LETRAS @CORdadas – J. Steinbeck

por Miguel Alves | 2015.11.23 - 23:14

 

 

 

(John Steinbeck 1902 – 1968)

 

(Medalha de ouro do Commonwealth Club de S. Francisco em 1933)

(Prémio Pulitzer de 1939)

(Prémio Nobel da Literatura de 1962)

 

 

John Ernest Steinbeck nasceu em Salinas na Califórnia numa família de classe média. Por influência de seus pais, cedo começou a ler alguns dos clássicos da literatura universal: Dostoiévski, Milton, Flaubert e outros. Acabado o ensino secundário em Salinas, ingressou na Universidade de Stanford onde estudou Biologia Marinha, tendo trabalhado em diversas profissões para custear os seus estudos nessa universidade.

Teve um conjunto diverso de experiências laborais como farmacêutico, servente da construção civil, aprendiz de pintor, jornaleiro, caseiro e vigilante de uma quinta. Em 1925, empregou-se no jornal “American” de Nova Iorque. Já com alguns dos seus livros escritos, procurou então ele próprio um editor para a sua publicação, tendo-se estriado como escritor em 1929 com “A Taça de Ouro”. Durante a II guerra mundial foi correspondente no Reino Unido e Mediterrâneo do jornal New York Herald Tribune, de cuja experiência resultou “A Lua no Ocaso”, 1942.

Já na sua fase de escritor a tempo inteiro, encontra o biólogo Edward Rickette de quem ficaria amigo, e do qual capta como noção essencial para a vida o facto de que todos os seres vivos existem e atuam em interdependência, apesar de as grandes questões ambientais estarem ainda longe de ser prioritárias para a sociedade do seu tempo. Este facto, aliado ao contacto com o pensamento do psicólogo Carl Jung do qual absorve o conceito de arquétipo, esteve na base da construção de um dos seus livros mais importantes e a que hoje nos vamos referir.

Só em 1935 JSt. passa a dedicar-se por inteiro à literatura com “Boémios Errantes”, com o qual receberia a medalha de ouro do Prémio do Commonwealth Club de S. Francisco.

JSt. Foi casado duas vezes, tendo na fase de separação tido problemas de consumo excessivo de álcool, desvio onde encontrou o lenitivo para as angústias de separação e frustração resultante desse abandono.

JSt. é uma das figuras mais notáveis da literatura universal e norte americana do século XX. Parte importante da sua obra situa-se na abordagem de períodos da história dos Estados Unidos. A partir dessa enorme e fecunda temática, ele aborda com acutilância e profundidade analíticas muitas as grandes questões da humanidade e da condição humana. Numa escrita simples e escorreita, mas ao mesmo tempo atrativa e sedutora.

Quero hoje @CORdar uma das suas obras mais importantes: “A Um Deus Desconhecido” escrita em 1933. Há largos anos que a li, tendo retido da sua leitura, entre outras coisas, o papel central que nela desempenha uma árvore: majestosa no seu tamanho, simbólica na sua força moral e anímica, estratégica na sua centralidade, protetora, atenta e ouvinte na sua imobilidade. Esta árvore é um carvalho gigantesco, debaixo de cuja proteção e em torno do qual o herói da saga se instala e constrói a sua casa, a sua vida e família na conquista e ocupação do oeste americano. Um improvável qual “Deus Desconhecido”! Um verdadeiro arquétipo de pai orientador e protetor.

Lembrei-me deste monumento da natureza e deste livro de JSt. em contacto com dois de carateristicas e dimensões semelhantes que “encontrei” numa já antiga propriedade da minha família e onde agora passo muito do meu tempo. Já lá estão há dezenas de anos, mas só agora olhei e até “falei” com eles na justa medida da sua dimensão e dignidade majestáticas, da sua saliência ambiental, do imenso saber simbólico e real que me podem transmitir, bem como do espaço único e privilegiado que a sua majestosa estrutura podem oferecer tão gratuita e generosamente.

Antes desta viagem de conquista e ocupação, este livro deixa antever um outro Deus, este bem visível e conhecido: patriarca, visível e presente, definidor e orientador de vidas, sábio e condicionador na sua simplicidade, determinado, seguro, catoniano nas convicções, visionário e convincente sobre os rumos do futuro. É o velho pai de Joseph Wayne, o jovem, ambicioso e conquistador, que a ele recorre para o abençoar nessa façanha, embora já possuído da convicção e determinação para que solicita proteção: John Wayne. A expressão viva e real de um arquétipo que perpassa por toda a obra. Assim começa o livro.

“A terra não vai produzir o suficiente, meu pai – disse humildemente. O velho aconchegou a sua manta de lã de carneiro em volta dos ombros delgados. A sua voz era suave, feita para ordenar justiça simples. De que te queres queixar, Joseph? Já sabe que o Benjamim tem namorada, meu pai? Casará quando chegar a Primavera; no Outono nascerá uma criança e no Verão a seguir virá outra. A terra não estica, meu pai. Não chegará para todos. O velho baixou os olhos, lentamente, pondo-se a observar os dedos que se lhe agitavam preguiçosamente no regaço. O Benjamim ainda não mo comunicou. Nunca dependeu muito das outras pessoas. Tens a certeza que o namoro é a sério? Tens ressentimentos para com os teus irmãos, Joseph? Haverá algum mal-entendido que eu não tivesse ouvido falar? Eu tenho ambições de vir a ter terra própria, senhor meu pai. Tenho andado a ler coisas sobre o Oeste e há lá boa terra barata. John Wayne suspirou e cofiou a barba, torcendo-lhe a ponta para baixo. Profundo silêncio pairou sobre os dois homens. Estão a ocupar as terras -reafirmou teimosamente Joseph. Este século já começou há três anos. Se eu esperar, os terrenos bons poderão já estar tomados. Tenho fome de terra, meu pai – e os seus olhos tinham-se tornados febris ao lembrar essa fome. Estou a perceber – resmungou. Não é só um pouco de inquietação. Talvez mais tarde eu consiga descobrir onde tu estás. Depois com decisão: Chega-te a mim, Joseph. Põe a tua mão aqui. O meu pai fazia-o desta maneira. Um costume tão antigo não pode estar errado. Agora deixa a mão nesse sítio! Curvou a cabeça branca. Que a bênção de Deus e a minha também fiquem com esta criança. Que viva para ver a luz do Altíssimo. Que ame a vida. Deteve-se por um momento. Agora Joseph podes ir para o Oeste. Já nada te prende a mim. O Inverno depressa chegou com fortes neves e o ar a congelar em agulhas. A bênção recebida libertara-o. Os irmãos ficariam satisfeitos quando ele partisse. Fê-lo antes da Primavera chegar, e a relva estava verde nas colinas da Califórnia quando alcançou o seu destino”.

Joseph parte para a Califórnia, constrói a sua casa debaixo de um carvalho gigantesco que ele passa a ver como se nele habitasse a alma de seu pai. Algum tempo depois recebe uma carta do irmão Burton com a notícia da sua morte. Manda vir os seus irmãos que se instalam nas imediações, dando origem a uma comunidade familiar de que é o patriarca. Casa-se com Elisabeth, uma professora já instalada na região. Joseph interessa-se compulsivamente pela fecundidade da terra e dos animais, atribuindo-lhes um caráter quase divino, que respeita e teme, expresso numa clareira existente nas imediações, onde pastam touros e onde é visível toda a imponência de uma natureza exuberante, fértil, consumida e possuída pela virilidade. “Haviam chegado a uma clareira aberta, quase circular e plana como um charco. No centro ficava uma rocha tão grande como uma casa misteriosa e enorme. Parecia um altar que se tivesse fundido e rolado sobre si mesmo. Num dos lados da rocha havia uma pequena gruta negra e dela corria silenciosamente um fio de água. Ao lado da corrente estava um grande boi negro. Voltou a cabeça e fitou-os com os olhos orlados de vermelho. Bufou, pôs-se em pé baixando a cabeça em direcção aos homens”.

O romance desenrola-se em torno das relações entre os quatro irmãos, as suas famílias e as relações que cada um constrói: Joseph, o patriarca “casado” com a terra e a sua fecundidade, à imagem de seu pai: “ambos os rostos pareciam feitos do mesmo material, mais duro e durável que que a carne, uma substância semelhante à pedra, que não se altera com facilidade. Olhos da mesma cor que os do pai, mas orgulhosos e curiosos com a juventude. Deixou-se cair sobre a relva húmida, apoiando com força o rosto contra ela. Apertando-a com dedos convulsivos, arrancava-a e voltava a apertá-la. As suas coxas batiam com mais força no solo. A fúria abandonou-o e sentiu-se frio, desorientado e assustado. Que se passou comigo? Durante um momento a terra fora sua amante. Quedava-se a contemplar a forte e incessante sensualidade dos bois e a paciente e incansável fecundidade das vacas.”. Thomaz, tinha grandes semelhanças com Joseph e uma paixão pelos animais. “Ele próprio era demasiado animal para ser sentimental. Tinha pouco a dizer aos homens; sentia-se assustado e intrigado com coisas como negócios, festas actos religiosos e política”. Burton, estava destinado à vida religiosa, cujos valores dominam a sua vida e atividades. “Acautelava-se do demónio que via em quase todos os contactos humanos íntimos. Um homem forte no Senhor, chamara-lhe o pastor. Thomaz inclinara-se para a orelha do irmão Joseph e murmurara: Um homem fraco no estomago”. Benjamim, o mais novo, não tinha nada de comum com todos os outros: “…era um fardo para os irmãos. Dissoluto e independente, se lhe dessem hipóteses embebedava-se até ficar num romântico nevoeiro e passeava pelos campos a cantar gloriosamente. Tinha um ar tão jovem, indefeso e perdido neste mundo, que as mulheres tinham pena dele. Fazia tudo tão errado que toda a gente o queria ajudar. Era um homem feliz, e trazia felicidade e dor a todos que o conheciam”. Acaba por ser assassinado. “Porque bebia para roubar uma partícula de morte”.

“A Um Deus Desconhecido” é um romance de personagem, de família e de espaço físico (o homem e a terra são uma e mesma coisa e por ela Joseph dará a vida) em que JSt aborda uma série de questões intemporais da condição humana e da humanidade, nomeadamente: a vida e a morte em algumas das muitas crenças com que elas são vividas e abordadas, a fé e um certo paganismo mais ou menos ambíguo de que são exemplo o velho e majestoso carvalho debaixo do qual Joseph constrói a sua casa e que representa a alma e a figura de um pai protetor, assim como a clareira existente nas imediações e que também já referimos como símbolo da fertilidade da terra e da fecundidade animal. “Nunca aqui tinha vindo. Não me parece que goste deste lugar, isso posso garantir-te. Tem calma por um momento. Há aqui qualquer coisa. Isto é sagrado e …muito antigo. Antigo e …sagrado. Não tenhas medo. Aqui há qualquer coisa de forte, doce e boa. É algo como comida e água fresca. Por agora vamo-nos esquecer disto. Só talvez quando precisarmos voltaremos cá de novo …para nos alimentarmos”.   “Havia agora na floresta um rumor, não suave, mas forte e malicioso. A clareira era percorrida por uma vibração de horror. Toda a clareira estava viva com medo”.

O homem e a terra, são as ferramentas da tenacidade e do até heroísmo na luta do homem pelos seus ideais, ambições e realizações de que a conquista e ocupação do Oeste americano constitui ainda hoje o retrato mais fiel dessas qualidades no povo americano. Ainda o amor, o ódio e os conflitos individuais e sociais.

“A Um Deus Desconhecido” é ainda uma obra de contexto e dimensão bíblicas: “O nosso pai deu-me a bênção antes de eu vir para cá, uma bênção à moda antiga, acho que como aquelas que a Bíblia fala”. Joseph, qual Abrão que deixa a casa de seu pai em busca da terra prometida. Joseph qual José do Egipto que, sendo o preferido de seu pai, é despachado por seus irmãos e vendido como escravo e mais tarde, quando adotado pelo Faraó, perdoa os seus irmãos mandando-os vir para junto de si. Burton, o irmão de fortes, mas duvidosas, convicções e práticas religiosas que, para salvar Joseph do fogo eterno, corta as raízes do carvalho e parte. A árvore morre, fatalidade e a tragédia instalam-se na vida do irmão e na região. Elisabeth, a sua mulher, morre pouco tempo depois e a seca invade a terra de forma inexorável. “…já te vi várias vezes a fazer oferendas à árvore. Vi o paganismo crescer em ti e vim avisar-te. Agora vou afastar-me desse erro. Há qualquer coisa que não está bem. Não deixes que ela te domine. Olha para ela, Elisabeth! Parece-te que está tudo bem? Estás é cansado de excesso de trabalho. Por Deus, há qualquer mal naquela árvore. Não há nada por aqui que a matasse. Thomaz pegou numa enxada e cavou a terra mole junto da base do tronco. O irmão ajoelhou-se e viu um corte no tronco. Quem fez isto, vociferou irado? Thomaz riu-se brutalmente: Ora, foi o Burton que castrou a tua árvore. Esteve a ver se tirava o diabo dela. Os veios estão cortados. Não há nada a fazer, exceto tratar da saúde ao Burton”. Também o nome do irmão mais novo da família, Benjamim, é bíblico, tal como o de José, o patriarca, que na cultura bíblica significa Deus. Igualmente o binómio chave do romance, terra/chuva, tem nesta obra um papel crucial e decisivo como símbolo bíblico da fertilidade.

“A Um Deus Desconhecido” pode ainda ser transportado para os tempos de hoje, sendo essa uma das suas virtudes intemporais maiores: o seu sincronismo com duas realidades do nosso tempo: uma social e política na questão da representação dos eleitores nos eleitos e outra de similar conteúdo, embora psicanalítica: a projeção e a identificação. “A sua figura cresce até se tornar enorme, até ser maior que as montanhas, e a sua força parecer-se-á com o irresistível impulso do vento. Não se concebe conceber Joseph a morrer. Ele é eterno. O seu pai morreu e isso não foi bem morrer. Garanto-te que esse homem não é um homem a não ser que seja todos os homens. A força, a resistência, o longo e laborioso raciocínio de todos os homens, e também toda alegria e sofrimento. Ele é tudo isso, um repositório de um pedacinho de cada alma humana e mais que isso, um símbolo do espírito da terra. Para combater a terra, pensou no seu pai, na calma e paz, na força e eterna justiça de seu pai. Mas ao Joseph não conheço porque não conheci o seu pai”.

É hoje quase lugar-comum dizer-se que os problemas do país, quiçá da Europa, não são económicos, financeiros e demográficos, antes de elites e lideranças em quem possa ser possível a projeção do EU ideal que mobilize todos os EGOS na ambição “de todos os homens”. Que morram, mas isso não seja “bem morrer”, mas sobretudo vivam sendo “um pedacinho de cada alma humana” que representam e em que “A possessibilidade (poder) que o dominava transformou-se em paixão” não aconteça.

 

Outras obras de JS:

A Taça de Ouro, 1929;

Boémios Errantes, 1935;

Ratos e Homens, 1937;

As vinhas da Ira, 1939;

Lua no Ocaso, 1942;

A Pérola, 1947;

A Leste do Paraíso, 1952;

O Curto Reinado de Pepino IV, 1957;

O Inverno do nosso Descontentamento, 1961

A América e os Americanos, 1966.

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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