LETRAS @CORdadas (Jorge de Sena)

por Miguel Alves | 2014.03.22 - 18:34

Quero hoje @CORdar quinhentas e algumas páginas de uma obra de Jorge de Sena carregada de grande densidade. A par dela, a narrativa é atravessada por uma enorme tensão e profundidade como o é o vasto conjunto de toda a sua obra.

Jorge de Sena foi inicialmente engenheiro, filho de um Comandante da Marinha Mercante e aluno da Escola Naval donde foi expulso durante a viagem de instrução no navio escola Sagres. Mais tarde, Engenheiro Civil da Junta Autónoma de Estradas, viria a exilar-se no Brasil (1959) por manifesta e declarada oposição à ditadura salazarista.

JS é, essencialmente, um poeta de génio, ficcionista de um enorme talento e escreveu um único romance: “SINAIS DE FOGO”*. A sua primeira edição ocorreu já depois da sua morte (1979) e estava destinado a ser parte de um ciclo intitulado “Monte Cativo”.

Não é comum na literatura a existência conjunta numa só pessoa de um poeta com o fulgor de Jorge de Sena e de um ficcionista talentoso poderosamente alicerçado na realidade como ele foi. “A literatura é a transposição e criação estética da realidade”. Nele, um género de escrita levava-o ao outro como complementos de expressão mútuos. Como se de um continuum, raro, apenas se tratasse.

“SINAIS DE FOGO” situa-se no período de eclosão da guerra civil de Espanha e no seu entrecruzar político com a ditadura portuguesa. É nesse cruzamento intenso de clandestinidades, convicções e paixões, onde são visíveis alguns sinais autobiográficos, que JS nos envolve numa teia colossal de relações políticas, emocionais, afectivas e carnais, expressão daquilo que era o seu poderoso, rico, angustiante e contraditório mundo interior.

Homem de inquietações e questionamentos globais, não lhes fugia, mesmo perante a sua pujante e violenta força interior: “A felicidade é uma coisa terrível. Até mete medo …é mais fácil ser-se infeliz. O drama para JS era, porém, sociológica e politicamente mais global, violento e grave que essa constatação: “As coisas e as pessoas podiam ser substituídas, transferidas de identidade e de sentido, suprimidas, tudo. Mas não podiam ser refeitos os acontecimentos com elas, os acontecimentos tinham sido. Isso era mais importante que a vida e a morte”. Nessa, angústia, um “nó de substituições múltiplas” ele vislumbra esperança e redenção …“Num mundo em que tudo se vendia e se roubava, essa identidade era o único bem, a única propriedade pessoal de nós mesmos para nós mesmos”.

 

“Quem lê quer saber; quem não lê quer errar”

(Pe. António Vieira-1608.1697)

 

SINAIS DE FOGO, é romance em que o amor, a paixão e a sexualidade em muitas das suas formas, assumem uma importância decisiva e predominante: inquietante e perplexa, de passagem ao acto, fortemente física e na fronteira de um realismo intensamente erótico. Os circuitos do amor, da paixão e da sexualidade têm lugar na Figueira da Foz num Verão aquecido pela política espanhola, pelos espanhóis que aí circulam e nos seus reflexos em Portugal. Mercedes é a mulher objeto contraditório, disputado e traficado em intensidades carnais e emotivas de profundo realismo psicológico. “Às vezes, a gente quer a vontade dos outros, e outras vezes quer que a vontade dos outros se faça nossa …A nossa vida é esse ataque vindo de fora …Ou começava eu a tratá-la como uma coisa e não uma pessoa? E ela que queria de mim? …E, solteira ou casada ela, eu tê-la ia (ou ela a mim) sempre que um de nós quisesse. Porque, casasse ela com quem casasse, o marido que ela encontrasse teria sempre de mim o bastante para que ela me fosse infiel com ele e a ele comigo …uma serena realidade, com abertas de alegre sonho, em que, abraçados e penetrados, conquistaríamos um para o outro o que cada um de per si não teria …Era como se ela só fosse plenamente minha, aquele corpo absoluto que era mais do que o meu, depois que todos a violassem, a deixassem gasta e sangrenta …Eles eram o sexo antes ou depois dele, quando pelo sexo não buscamos outrem, mas o pretenso ou desesperado completamento de nós próprios …Ao desejar mulheres, ele só podia desejar as mulheres dos outros, por eles desvirginadas e possuídas. Não eram elas quem o excitava, mas uma lembrança recalcada e profunda”.

JS era um homem de convicções fortes, empenhado social e politicamente: “A noção de qualquer garantia transcendente, de uma ordem ideal envolvendo o mundo, mas consentindo a maldade e a injustiça, a degradação e a traição, a sordidez e a infâmia, ou, mais que consentindo, alimentando-se delas, dava-me vertigens de náuseas. Não. Tudo menos um vazio feito da estupidez da morte …Mas a desordem total seria o reino do mais forte, do mais maligno, do mais violento. Disso emergira a humanidade. Emergira? Ou substituíra progressivamente violência por indiferença à violência, injustiça por indiferença à justiça, egoísmo por inconsciência, medo da morte por medo da vida? … Qual era o limite de tudo nas relações humanas? …a marginalidade era reciprocamente, uma necessidade social que ele, vendendo-se, podia exercer …Lixo de arrabalde ou de bairro excêntrico …De modo que havia gente em toda a parte, que mutuamente se via como realmente não era”.

Curioso é verificar a actualidade das suas opiniões sobre a vida política e quão coincidentes com as elevadas taxas de abstenção eleitoral atuais dos portugueses, reflexo da sua baixa representação dos políticos e da política: …”Mas, a política é outra coisa … É preciso ter-se muito estômago para engolir as combinações sórdidas de uns, a mesquinhez de outros, a pequenez de quase todos”. Tudo dito! Na esperança de que o que sobrar do “quase” seja suficiente para a redenção. Sê-lo-á?

 

*Edição Mil Folhas do Jornal Público

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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