LETRAS @CORdadas – Hermann Hesse

por Miguel Alves | 2014.11.23 - 11:20

 

 

Hermann Hesse (1877 / 1962)

(Prémio Goethe e Prémio Nobel da literatura, ambos em 1946)

 

 

Hermann Hesse nasceu na Suábia, uma região administrativa da Baviera, cuja capital é Aubsburgo. Filho de missionários protestantes que exerceram a sua atividade na Índia, ele próprio estava destinado a essa missão, mas quando adolescente rompeu os laços com a sua família, emigrando para a Suíça em 1912. Aí trabalhou como livreiro e operário, acumulou uma vasta cultura autodidata e tendo resolvido depois dedicar-se à literatura.

A escrita de HH foi fortemente influenciada por duas correntes: A espiritualidade oriental resultante de uma longa viagem que levou a cabo pela Índia e a psicologia analítica cuja fonte teve origem na relação com um dos discípulos de Carl Gustav Yung que, a par de Albert Adler e Sigmund Freud, constituem o trio fundador da moderna psicologia, tendo os dois primeiros sido discípulos de Freud.

A Carl Yung*1, suíço, devem-se, em síntese, os conceitos de arquétipo, inconsciente coletivo, o complexo e a sincronicidade. Albert Adler, austríaco, é considerado o pai da psicologia individual, valorizou o papel da agressividade humana e separou-se de Freud por não aceitar a aquilo que considerava a excessiva importância da sexualidade no seu trabalho. Este último nasceu em Freiberg in Mahren, na altura território do Império Austro-húngaro, hoje Republica Checa. A ele se devem os conceitos de pré consciente e inconsciente que formulou naquilo que chamou a primeira tópica da sua teoria e que depois veio a reformular na segunda tópica com a teorização do conceito de estrutura psíquica e as suas três instâncias: O Id, o Ego e o Super Ego. Foi o fundador da psicanálise, movimento e técnica que está na base da grande maioria dos modelos psicoterapêuticos hoje utilizados na clínica, A par de Einstein e Marx, faz parte do trio dos homens mais notáveis do século XX, segundo alguns historiadores.

Vou hoje @CORdar uma das obras mais lidas de HH: “SIDDHARTHA”, 1922.

Siddhartha é uma espécie de epopeia esotérica, a que muitos não se coíbem de enquadrar no conjunto das obras e teorias da chamada “auto ajuda”, caraterísticas que HH recusa de si próprio (“Não me revejo propriamente como um ser espiritual. Considero-me pragmático em bastantes aspetos”). É muito mais que isso e, sendo uma obra pequena, trata-se de um texto relativamente difícil no sentido da captação da sua (nossa) racionalidade. Mesmo assim, HH faz um esforço de grande racionalismo*2 mesmo na parte final do livro. Para se assimilar melhor e captar as mensagens de que esta obra notável é portadora, concordando ou não com os fundamentos que apresentam e que uns conseguem ver e aceitar e outros não, convém fazer um passo prévio: antes de analisar o seu conteúdo e o percurso do seu personagem principal (Siddhartha), convém clarificar um conjunto de conceitos (valores) e termos próprios da cultura oriental e indiana, sobre os quais assenta o suporte da história e que aparecem ao longo do percurso narrativo deste personagem e, por outro lado, ajudam a entender melhor esta obra.

  1. Em primeiro lugar as CASTAS*3 da sociedade indiana. As castas são caraterísticas da sociedade hindu. O hinduísmo abrange não apenas a Índia mas também o Nepal e outras regiões do sub continente indiano. Apesar de a constituição indiana não aceitar nenhum tipo de descriminação com base na casta, elas persistem ainda hoje com grande intensidade sobretudo fora das grandes cidades. Casta partilha o mesmo radical latino de pureza/castidade (castus).

A origem das castas, sendo incerta no hinduísmo, terá tido origem em Brahma, a divindade criadora do universo. As castas indianas são as seguintes: os brâmanes, constituída por sacerdotes e letrados (filósofos e professores) nascidos da cabeça de Brahma; os xárias constituída por guerreiros, militares e governantes nascidos dos braços de Brahma; os vaixás constituída por comerciantes e agricultores nascidos das pernas de Brahma; os sudras constituída por servos, camponeses, artesãos e operários originados nos pés de Brahma. Abaixo de todos estes existiam os párias que incluem todos as marginalizados da sociedade e a quem Mahatma Gandhi chamou os “filhos de Deus.

Das castas superiores, as duas primeiras, uma tem sido dominante ao longo da história do país e dela têm saído quase todos os seus governantes: os Brâmanes. Siddhartha tem esta origem.

  1. BRAHMAN: É o espírito divino, o Absoluto. A origem e a raiz de toda a consciência.
  2. SAMANAS: São um conjunto de sábios com uma existência nómada e mendigos em termos de existência material. O objetivo e filosofia da vida destes homens é o tornar-se vazio, vazio de sede, de fome, de desejos, de tristeza, de alegria, distanciando-se e destruindo-se a si próprio, deixando de ser “um eu”.
  3. BUDA/GOTAMA (o Augusto): Símbolo da perfeição e da redenção pelo sofrimento.
  4. ÁTMAN: Significa alma, sopro vital, o mais elevado princípio do ser humano, o seu espírito individual. Em termos gerais, na filosofia oriental é considerada a ligação do espírito humano com a hierarquia cósmica. Em termos mais restritos do hinduísmo, Átman significa a alma individual, o verdadeiro eu, o caráter divino da alma humana.
  5. SÂNSCRITO: É uma das línguas das indo-europeias mais antigas e que tem como origem o mesmo tronco linguístico da maioria das línguas e idiomas europeus. É uma das línguas oficiais da Índia que tem utilização litúrgica no hinduísmo e no budismo. A sua importância no oriente é comparável ao latim e ao grego no ocidente.
  6. MANTRA: É um poema religioso, uma fórmula ritual e mística cantada pelos fiéis de certas correntes do hinduísmo e do budismo. Em termos esotéricos significa o controle da mente e é repetida para forçar a concentração e a meditação. Pode apresentar a forma de qualquer som, sílaba, palavra ou texto a que se atribua um poder específico.
  7. ÓM: É o mantra mais importante do hinduísmo e de outras religiões. Significa o Absoluto e a semente de todos os mantras
  8. METEMPSICOSE: É uma doutrina filosófica hindu que admite a transmigração da alma de um corpo para outro. Foi trazida do hinduísmo para o Egipto de onde Pitágoras a importou para a Grécia, tendo sido ensinada pelos seus discípulos.

A metempsicose hindu está baseada em dois conceitos fundamentais: SAMSARA que considera a realidade como um devir e evoluir fenomenológico; KARMA que diz respeito ao sentido, à ligação e ás conexões entre os acontecimentos. O mundo constituído por estes conceitos é ilusório e fonte de todo o sofrimento. No hinduísmo, a libertação deste ciclo de sofrimento é considerada o objetivo maior e está consubstanciado na absorção pelo Absoluto (nirvana).

Siddhartha é um percurso existencial de um jovem brâmane, esbelto, talentoso e com um futuro promissor como sacerdote e sábio. Um futuro príncipe. Abandona a vida e o estatuto que esta lhe proporcionava, os amigos, os valores e a religião em que fora criado e educado para procurar uma nova existência.

“As sombras do mangal corriam pelos seus olhos negros durante as brincadeiras infantis, durante as canções de sua mãe, durante os sacrifícios sagrados, durante os ensinamentos de seu pai, o erudito, durante os discursos dos sábios. O coração de seu pai alegrava-se com o filho, inteligente e sedento de sabedoria; via crescer nele um grande sábio e sacerdote, um príncipe entre os brâmanes. O peito de sua mãe sofria ao olhar para ele, ao vê-lo caminhar, sentar-se perto dela e levantar-se; Siddhartha, o forte, o belo, aquele que caminha com as pernas elegantes, aquele que saúda com delicadeza. O coração das jovens filhas dos brâmanes agitava-se de amor quando Siddhartha passava pelas ruas da cidade, com a sua fronte luminosa, com o seu olhar real, com a sua anca delgada. Siddhartha começara a alimentar em si a infelicidade. Começara a sentir que o amor de seu pai, o amor de sua mãe e o amor de seu amigo Govinda*4 não o poderiam tornar feliz para sempre, não poderiam apaziguá-lo, saciá-lo, satisfazê-lo, era necessário encontrar a Fonte Primordial no fundo do EU, possuí-la em nós próprios. Tudo o resto era demanda, era desvio, era erro. E preferes morrer a obedecer a teu pai? Então o pai compreendeu que Siddhartha já não se encontrava junto a ele, na sua terra, que já o tinha deixado. Tu queres, disse ele, ir para a floresta e ser um samana. Se encontrares a bem-aventurança na floresta, volta e ensina-me a bem-aventurança. Se encontrares a desilusão então volta e voltaremos a oferecer sacrifícios aos deuses, juntos”.

Com os samanas aprende a jejuar com o objetivo do vazio e exterminação de si mesmo. Transfere a sua alma para as garças e vive com as garças, para os chacais mortos e vivencia a sua própria decomposição.

“Agora vestia apenas uma manta e uma capa simples cor da terra. Comia apenas uma vez por dia e nada que fosse cozinhado. O seu olhar era gelado quando observava as mulheres. A sua boca enchia-se de desdém, quando atravessa a cidade cheia de pessoas bem vestidas. Siddhartha tinha um único objetivo: ficar vazio, vazio de sede, vazio de desejo, vazio de sonho, vazio de alegria e de tristeza. Deixar-se morrer, não ser mais EU. Encontrar a paz de um coração vazio, descobrir o milagre do pensamento puro. Quando a totalidade do EU estiver dominado e morto, quando todos os vícios e inclinações desaparecerem do coração, então despertará o mais profundo do Ser, aquilo que já não é o Eu, o grande segredo. Gostaríamos de saber onde se encontra o Buda, o Venerável, porque somos dois samanas da floresta e viemos para o vermos, o Perfeito, e para recebermos os ensinamentos de sua boca. Falas com inteligência, disse o Venerável. Acautela-te contra o excesso de inteligência. Vi um homem, pensou Siddhartha, um único, perante quem tive de baixar os olhos. Não voltarei a baixar os olhos perante nenhum outro, nunca mais. Nenhuma outra doutrina me seduzirá uma vez que a doutrina deste homem não o conseguiu”.

Chegado a esta etapa do seu percurso, depara-se com os valores e os códigos, as virtudes e os vícios que suportam as atitudes e os comportamentos da vida social vivida pelo cidadão comum. Descobriu que também ele “pertencia a uma condição que era a da sua pátria”. É neste período que revela a estrutura de personalidade de que é detentor.

“O EU de que eu queria libertar-me, que eu queria vencer. Mas não fui capaz de o vencer, apenas de o enganar, de fugir dele. E sobre nada do mundo sei tão pouco como sobre mim próprio. Tinha medo de mim, estava a fugir de mim. Perdi-me de mim mesmo. Não quero que Siddhartha me volte a escapar. Mas agora os seus olhos libertos demoravam-se sobre todas as coisas, via e reconhecia o mundo visível, procurava um lar neste mundo. O mundo era belo, a lua e as constelações eram belas. Era belo e agradável andar assim pelo mundo. O sol queimava a pele. Os dias e as noites eram curtos. Tudo existia antes e ele nunca o vira. Ele não estivera presente. Os pensamentos e os sentidos eram coisas bonitas. Era preciso escutar em ambos a voz secreta da interioridade. Kamala, és a primeira mulher com a qual Siddhartha fala sem baixar os olhos. Nunca mais baixarei os meus olhos quando encontrar uma mulher. Kamaswami é o mercador mais rico da cidade. Torna-te seu amigo, ele é muito poderoso. Mas não sejas demasiado modesto”.

Agora, Siddhartha revela-se falho de caráter e ostensivo nas suas componentes sociopatas. Não processa os afetos, apresenta um auto conceito elevado, sedutor e manipulador sem escrúpulos, frio e distante na consciência, mas encantador a aparentemente empático na superfície, fatores que o levam à centralização do Ego e subalternização da realidade e do outro relativamente aos seus exclusivos interesses.

“Então o rosto sorridente da jovem perdeu todo o encanto, ele viu apenas o olhar húmido de uma Fêmea ardente. Siddhartha tem um objetivo, uma intenção: Siddhartha nada faz, espera, pensa, jejua, mas passa pelas coisas do mundo como a água passa pelas pedras, sem fazer nada sem se mexer. Ele é atraído e deixa-se cair. O seu objetivo arrasta-o, pois ele não admite na sua alma nada que pudesse interpor-se entre ele e o seu objetivo. É a isto que os ingénuos chamam encantamento, pensando que é obra do demónio. Siddhartha é um homem belo, o seu olhar agrada ás mulheres, a sorte vai ao seu encontro. Que assim seja minha professora. Que o meu olhar te agrade sempre, que a sorte parta sempre de ti para vir ao meu encontro. Nunca se colocou em posição subalterna em relação ao mercador, obrigava-o a tratá-lo como seu igual, até como mais do que sendo igual. Siddhartha ultrapassava o mercador em calma e serenidade, bem como na arte de escutar e conquistar a confiança de estranhos. Acaba com a repreensão, querido amigo! Repreensões nunca conseguiriam nada. Passou horas maravilhosas com a bela e experiente artista, tornou-se seu aluno, seu amante, seu amigo. Passou depois a noite em sua casa, com dançarinas e vinho, fingindo superioridade em relação aos seus companheiros. …viajei para meu prazer. Para quê, senão para isso. As pessoas gostavam dele, mas ninguém lhe era próximo. És o melhor amante que já conheci. Continuas a não amar ninguém. Sou como tu. Também tu não amas. Talvez as pessoas como nós não possam amar”.

Lentamente, a idade começa a produzir os seus efeitos. Não na estrutura em si, mas através da intensidade da sua expressão no real psicológico e social.

“Lentamente, a doença da alma dos ricos dominava-o. O mundo tinha-o apanhado, o prazer, ambição, a indolência e, por fim, também o defeito que ele sempre mais desprezara e escarnecera: a cobiça. …dirigiu-se para junto do Perfeito. Sentia que tinha desperdiçado inutilmente a sua vida. Há quanto tempo que não escutava esta voz, há quanto tempo que não alcançava nada de elevado. Haveria alguma imundice com que não se tivesse conspurcado, um pecado ou uma loucura que não tivesse cometido, alguma doença da alma que não tivesse infligido a si mesmo? Seria necessário viver para tal? Não, não era necessário. Este jogo chama-se SANSARA, um jogo para crianças, agradável, mas para sempre? Este ciclo não estaria já, para ele, esgotado e terminado? Kamala não o procurou. Quando soube que tinha desaparecido não se surpreendeu. Não era um vagabundo, um peregrino?”

Confrontado com aqueles que havia abandonado, a sua essência e os seus valores, com o peso da vida e da consciência (“…ainda não chegara aos cinquenta anos, já tinha descoberto alguns cabelos brancos”), com as suas raízes e as obrigações morais e cívicas do seu estatuto social, Siddhartha questiona a sua vida e o seu destino.

“…apenas lhe restava o profundo e doloroso desejo de deitar fora este sonho desordenado, de pôr fim a esta vida miserável e infame. Então ouviu de regiões distantes de sua alma, do passado da sua vida cansada, um som: o OM sagrado que tanto podia significar “PERFEITO” como “COMPLETO”. E tomou consciência de Bramam, tomou consciência da indestrutibilidade da vida”.

À beira do rio volta a encontrar o barqueiro Vasudeva*5 que o ouve com muita atenção (“sabia escutar como poucos, era capaz de sentir no seu coração a vida do outro. Mostrar a sua ferida a este ouvinte era o mesmo que banhá-la no rio, até ela arrefecer e ficar una com o rio. …absorvia a sua confissão como uma arvora absorve a chuva”). Aí volta a encontrar Kamala com uma criança de 11 anos que viria a saber ser seu filho. Tenta afeiçoar-se a ele e projeta a sua vida ao seu lado para impedir que ele venha a repetir os seus erros, mas o rapaz rejeita-o. “Não se tornará luxuriosos, não se perderá no prazer e no poder, não irá repetir os serros do seu pai? Não vês o que o teu filho te quer dizer? Não vês que ele não quer que tu o sigas? A ferida queimou-o ainda durante muito tempo”.

Pouco depois chega à beira do rio um grupo de monges entre os quais o seu velho amigo Govinda com quem ingressara nos Samanas. Govinda confunde-o com o velho barqueiro Vasudeva e quando mutuamente se redescobrem, dá-se o confronto das suas duas existências.

Siddhartha:

“Podemos partilhar conhecimentos, mas não a sabedoria. Para cada verdade, o seu contrário. Uma verdade apenas se deixar exprimir e envolver em palavras quando é parcial. Tudo é parcial, tudo é metade, a tudo falta totalidade, integridade, unidade. Uma pessoa nunca é completamente santa ou completamente pecadora. O tempo não existe. É aparente a diferença entre o mundo e a eternidade, entre o sofrimento e a bem-aventurança, entre o bem e o mal. Por isso tudo o que existe me parece bom: a morte e a vida, o pecado e a santidade, a sensatez e a loucura, tudo é necessário, tudo necessita apenas do meu acordo, da minha boa vontade, da minha afectuosa compreensão. As palavras não fazem bem ao sentido oculto, tudo o que é igual torna-se um pouco diferente quando é dito em voz alta, um pouco falseado, um pouco louco. Não vejo grande diferença entre ideias e palavras. Não tenho grande opinião das ideias. Prefiro as coisas. Tudo pronuncia o OM à sua maneira, cada uma delas é BRAMAN. Não aprecio doutrinas, não têm dureza ou moleza, não têm cores, não têm arestas, não têm cheiro, não têm gosto, não têm senão palavras. Considero mais importante amar o mundo, não o desprezar, não o odiar nem me odiar, observá-lo, a mim e a todos os seres com amor, admiração e respeito. Também no teu grande mestre prefiro as coisas ás palavras, a sua ação e vida são mais importantes que o seu discurso, os gestos das suas mãos são mais importantes que as suas ideias. Não vejo a sua grandeza no falar ou no pensar, apenas no agir, no viver”.

Govinda:

“O futuro Buda está já aqui e agora, no pecador, o futuro está já todo lá tens dentro dele, dentro de ti, em todos os que se transformam, um Buda oculto para venerar. Foi a isso que ele, o SUBLIME, chamou ilusão. Proibia-nos de acorrentarmos o nosso coração ao amor terreno. Deixou de ver o rosto do seu amigo Siddhartha, via em vez dele muitos rostos, muitos, uma grande quantidade, um fluxo contínuo de rostos, centenas, milhares. Viu o rosto de um peixe, o rosto de um recém-nascido, um rosto de um assassino, de um criminoso, viu cadáveres, viu cabeças de animais, viu todas as formas e rostos. Cada um deles ansiava por morrer, era uma confissão dolorosa da transitoriedade da vida, mas nenhuma morria, apenas se transformava, renascia, recebia um rosto novo sem que houvesse um intervalo entre um rosto e outro. E assim Govinda viu Siddhartha: o sorriso da máscara, o sorriso da unidade, sobre o fluxo das formas, sorriso de multiplicidade sobre os milhares de nascimentos e mortes. Palco de todas as formas, tudo o que era presente e futuro. A face inalterada onde se haviam fechado sob a sua superfície, as profundezas da multiplicidade”.

“…pertencia a uma condição que era a da sua pátria”. Esta condição de pertença única não está hoje presente em Portugal e nos portugueses. A fratura entre os cidadãos e as elites do país é hoje mais que preocupante, quando se constata e verifica a forma como os seus recursos foram geridos e quão distantes os interesses de ambos estiveram nessa gestão. Se as elites do país são um dos seus problemas maiores desde o século XIV, a análise dos tempos atuais legitima sérias dúvidas quanto ao nosso futuro coletivo.

Relembrando Carl Yung, o inconsciente coletivo é a constelação de mitos, símbolos, sentimentos e imagens agregados a sentimentos profundos, nacionais ou universais, e sedimentados na forma arquétipos. O nosso inconsciente coletivo é hoje uma memória amarga do país que poderíamos ser e do arquétipo poderoso que já foi a sua forma.

O desenvolvimento do projeto europeu e o aprofundamento da nossa integração nesta União Europeia, aliados à diluição progressiva dos conceitos de pátria e estado nação, poderão ser o fator novo que deverá inverter esta “aparente fatalidade”. A bem da Nação!

 

*1. “Os arquétipos e o inconsciente coletivo”, 1933.

*2. Racionalismo: É a base da filosofia. Atribui à razão o caminho principal na busca da verdade. Nada existe sem uma causa inteligível, mesmo que ela não possa ser empiricamente demonstrada. Baseado na busca da certeza através da demonstração e da análise. Está na origem do pensamento liberal. Grandes nomes do racionalismo: René Descartes, Baruch Spinosa, Friedrich Hegel e Gottfried Leibnitz.

*3. Sobre as CASTAS, talvez seja curioso referir que há pensadores (Daniélou, A.) que afirmam serem as castas um sistema social e culturalmente válido por permitir manter e preservar certas subculturas e profissões transmitidas geracionalmente e que o progresso e o desenvolvimento tende a diluir e neutralizar.

*4. Govinda: Figura mitológica central do hinduísmo.

*5. Vasudeva: Poeta épico indiano.

 

Outras obras de HH:

 

Canções românticas, 1898;

Peter Carmenzind, 1903;

  1. Francisco de Assis, bibliografia, 1904;

Debaixo das rodas, 1905; O último verão, 1920;

O lobo das estepes, 1927;

Narciso e Goldmund, 1930;

O jogo das contas de vidro, 1943;

Sobra a guerra e a paz, 1946;

Viagem ao oriente, 1958.

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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