LETRAS @CORdadas – (Günter Grass – 1927/2015)

por Miguel Alves | 2015.04.26 - 11:49

 

 

 

(Günter Grass – 1927/2015)

 

Prémio do Grupo 47 em 1958

Prémio Georg Brüchner em 1965

Prémio Príncipe das Astúrias em 1999

Prémio Nobel da Literatura em 1999

 

Günter Grass nasceu em Danzig, na altura cidade alemã, hoje Gdánsk, cidade portuária do norte da Polónia. Faleceu este mês em Lübeck, no norte da Alemanha, cidade onde residia.

Foi um dos maiores escritores de língua alemã do século XX, diverso e rico na sua produção artística: romancista, poeta, dramaturgo, pintor, escultor, gravador e ilustrador.

Aos dezassete anos foi convocado para servir nas Waffen SS, força de elite ideológica e militar do III Reich comandada por Himmler. Nessa sequência foi ferido em combate e preso na então Checoslováquia. Libertado posteriormente, veio a ter diversas atividades entre as quais se incluem a de aprendiz de pedreiro, trabalhador agrícola e mineiro.

Posteriormente viria a estudar desenho e escultura na Academia de Artes de Düsseldorf e de 1953 a 1955 frequentou a Academia de Artes de Berlim. Em 1956 muda-se para Paris onde passou a dedicar-se em exclusivo á literatura.

GG é considerado a consciência moral da Alemanha pós II guerra mundial. Ativista público e político como homem de esquerda, gerou em torno da sua atividade pública e no trabalho literário enormes polémicas, sendo considerado o renovador da literatura alemã no pós II guerra mundial.

A sua escrita é caraterizada pela sátira, pela ironia e não poucas vezes pelo grotesco num pano de fundo estabilizado: o regime nazi e o milagre económico da reconstrução alemã pós Hitler, demolindo um e desmascarando o segundo.

Já no final da sua vida e obra, surpreendeu o mundo e o universo literário com um livro autobiográfico (Descascando a Cebola, 2006), onde confessa ter sido membro da Waffen SS (“No mesmo instante em que invoco o garoto de treze anos que eu era na época e me sinto tentado a julgá-lo, ele escapa-me. Ele não quer ser julgado. Foge para o colo da mãe de diz: Eu era apenas um garoto, apenas um garoto”).

Este facto acabou por ficar impresso em toda a sua vida e obra, tendo gerado enormes controvérsias no mundo literário. A questão foi saber-se se tal circunstância diminuía ou não o seu valor humano, ético e literário e se o facto de tal revelação ter sido tão tardia e feita apenas no final da sua vida, retirava ou não valor e dignidade à sua produção artística.

Este drama humano e psicológico de culpa que GG viveu durante a maior parte da sua vida, já havia emergido em outras obras suas “Não sou responsável pelas coisas que fiz quando era criança” – Óscar em “O Tambor de Lata”, 1959). Também em “Maus presságios”, 1992, GG aborda de novo o seu drama existencial: “Não era necessário remexer no passado porque as poucas aventuras à margem traziam lembranças inexactas ou não ordenadas. E o facto de ele, aos quatorze anos e meio ter sido soldado e ela aos dezassete membro da organização das juventudes comunistas era perdoado a ambos, como defeitos congénitos da sua geração; não era preciso descer a nenhum abismo; até porque ele, nos momentos em que duvidava de si próprio dizia que tinha que lutar continuamente contra o jovem hitleriano que tinha dentro de si”.

Pode referir-se nesta matéria a posição do nosso Nobel da Literatura, José Saramago. Saramago diz em síntese que “Nunca separei o escritor da pessoa que o escritor é”. Explicita depois que após a morte, podemos julgar todo o ser humano no seu perfil e circunstâncias globais, o que foi e o que fez, mas em vida não devemos ignorar a sua obra.

Em síntese e no que a esta temática da vida e obra de GG diz respeito, a avaliação global que ele próprio faz dela poderá ser aceite e compreendida: “Acreditava que a minha obra como escritor e cidadão era suficiente. Sempre senti vontade de escrever sobre as minhas experiências, mas num contexto adequado. Escrevo porque é preciso deitar isto tudo cá para fora”.

Quero hoje @CORdar uma obra de GG, publicada em 1961: “O Gato e o Rato”. É um dos livros onde o atrás referido complexo de culpa e a angústia existencial do autor emergem em forma de uma metáfora sarcástica: uma metáfora de expiação da Alemanha e de si próprio.

 

O pano de fundo é uma geração de rapazes que trocam experiências e levam a cabo rituais como instrumentos de passagem para a idade adulta nas organizações da sociedade do seu tempo, sobretudo na juventude hitleriana.

“Dispunha sempre de um público. Os meninos de coro são os piores de todos os meninos. E Mahlke a rezar era qualquer coisa! Um olhar de vitelo, o olho cada vez mais vítreo. A boca azeda a movimentar-se sem pontos nem vírgulas. Os peixes atirados para cima da areia têm essa maneira ritmada de aspirar o ar. Esta imagem serve para provar a falta de vergonha com que Mahlke rezava. Mahlke pôs-se a dançar como uma doida picada da mosca. Pedia-se instantemente a todos os alunos para guardarem um silêncio viril e resgatar, assim, para bem da escola, um comportamento indigno. Mahlke tinha a sua data referência: antes de nadar na piscina dos adultos e depois de nadar na piscina dos adultos. Se não comprometermos a nossa vida, não a ganharemos. Adquirir experiência e permanecer puro, virtude viril”.

 

Este pano de fundo tem também uma marca acentuadamente masculina, expressa em sinais, desejos e sustos e até solidariedades ambíguas na busca incessante de um lugar apaziguador face às impossibilidades que pressentem dentro de si próprios e num quotidiano que os fere sem serem capazes de descobrir a sua origem.

“A maça de Adão de Mahlke era digna de nota; grande, sempre em movimento, projetava uma sombra. Entre mim e Mahlke, o gato preto do guarda do estádio agachava-se para preparar o salto. Formávamos um triângulo. O meu dente reduzira-se ao silêncio, deixara de existir: a maçã de Mahlke metamorfoseara-se, para o gato, num rato. O mocho branco tinha o mesmo risco ao meio e mostrava uma expressão idêntica à de Mahlke, mística, dolorosa e docemente resoluta, como que devastada por uma violenta dor de dentes interior. Não gozava de grande importância esse aluno do liceu. E a sua alma nunca foi apresentada. Fez tudo. Também para desviar os olhares da maçã-de-adão. Olhámo-nos e sem uma palavra nos compreendemos; esse silêncio prenhe de sentido trouxa à baila uma frase:          Está claro, só o Mahlke, quem havia de ser? Um tipo valente. Só eu permanecia embezerrado e nunca esqueci até hoje a minha timidez e a ironia que ela me inspira. A separação entre nós começou porque caminhávamos”.

 

Também por tudo isto, este livro está carregado de uma luta incessante entre enigmas mal descobertos e menos identificados, todos carregados de dificuldades identitárias e sofrimento: o forte e o fraco, o perseguido e o perseguidor, o destruído e o destruidor, o gato e o rato, este último que dá o nome á obra.

“Quanto a mim que meti o teu rato debaixo do focinho daquele gato e de todos os gatos, tenho uma absoluta necessidade de escrever. Mesmo que fossemos os dois seres imaginários, teria de o fazer. No entanto, nós deixáramos de existir. Ao pé dele éramos apenas rapazinhos enregelados, com o nariz a pingar, desconcertados, nitidamente postos á margem; e as raparigas durante o regresso trataram-nos todo o caminho por cima do ombro. Porque não posso nem quero acreditar que tivesses alguma vez feito fosse o que fosse em público. E ali havia gato. Nunca se vêm as coisas até ao fundo. Sei o que é o silêncio. O silêncio faz-se quando as gaivotas mudam de rumo. Ma o maior silêncio foi o de Joaquim Mahlke quando já não pode responder ao meu alarido. E quando me encontrei na tua frente, a respirar precipitadamente, consciente do gato empalhado na vitrina atrás de mim, mal abriste os olhos”.

                                                                          

GG acaba este livro escrevendo:

“Em outubro de 49 tomei o comboio de Ratisbona para ir à reunião dos sobreviventes que, como tu, ganharam a Cruz de Ferro. Não me deixaram entrar na sala. Lá dentro uma orquestra do exército federal ora tocava ora descansava. Por um alferes que dirigia o serviço de ordem mandei-te chamar durante um intervalo, do estrado onde se encontrava a música: Chamam o sargento Mahlke á porta de entrada! – Mas tu não quiseste ressurgir”.

A esta negação ao encontro de GG, (“eu próprio, o grande hesitante”), com todos os seus fantasmas, pelo ressurgir de todo o seu passado que esse encontro poderia produzir, como se uma “panela cheia de repolhos fervesse a fogo lento nas suas entranhas”, podemos responder nós com alguma segurança, tolerância, compreensão, até afeto relativamente a ele e face à sua obra: “Neste tempo em que tudo mais ou menos anda fora dos eixos, quem se atreve a ser juiz?”

Dito assim também por ele neste livro, importa lembrar ainda que nesta matéria não há nenhuma “ressurreição grandiosa”.

Finalmente, quatro caraterísticas para a Alemanha Imperial que podemos extrair desta escrita de GG, qual gato atrás do gato: “É decerto agradável executar habilidades no papel; Sindicato da iniciativa; A águia, símbolo de soberania; E também ali não se puseram a apregoar a sua história”.

PORQUE: “De ti só e das tuas ações, Aprenda a renunciar Mahlke”.

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Outras obras de GG

Trilogia de Danzig:

O Tambor de Lata – 1959

O Gato e o Rato – 1961

Anos de Cão – 1963

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A Ratazana – 1986

Diário de um Caracol – 1972

A passo de Caranguejo – 2002

Descascando a Cebola – 2006

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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