LETRAS @CORdadas – José Saramago

por Miguel Alves | 2015.10.27 - 10:57

 

 

José Saramago 1922 – 2010

(Prémio Nobel da Literatura de 1988)

 

José Saramago nasceu numa aldeia do Ribatejo (Azinhaga). Neto e filho de camponeses, os seus pais emigraram para Lisboa quando ele ainda não tinha dois anos. Fez apenas estudos secundários e técnicos porque as condições económicas da sua família não permitiam fossem maiores e mais qualificados.

Foi serralheiro mecânico, desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor e jornalista. Foi também crítico literário da revista Seara Nova. De 1972 a 1973 fez parte da redação do Diário de Notícias como comentador político e responsável pelo seu suplemento cultural. Foi ainda membro da direção da Associação Portuguesa de Escritores, presidente da assembleia geral da Associação Portuguesa de Autores e diretor adjunto do Diário de Notícias.

A sua primeira obra literária foi “Terra de Pecado”, publicada em 1947, não tendo trazido ao prelo nenhuma obra até 1966. A partir de 1976, passou a viver exclusivamente dedicado ao seu trabalho literário.

JS é uma das figuras mais polémicas da cultura portuguesa do século XX. Porém, as controvérsias que à sua volta se geraram e criaram, foram construídas, quase sempre, sobre a base da solidez e fortaleza das suas convicções e da forma como abordava algumas áreas da vida política, social e, sobretudo, religiosa. Essa solidez e fortaleza chocaram e chocam ainda com o fraco sentido crítico, os brandos costumes, as representações sociais maioritárias de convicções, crenças, costumes, hábitos e até rotinas e, sobretudo, do fenómeno religioso.

Na estrutura humana e psicológica de JS cruzam-se três vetores fundamentais que o tornaram um ser excecional, único e portentoso:

  1. As suas origens sociais e o seu contexto social e político, que o moldaram como cidadão consciente, empenhado e interveniente. Nessa sequência, JS foi um cidadão marcadamente político e partidariamente militante o que, num país com níveis de cidadania medianos ou baixos, adiciona anticorpos quando a essa militância estão associados o talento e a arte com a profundidade, a intensidade, a convicção e a frontalidade existentes em JS. Mesmo assim, a essa militância não se coibiu de contrapor ideais superiores quando em 1989 assina um documento com centenas de militantes do PCP, designado “Terceira Via”, que contestava a liderança de Álvaro Cunhal e exigia maior democracia interna. Também em 2004, numa entrevista à TSF desafia o seu partido “a procurar caminhos novos”, salientando que “as batalhas de hoje não se ganham com armas de ontem”. Seria premonição? Como o parece terem sido as críticas ao regime cubano num artigo publicado no “El Pais” em Abril de 2003.
  2. O talento criativo e literário que irrompe na sua obra, através de uma escrita antigramatical e antisintática que a torna única, que necessita uma leitura exigente, atenta e se torna ao mesmo tempo sedutora, embora para alguns aparentemente pouco atrativa pelo esforço adicional que mobiliza. Uma espécie de realismo mágico meramente linguístico, mas vindo igualmente das profundezas da alma humana em ondas e marés sucessivas que colidem, se cruzam e se esvaem para retomarem de novo o caminho, algures na narrativa.
  3. A persistência do fenómeno religioso como questão profunda e estrutural da existência e que o “força” a nela mergulhar através de várias das suas obras mais importantes. As polémicas que algumas delas geraram, ao contrário daquilo que se ouviu em alguns analistas e críticos pouco atentos que salientavam a afronta que elas significavam para valores dominantes da sociedade portuguesa, mais não são que a prova de que JS era um cidadão profundamente “religioso”, naquilo que a religião tem de mais essencial e básico para o homem: a transcendência do ser e da vida humana. JS insiste e retoma frequentemente uma certa “afronta” de questões religiosas e ligadas às “Igrejas”, porque procura ou nega nelas a resposta a questões fundamentais que o preocupam e angustiam, que aí não encontra e apesar delas se afirmarem suas detentoras.
  4. Recorde-se a este propósito a polémica gerada pelo SEC Sousa Lara que vetou “O Evangelho segundo Jesus Cristo” ao Prémio Literário Europeu em 1992 e cujo veto foi conhecido no dia 25 de Abril daquele ano. “A Inquisição regressou a Portugal”, afirmou La Stampa. “Sousa Lara tem na cabeça o tribunal do Santo Ofício”, escreveu A Capital. “A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses”, disse defendendo-se Sousa Lara. Esta polémica levou à demissão do SEC e ao divórcio de JS com Portugal, levando-o a fixar-se definitivamente na Ilha de Lanzarote onde veio a morrer. Polémica foi também a sua obra “Caim”, onde as suas referências ao Velho Testamento e á Bíblia geraram fortes e apaixonadas críticas.

JS como pessoa e a parte dominante da sua obra são uma fusão tumultuosa, conflitual, angustiada e genialmente criativa, destes três vetores estruturais cujo azimute é a procura genuína e, acreditamos, profundamente bem intencionada, de uma síntese para a condição humana e de uma razão para a vida perante a dificuldade e impossibilidade de acreditar nas respostas existentes. “Sinto-me, incapaz de acreditar em Deus”, afirmou, pode ter significado também a vontade de que isso acontecesse.

Houve em Portugal eleições legislativas recentemente. Quero, por isso, @CORdar hoje uma das obras de JS sobre esse ato, obrigação e dever cívicos que a todos nos assiste: ”Ensaio sobre a Lucidez”, uma edição de 2004.

Esta obra gira á volta de umas eleições em que os eleitores votam maioritariamente em branco (acima de 70% e é associada a um outro livro de JS: “Ensaio sobre a Cegueira”. São ambas obras que questionam a verdade e a mentira em politica e a forma como a mesma é levada cabo, podendo ambas ser enquadradas na vertente politico ideológica do seu autor. “Sim, mas o maior erro da minha vida como político foi permitir que me sentassem nesta cadeira, não percebi a tempo que os braços dela têm algemas”.

Na altura da sua publicação, muitas das críticas feitas ao livro assentaram na presunção de que o mesmo era uma apologia ao voto em branco. Liminar e superficialmente essa crítica tem assentamento, mas pensamos que ela pretende ir mais fundo na análise e reflexão de alguns dos impasses contemporâneos da democracia e da pratica política, sobretudo na perplexidade que esta pode gerar nos eleitores perante as propostas políticas, a prática política, os atores políticos e a exigível cidadania e interesse público que as/os devia moldar e condicionar.

“Qual movimento subversivo, quereria ela saber, O do voto em branco, Está a dizer-me que o voto em branco é subversivo, tornaria ela a perguntar, Se forem em quantidades excessivas, sim, senhor, E onde é que está escrito insistira ela, na constituição, na lei eleitoral, nos dez mandamentos, no regulamento do trânsito, nos frascos de xarope, Escrito, escrito, não está. Aprendi neste ofício que os que mandam não só não se detêm com o que nós chamamos de absurdos, como se servem deles para entorpecer as consciências e aniquilar a razão. O futuro me dará razão, senhor primeiro-ministro. De pouco lhe há-de servir se o presente lha nega. As linguagens são conservadoras, andam sempre com os arquivos às costas e aborrecem actualizações. Já sabe as respostas que pretende ou pretende que as perguntas lhe sejam respondidas? Se não há culpado não o podemos inventar. Pergunto-te se dizer que um acusado está inocente é fracassar una diligência, Sim, se a diligência foi desenhada para fazer de um inocente culpado. Das agitadas e não raras vezes joviais e divertidas crises políticas que eram como fogachos de duração prevista e intensidade vigiada, quase sempre a fazer de conta, e com as quais se aprendia não só a dizer a verdade como a fazê-la coincidir ponto por ponto, quando fosse útil, com a mentira, da mesma maneira que o avesso, com toda a naturalidade, é o outro lado do direito”.

É referido por vários analistas que, até hoje, não foi feito nenhum estudo sério sobre a abstenção e o perfil do abstencionista. Políticos de primeiro plano afirmaram já também da necessidade de analisar e estudar os votos brancos e nulos, bem como o seu conteúdo. Vejamos a síntese dos dados das últimas eleições:

Eleitores inscritos – 9.682.553;

Eleitores votantes – 5.408.805 equivalentes a 55.86% do universo eleitoral;

Abstencionistas – 4.273.748 equivalentes a 43.07% do universo eleitoral;

Votos brancos – 11.851 equivalentes a 2.09% do universo eleitoral;

Votos nulos – 89.584 equivalentes a 1.66 % do universo eleitoral*.

“Não votos” (abstencionistas) e “votos inúteis” (brancos e nulos) – 4.375.183 equivalentes a 46.82% do universo eleitoral.

Abstencionistas, votos brancos e votos nulos são um sub universo grande demais para que o sistema político não olhe para ele com sérias preocupações. Poder-se-á perguntar, citando JS: “Expressivo qualificativo de torpedo disparado abaixo da linha de flutuação contra a majestosa nave da democracia”?

Um ex Ministro das Finanças sugeriu que aos votos brancos deveriam corresponder cadeiras vazias na AR. A ideia, podendo ser interessante, dificilmente algum dia terá realização. À sua efetivação, corresponderia a aceitação implícita do “não valor” dos representantes para uma franja, maior ou menor, do eleitorado. Esse “não valor” teria estatuto de representante semelhante aos demais, com a agravante de ser e estar sempre silencioso. Um espinho permanentemente cravado no corpo principal!

As surpresas resultantes do último ato eleitoral não atenuam a gravidade da dimensão deste universo, antes a avolumam não tanto pela surpresa que, afinal foi bastante anunciada, mas antes pelas sombras que a produziram e fizeram com que não se vislumbrasse previamente o seu alcance. “Os fins justificam os meios, mas sempre com a condição de os fins serem alcançados e a lei da necessidade se cumpra. Tragam-me os resultados e eu não perguntarei de que forma os obtiveram. Se as aves estão caladas não quer dizer que não se encontrem nos ninhos, é o tempo calmo que esconde a tempestade, não o contrário, acontece o mesmo com as conspirações dos seres humanos, o facto de não se falar nelas não provam que não existam, compreendeu papagaio do mar, Sim albatroz.” As figuras que projetam as sombras terão que aparecer, mesmo que, como diz JS, “tudo pode ser contado de outra maneira”. Então se verá e, como diz a Bíblia, “pelos frutos os conhecereis”. Oxalá estes não venham a ser excessivamente amargos, ou a amargura não passe apenas de pré-anunciada. Oxalá!

 

*Dados oficiais do MAI

 

Outras obras de JS:

Romances:

Terra de Pecado, 1947;

Levantado do Chão, 1980;

Memorial do Convento, 1982;

O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984;

História do Cerco de Lisboa, 1989;

O Evangelho segundo Jesus Cristo, 1991;

Ensaio sobre a cegueira, 1995;

O Homem Duplicado, 2002;

Ensaio sobre a Lucidez, 2004;

Caim, 2009.

Peças de Teatro:

Que farei com este Livro, 1980;

A Segunda vida de Francisco de Assis, 1987;

Don Giovanni ou o dissoluto absolvido, 2005.

Contos

Objecto quase, 1978;

Poética dos cinco sentidos – O ouvido, 1978;

O conto da ilha desconhecida, 1997.

Poemas:                     

Os Poemas Possíveis, 1966;

Provavelmente alegria, 1970;

O ano de 1993, 1975.

Crónicas

Deste mundo e do outro, 1971;

Os apontamentos, 1973;

A bagagem do viajante,1974;

As opiniões que o DL teve,1974.

Filmes baseados em livros

O Homem Duplicado;

Ensaio sobre a cegueira;

A Jangada de Pedra;

Embargo.

 

 

 

 

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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