedecem, que escreve, faz e testamenta a história é um pouco o paradigma da visão e verdade únicas, da perspetiva dominante, eleita e aceite como tal com acordo coletivo. Neste aspeto, não podemos deixar de nos lembrarmos do conceito de “moral do rebanho” de Nietzsche. Tudo isto ainda numa linguagem única, Universalis. Tal não parece ser ambição digna nem poderá ser o futuro da humanidade e da democracia.

“Escrever para nós significa o acto de transferência mental dos nossos pensamentos individuais para um computador, que os regista e grava e, caso necessário, no-los oferece num ecrã de computador em linguagem Universalis”.

Tudo isto poderá também ter a ver um pouco com a psicologia da fantasia humana, no caso a minha como leitor: a fantasia sobre o autor que apenas conhecia pelas suas participações em programas de rádio. Tinha sobre ele a ideia, fantasia, de ser alguém cujo granjeio intelectual, de pensamento e escrita se situava nos quadrantes da história, da cultura e da filosofia obviamente intrincadas na política. E como sempre, no conforto dos estereótipos, associável a um conjunto de outros nomes notáveis da cultura portuguesa cujo pensamento, escrita e também algum pessimismo, conheço mais detalhadamente e com os quais MR ombreia decididamente.

MR, de qualquer forma, tem subjacente neste livro a superioridade da construção europeia, os seus valores, ideais, o seu progresso e desenvolvimento. Seguido da sua decadência, ocupação por sobrevalorização quantitativa, mas também a sua fuga e resistência qualitativas. Será essa a esperança do nosso futuro, a par de outros “extermínios” recentes que também são visíveis na evolução europeia?

 

 

Outras obras de Miguel Real:

Portugal, um país parado a meio do Caminho, 2015;

Nova teoria do Sebastianismo, 2014;

Nova teoria da Felicidade, 2013;

O Feitiço da Índia, 2012;

A Voz da Terra, 2011;

As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia, 2010;

A Voz da Terra, 2005;

Os Patriotas, 2002;

Portugal, Ser e Representação,1998.

 

(Foto DR)

 

 

 

 

 

 

 

 

        

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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