LETRAS @CORdadas – (Marguerite Yourcenar – 1903/1987)

por Miguel Alves | 2014.04.21 - 22:00

 

Não quero hoje @CORdar ninguém, antes dormir um sono profundo que me leve e aos leitores, até à Idade Média, mais precisamente ao período de transição entre a Idade Média e o Renascimento. Para revivermos essa sociedade violenta e convicta, no cenário mercantil fabuloso e estóico com que Marguerite Yourcenar nos delicia num de seus livros de maior excelência: “A OBRA AO NEGRO”(1968)*.

Esta obra, a par de “MEMORIAS DE ADRIANO”, são dois romances históricos que têm alguns factores em comum no que respeita à sua construção e maturação literárias e constituem o que de mais notável MY escreveu. Ambas as personagens centrais destes livros são escolhas e paixões da adolescência de MY e que só o seu próprio processo de maturidade existencial consolidou. O texto definitivo de “A OBRA AO NEGRO”, apenas foi publicado 31 anos depois da sua conceção original.

MY, aristocrata de origem belga ingressou na Academia Belga de Línguas e Literatura em 1971 e foi a primeira mulher eleita para a notabilíssima Academia Francesa em 1980.

A personagem principal do livro é Zenão, um médico, alquimista e filósofo atormentado que procura a verdade fora das ciências e verdades estabelecidas e muitas vezes contra elas. Esta ousadia arrojada, visionária, e avançada no tempo e na história levá-lo-á a julgamento e à morte que ele próprio, corajosa e olimpicamente, leva a cabo na véspera da sua planeada execução (Não haveriam de queimar amanhã, mais que um cadáver”). Zenão nasce em Bruges e morre na cadeia dessa mesma cidade (“o anúncio de uma execução fazia aumentar a excitação da canalha …Rejeitou a vitela assada que lhe haviam preparado …Entre duas tabuinhas que à primeira vista pareciam unidas, permanecia o tesouro que ali havia escondido: uma lamina frágil e delgada … Nunca ele se sentira tão desperto de corpo e de alma: a sobriedade e a rapidez dos seus gestos eram as dos seus grandes momentos de cirurgião …num gesto rápido, com a destreza de cirurgião barbeiro cortou a veia tibial …procurou e golpeou a artéria radial do pulso …Jorraram as fontes; o liquido brotou, como sempre, ansioso, dir-se-ia por escapar aos obscuros labirintos onde, prisioneiro, circula …Zenão deixa pender o braço esquerdo para favorecer o derramamento …É isto o mais longe que se pode chegar no fim”)

A fórmula “A obra ao Negro” significa nos tratados alquimistas as fases da separação e dissolução da matéria. MY questiona-se se esta explicação apenas diria respeito à matéria física ou se, também, significava simbolicamente as provações do espírito para libertar-se de saberes, teorias e ideias feitas passando para além delas, problemática esta que é central no livro.

 

“Quem lê quer saber; quem não lê quer errar”

(Pe. António Vieira-1608.1697)

 

O romance reflecte muitas das cisões do que ainda restava da Cristandade nos inícios do século XIV em termos políticos e ideológicos: O falhanço da Reforma que subsistiu no Protestantismo com o esmagamento da sua ala esquerda e as atribulações do Cristianismo que ficou encerrado durante séculos na Contra Reforma. Além disso, as grandes descobertas e explorações do planeta (onde Portugal teve o papel histórico que conhecemos) e que se transformaram numa verdadeira partilha do mundo e na primeira globalização.

É enorme o papel e a interferência da Igreja e dos seus membros (Cónego) na trama descrita nesta superior obra literária “Não nos honraríamos em lisonjear o Procurador da Flandres – disse o Cónego, remoendo a amargura que lhe causavam as inúteis diligências junto dos ricos Ligre – Um homem da sua espécie condena da mesma forma que um cão se atira à presa”. E numa afirmação plena de abandono (endurecer-vos), de condicionamento (desastrosa situação de fugitivus que tornaria difícil, se não impossível…), ameaça (chamar a vossa atenção para uma prorrogativa), de manipulação (não ignoramos que fugistes após terdes sido secretamente avisado), de chantagem e convite forçado (Guardámos silêncio …desastrosa situação de fugitivus …a vossa reconciliação com a Igreja):

“A minha presença mais não faz que endurecer-vos – disse dolorosamente o velho Cónego. Quero, no entanto, antes de vos deixar, chamar a vossa atenção para uma prorrogativa legal que cuidadosamente mantivemos e de que talvez ainda não vos tenhais apercebido. Não ignoramos que fugistes outrora de Innsbruck, após ter sido secretamente avisado de uma ordem de prisão emitida pelas autoridades locais. Guardámos silêncio sobre esse facto que, a ser conhecido, vos colocaria na desastrosa situação de fugitivus, e tornaria difícil, se não impossível, a vossa reconciliação com a Igreja”.

A questão dominante nesta obra de MY situa-se no papel dos poderes dominantes (Igreja e Poder Político) no controle do pensamento, da ciência, da cultura e  da arte. Controle de que supõe depender a sua própria sobrevivência e para cuja existência utiliza uma diversidade de estratégias. “Todas as vidas interligadas …a pequenez dos ganhos e perdas o que, por contraste, conferia ás paixões um aspecto grandioso …Quanto às ideias acontecia-lhes o mesmo que às pessoas: depressa se unificavam em categorias preestabelecidas… Já de antemão se sabia, a senhora regente tinha sempre razão …O que não é como eles, parece-lhe contra eles …renunciara a confiar de viva voz tudo o que pensava ou escrevia …Qualquer médico, depois dele, poderia vir a tirar partido daquele diário redigido por um clínico …Não há ninguém tão tolo que não seja um pouco sábio …o sangue e a alma são uma e mesma coisa, pois que alma e sangue se esvaem ao mesmo tempo…Ciência e contemplação não bastam, irmão Henrique, se não as transformarmos em poder …Acontece com as vossas idades de oiro o mesmo que com Damasco e Constantinopla, que só são belas à distância; há que percorrer as ruas para ver os leprosos e os cães esventrados …Não me cabe a mim decidir se o avarento atacado de cólicas merece mais dez anos de vida ou se seria bom que o tirano morresse …a dor desse porteiro e a fúria dos seus carrascos enchem o mundo inteiro e ultrapassam o tempo”.

Esta notável obra de MY também identifica genialmente os dramas, as angústias e a perplexidade interior dos espíritos esclarecidos, abertos a todos os questionamentos e situados muito para além do seu tempo e das suas verdades estabelecidas em termos sociais, políticos, científicos e religiosos.

…”nada disso existe fora do mundo do sangue e talvez da seiva, da carne lavrada pelo fio dos nervos como que por uma rede de relâmpagos e (quem sabe) do caule que cresce para a luz …o resto, o mundo mineral e o dos espíritos, se este acaso existe, é por certo insensível e tranquilo, ou para além das nossas alegrias e tristezas …é isso que de certo explica a indiferença dessa substância inimitável a que devotamente chamamos Deus …O que acabais de dizer assusta-me …Que outra coisa pediam, senão aquilo que todas as instituições sempre necessitam, ou seja, reformas …deixamo-nos adormecer sobre a cruz como se ela fosse um travesseiro …preferia não ver lançada à fogueira a minha obra prima. Ma não é isso que o prior certamente pensa …O universo dito mágico era constituído por atracções e repulsões que obedeciam a leis até agora misteriosas, mas não necessariamente impenetráveis ao entendimento humano …a ele entusiasmava-o o facto de pertencer a um mundo que não era apenas o pardieiro humano …O rebelde que se erguia contra o seu príncipe provocava em todos os seguidores da ordem algo de semelhante a essa invejosa raiva: o seu NÃO exasperava o SIM incessante deles”.

Em síntese, disse Zenão: …”a audácia do espírito parece agravar a do simples corpo”. Como sempre e em quase tudo!

 

*Edição Mil Folhas do Jornal Público.

 

Outras obras de MY:

Memórias de Adriano – 1951

Labirinto do mundo – 1974/1977

O tempo esse grande escultor – 1983

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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