Letras @CORdadas – Joseph Conrad, (1857-1924)

por Miguel Alves | 2015.06.25 - 11:57

 

 

Jozef Teodor Konrad Korzeniowski nasceu em Berdichev na Polónia atualmente território da Ucrânia e na altura debaixo do domínio czarista da Rússia. Seu pai, nacionalista polaco, que traduzia romances ingleses e franceses exilou-se na Rússia com o filho. Aos doze anos ficou órfão, tendo emigrado para a Suíça onde ficou aos cuidados de sua tia.

Aos dezassete anos alistou-se como grumete na marinha mercante francesa em Marselha, tendo navegado pelos mares da India e obtido a carta de comandante em 1884. Em 1886 passou a navegar pela marinha inglesa, tendo viajado pelos mares da Ásia, África e Oceânia. Como mérito do seu trabalho, foi-lhe concedida a nacionalidade britânica É nessa altura que muda de nome para que ser mais assemelhado a um inglês. Morreu em Bishopsbourne deixando uma obra de 23 volumes de romances e contos.

A escrita de JC exerce-se nas profundidades da condição humana: na complexidade dos seus medos e pavores, anseios e frustrações, realizações e fracassos, decisões e tibiezas, na energia vital decisiva e nas vulnerabilidades fatais, no amor e no ódio. No fundo, na vida: no seu sentido ou non sense. Na morte como fim ou recomeço.

JC é um escritor dos interiores da alma humana: dos seus recantos funestos e das suas realizações grandiosas. JC reconstrói para/na realidade a subjetividade profunda, escondida e lactente que abunda na vulgaridade dos acontecimentos, nas atitudes aparentemente simples, nos comportamentos asséticos, nos atos insignificantes.

Quero hoje @CORdar duas obras importantes de JC: “O Coração das Trevas” (1902) e “A linha de Sombra” (1917). Por ser mais profunda nas questões que aborda e não ser tão diretamente associável a aspetos biográficos da sua vida, vou debruçar-me mais pormenorizadamente sobre o primeiro. Sobre o segundo, analisaremos sobretudo a “Nota do Autor” que antecede a obra e onde ele reflete sobre algumas das principais questões que subjazem a essa narrativa.

“O Coração das Trevas” relata a viagem, a partir de Londres, do capitão da Marinha Mercante Inglesa Marlow, destinada a subir o rio Congo para encontrar Mr. Kurtz que se encontra à beira da morte no interior distante e inóspito da selva africana. Mr. Kurtz era um velho comerciante de marfim que lá dera a sua vida pela “companhia”, num dos “lugares negros” da terra, lá no “coração das trevas”.

“…e de onde haviam partido os aventureiros e os colonos, navios de reis e navios de homens de Bolsa; comandantes, almirantes, os obscuros traficantes do comércio do oriente e os generais a quem era entregue o comando das frotas da India. À caça do ouro ou em busca da fama, todos tinham saído por este rio empunhando a espada e muitas vezes o facho, mensageiros de poderes da terra, portadores de uma centelha de fogo sagrado. Quanta grandeza não tinha vogado na maré deste rio para o mistério das terras ignotas!… Sonhos de homens, sementes de domínio, embriões de impérios”.

Mr. Kurtz era uma gente de 1ª classe. Uma pessoa notável e dominadora ao longo de todo o curso do rio. Encarregado de um entreposto muito importante em pleno coração da região do marfim. O símbolo obscuro e sinistro da alma humana, do colonialista espoliador, violento, dominador. A viagem de Londres até ao rio congo e a subida rio acima é uma viagem de procura e imersão nas trevas que povoam a alma humana. Uma viagem em direção à decadência e degradação da condição humana, ao reino dos instintos mais primitivos e à ignorância mais feroz e abstrusa do outro, do ambiente, de toda a vida para além do lucro e do marfim.

“O único desejo era arrancar tesouros às entranhas da terra, sem um propósito mais moral do que o dos gatunos que assaltam um cofre. O Kurtz vagueava sozinho nas profundezas da floresta. Para falarmos claro, ele pilhava a região. As tais bolas não eram ornamentos mas símbolos; eram expressivas e intrigantes, espantosas e perturbadoras – alimento para reflexão e para os abutres, casos os houvesse espreitando o céu; em qualquer dos casos eram-no para as formigas que se mostravam suficientemente industriosas para trepar o poste. Mostravam que faltava ao senhor Kurtz alguma contenção nos seus vários apetites, que lhe faltava qualquer coisa – uma pequena coisa que, quando necessária, faltava na sua magnificente eloquência, Os métodos do senhor Kurtz tinham arruinado aquela região administrativa; era evidente que o apetite insaciável pelo marfim levava sempre a melhor. Recostou-se sereno, com aquele seu sorriso característico a selar as profundezas indivisíveis da sua mesquinhez. Não receava os indígenas; eles não se mexiam sem a sua autorização”.

“O Coração das Trevas”, esconde também uma história de amor. Kurtz deixou na sede do império um grande amor (a sua Prometida), que o livro não aborda a não ser na sua parte final e que é revivida e amada num processo de transferência verdadeiramente psicanalítico nas beldades africanas. Ela aparece fulgurante e candente aqui e ali na narrativa nas beldades indígenas, para surgir no final como caso perdido e arrumado, mas nunca esquecido e menos ainda resolvido. É o retorno à realidade. Esta realidade (A Prometida) emerge após a chegada do cadáver de Kurtz para saber como as coisas tinham acontecido.

“E de um lado para o outro da costa iluminada, movia-se uma belíssima e selvagem visão de mulher. Media os passos que dava e trazia a cabeça bem levantada. Era selvagem e soberba, de olhar bravio e magnificente; no seu caminhar decidido, havia qualquer coisa de sinistro e majestoso. Tinha no rosto o ar trágico e feroz de um desgosto violento, uma dor muda que se misturava com o medo de uma resolução difícil e mal decidida. Só a mulher soberba e bravia não fez o mínimo movimento de recuo, e estendia tragicamente os braços nus sobre o rio cintilante. Ela mirou-nos a todos como se a sua vida dependesse da fixidez inabalável do seu olhar. Pálida, toda vestida de negro, aproximou-se flutuante na penumbra. Vestia de luto. Ele morrera há mais de um ano, havia mais de um ano que chegara a notícia, mas parecia que ela o iria lembrar e chorar para sempre. Era um olhar ingénuo, profundo, confiante esperançoso. Erguia a face como se se orgulhasse desse desgosto, como que a dizer ”só eu sei chorá-lo como ele merece”. Sobrevivi. E a mulher falava, apaziguando a dor com a certeza da minha compreensão”.

A narrativa de “O Coração das Trevas” é também a imagem de uma parcela da história de Portugal: Guiné, Angola e Moçambique tinham muitos corações das trevas, lugares negros, porque tão inóspitos e impenetráveis como os da India de Sua Majestade Imperial. Portugal teve também muitos Kurtzs, Almeidas, Gonçalves, Silvas. Conheci alguns quando por lá passei nos meus vinte e sete meses de guerra já perdida. Porém os Kurtzs portugueses que lá conheci faziam dos lugares negros e do coração das trevas, lugares mestiços e de corações felizes. Também muitas vezes funestos nas manhas, misteriosos e sedutores no olhar, insaciáveis no ganho. Mas, por razões bem nossas, eles não: “odiavam aquilo, mas não conseguiam ir embora”. Ficaram, ficaram até ao fim, quando muitos já só tinham a camisa.

Tal como a JC, também a mim “o fogo do seu olhar e a languidez composta da sua expressão” me convencia acreditarem estarem no “limiar de grandes coisas”. Estavam de facto, mas as grandes coisas passavam muito longe deles e da sua alma pacificamente guerreira e generosa. Não davam por isso. A sua vida também corria “ a vida de Kurtz também corria célere, vazando, vazando do seu coração para o mar do tempo inexorável”, para o fim do império, que as elites não foram capazes de amortecer e acomodar à nossa capacidade, valor e valentia. Em tempo útil. Muito antes.

“O Coração das Trevas” teve o condão de fazer-me regressar às trevas que lhe sucederam, após o regresso dos nossos Kurtzs. Ao reino onde só “a mulher soberba e bravia “ reinava deslumbrante e radiosa. Por isso também afirmo “que o Kurtz era um homem notável. Tinha algo a dizer e disse-o”. Também os nossos o eram, tinham algo a dizer e disseram-no. Têm-no dito. Já ninguém os cala. Felizmente, já que os silêncios obscurantistas que os antecederam não tinham horizontes de futuro e sonhos à vista.

 

Em “A linha de Sombra”, JC narra, um pouco em jeito autobiográfico, a viagem/transição da juventude para a maturidade. Trata-se de uma viagem pelos mares do sudoeste asiático na estreia como comandante de um oficial da marinha mercante na sua primeira comissão.

A dada altura, o seu navio à vela depara-se com uma extraordinária calmaria no clima insalubre daquela região, enquanto a sua guarnição começa a ser dizimada por uma estranha febre tropical.

A essa imobilidade vai corresponder a intensificação ameaçadora da atividade humana, desgovernando o navio e isolando o comandante. Este, na violenta solidão da sua responsabilidade e relativa impotência, vai percorrer dolorosamente muitas das etapas da vida: os seus dramas, angustias, ambivalências, percalços, sobressaltos e dúvidas que lhe darão o retrato definitivo da condição humana total.

Este caminho perpassa por temas decisivos como:

– A aceitação ou não de uma conceção mágica da vida, expressa na fé no sobrenatural.

“De súbito, parecia que um par de asas me crescera nos ombros. Surpreendia-me não me sentir mais surpreendido com o que se passara. São demorados todos os caminhos que nos conduzem à consumação dos desejos mais íntimos. Parecia que, mesmo no mar, o homem pode ser vítima de maus espíritos. Senti no meu rosto o hálito de poderes desconhecidos que traçam os nossos destinos. Isto faz-me pensar que existe um ouvido invisível a escutar os segredos da terra, este navio deve parecer-lhe o local mais silencioso de todo o mundo. Era impossível distinguir a terra e o mar, no sossego inquietante das imensas forças deste mundo. Como se a minha alma se reconciliasse agora e de repente com uma eternidade de cegas calmarias. Se realmente alguma vez uma vela foi transportada por uma força meramente espiritual, foi com certeza aquela vela”.

– A sorte e o azar como fatores determinantes ou não dos ciclos experienciais da vida.

“A decisão da minha voz e da minha postura só parcialmente era fingida. Por vezes, sim, por vezes, a curiosidade pode tornar-se um sentimento feroz. No seu todo, a natureza humana, receio bem que não seja lá muito perfeita. Não lhe faltam certas nódoas de fealdade. A atmosfera burocrática tem uma ação mortal sobre todas as coisas que vivem do esforço humano; põe também fim, sob a supremacia do papel e da tinta, a todo o temor e toda a esperança. O favor dos grandes do mundo desprende um halo à volta do objeto bafejado pela sua escolha”.

“O despenseiro, que permanecera ate então encostado à parede, aproximou-se da nossa mesa com a sua cara de bode sem sorte, dirigindo-se-nos em tom de queixume. Era sua intenção aliviara-se de todas as recriminações que tinha a fazer contra Hamilton”.

– A relatividade dos fenómenos de cada vida individual e desta mesma face ao universo.

“Há algo de desagradável na noção de recompensa. Tinha a mão a abarrotar de complicações com grande valor como experiência. Toda a gente tem uma excelente opinião acerca dos benefícios da experiência. Mas, de facto, a experiência significa sempre algo de desagradável, contrariando a sedução e a candura das ilusões. Um homem tem que enfrentar os seus azares, os seus erros, a voz da sua consciência e tudo isso por aí fora. É assim mesmo… contra que mais teremos de lutar?”.

– O efeito da perspetiva no campo da memória individual.

“A voz de Giles prosseguia cheia de auto satisfação, a voz perfeita de toda a vaidade universal. Eu era, por assim dizer, absoluto. A semente de um remorso eterno mergulhava na terra do meu peito. Deterioraram todo o auto domínio que ainda me restava. A realidade é que uma pessoa não deve atribuir demasiada importância a seja o que for na vida, de bom ou de mau. Viver com as máquinas a meio vapor, é o que isso é. Mas nem todos podem ser assim”.

                       

Outras obras de JC:

O negro do Narciso – 1897

Lord Jim – 1900

O Tufão – 1903

Nostromo – 1904

O Agente Secreto – 1907

A Linha de Sombra – 1917

A Flecha de Ouro – 1919.

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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