LETRAS @CORdadas – Émile Zola

por Miguel Alves | 2015.02.23 - 22:28

 

 

 

Émile Zola (1840 – 1902)

 

 

 

Émile Édouard Charles Antoine Zola nasceu em Paris. Filho de um engenheiro italiano e mãe francesa, cresceu em Aix-en-Provence, tendo regressado a Paris aos dezoito anos para estudar.

É um dos “grandes” homens de letras de França e da Humanidade. Idealizou, lançou, expandiu e instalou na literatura universal, tornando-se o seu expoente maior, uma corrente importante conhecida como o naturalismo*1. “O romance experimental” (1880) foi o seu manifesto literário que lançou este movimento. Este percurso criativo, teve o seu passo primeiro e experimental em “Thérèse Raquin” (1867) “Um grande estudo fisiológico e psicológico”, como lhe chamou. Nele, EZ articula e põe em interação e confronto três doutrinas que começavam a ser discutidas e dominantes no seu tempo: o darwinismo, o evolucionismo e o determinismo científico.

A produção escrita de EZ é gigantesca em termos quantitativos, notabilíssima em termos literários, enorme nas áreas sociais e humanas envolvidas e diversa na sua matriz conceptual e artística. Abrangeu, maioritariamente, o romance, mas também a poesia, o teatro, obras críticas e duas séries com três obras cada: a série dos quatro evangelhos e a série as três cidades. Dentro do romance, a tarefa mais grandiosa de EZ, escalonada por quase um quarto de século, foi “Os Rougon Macquart – histórica natural e social duma família sob o Segundo Império”.

EZ foi um cidadão profundamente empenhado social e politicamente num século fascinante e decisivo da Europa e do mundo: o século XIX. O caso mais marcante desse seu empenhamento social e político ocorreu com o famoso “affaire Dreyfus” e do seu violento manifesto publicado no jornal L´Aurore: “J´accuse”, uma carta dirigida ao Presidente da República (Félix Faure). O caráter incisivo e emocional desta carta foi tão intenso que levou à revisão do processo do capitão Alfred Dreyfus e à sua absolvição em 1906. Dreyfus havia sido acusado de alta traição por espionagem a favor da Prússia pelo Estado-maior num vasto complot de contornos anti semitas, já que Dreyfus era oriundo de uma família israelita de Moulhouse. Esse processo pôs a nu a miséria moral da casta dominante e as paixões, ódios, intrigas e golpes palacianos que gerou, explicam, em parte, a derrocada da França em 1870. Por este libelo acusatório, EZ viria a ser processado por difamação e condenado a um ano de prisão. Sabendo disso, exilou-se em Inglaterra de onde voltaria quando o ciclo político que o condenara já havia mudado. Recusou o indulto concedido e exigiu ser ilibado em julgamento. Tal não viria a acontecer. A França não queria reviver esses tempos, por força da inconstância que sempre carateriza os ciclos políticos. Na sua sequência publicou uma obra onde todo este polémico e apaixonante processo é relatado: “L vérité en marche”.

Clemenceau, primeiro senador e depois presidente do Conselho de Ministros, havia de afirmar mais tarde sobre este caso: “Encontram-se homens para resistir aos mais poderosos dos reis e recusarem inclinar-se perante eles. Encontram-se poucos homens para resistir às multidões, para se erguerem sozinhos contra as massas desorientadas e capazes, muitas vezes, do maior excesso de furor, para defrontar, sem armas, de braços cruzados, cóleras implacáveis, para ousar, quando lhes exigem um sim, levantar a cabeça e dizer não. Eis o que fez Zola. Vi-o de perto nas horas lamentáveis, acompanhei-o nas suas fugas abomináveis, à saída das sessões do tribunal, sob as pedradas, sob os apupos, sob os gritos de morte. Estava lá quando foi condenado – éramos doze e, confesso, não esperava um semelhante tumultuar de ódio. Se Zola tivesse sido absolvido, nem um de nós teria saído vivo. Eis o que fez esse homem: arrostou com o seu tempo, arrostou com o seu pais, arrostou com o seu governo e teria arrostado com a humanidade inteira, pela justiça e pela verdade. Pois bem, isto não é um acto comum na história de nenhum povo”.

Os seus inimigos nunca lhe perdoaram, estando historicamente demonstrado que EZ morreu a 29 de Setembro de 1902 assassinado com monóxido de carbono oriundo da chaminé da sua própria casa, na sequência de trabalhos de reparação havidos no prédio. O senhor Hacquin que conhecia o mestre-de-obras, contou que o mesmo, por remorso e necessidade de confissão lhe confidenciou: “vou dizer-lhe como morreu Zola; tenho confiança em si, e aliás vai dar-se a prescrição. Zola foi asfixiado voluntariamente. Fomos nós que tapámos a chaminé do seu apartamento. Numa casa vizinha havia trabalhos de reparação de tetos e das chaminés. Aproveitámos isso em consequência do vai e vem no prédio para descobria a chaminé de Zola e entupi-la. Desentupimo-la no dia seguinte muito cedo. Sabe o resto”.

Os ódios contra si nem com a sua morte se julgaram saciados. Os restos mortais de EZ encontram-se no panteão nacional de França desde 1908. No dia da sua transladação, o Comandante Alfred Dreyfus ia no seu cortejo, tendo sido alvejado por um fanático nacionalista e anti-semita que o feriu num braço.

Não foram sós os seus adversários que o combateram. A sua figura e obra melindrou os seus próprios colegas do mundo das letras, alguns dos quais seus amigos. O “manifesto dos cinco” (P. Bonnetain, G. Guiches, P. Margueritte, J.H. Rosnay e L. Descaves) é disso um exemplo. Após a publicação de “Germinal” sobre o operariado mineiro, EZ retratou em “L´Oeuvre” o mundo das artes. Publicado este, começou a preparar o “La Terre” para fazer do camponês o herói que já fizera do operário em “Germinal”. Ao fazê-lo, EZ acabou com a lenda da paz celeste e virtudes humanas do mundo rural e dos aldeões. O mundo rural era constituído por senhores e quase escravos, um mundo que passava ao lado do idealismo que dele fazia o velho regime e a sociedade burguesa em emergência. O livro provocou também uma verdadeira explosão no erudito mundo das letras. Aquele grupo de jovens literatos aproxima-se de Daudet e Goncourt e publica uma carta de protesto no Fígaro onde marginalizam EZ com sarcasmos e acusações (“Manifeste des cinq contre La Terre”), fazendo dessa publicação um acontecimento literário. Mesmo assim e passado algum tempo, lançam uma revista literária para nela puderem publicar os seus trabalhos e fazer a apologia do naturalismo para tentarem tê-lo do seu lado. Sendo EZ a sua figura maior, pensaram nele para a dirigir e contando com a proteção da fortuna de que EZ já era detentor. Concordando no início, EZ acabou por alhear-se do projeto o que provocou a vaidade ofendida dos colegas. Acusam-no ferozmente de deserção e abandono, e injuriam-no. “La Terre” era “fruto da repressão do autor, uma colectânea de escatologia, uma violenta preocupação de obscenidades”. O próprio Anatole France embarca neste manifesto: “O 9 do Termidor que derrotou a tirania do senhor Zola foi obra dos cinco” O Manifesto dos cinco parecia ser um protesto da juventude contra uma literatura sem nobreza. Porém, os poucos sobreviventes dos cinco tiveram que segui-la para poderem triunfar. Todos exceto o primeiro se retrataram mais tarde perante EZ protestando a sua grande admiração por ele. Daudet desculpar-se-ia dizendo não ter conhecido previamente o manifesto. EZ respondeu com elegância que nunca suspeitara dele.

A fortíssima estrutura moral de EZ situa-se na sua profunda capacidade de desvendar a realidade, a verdade e a mentira, a heroicidade e o erro na condição humana em vez de os esconder ou alimentar com artifícios de qualquer tipo. Na sua obra, EZ sacrifica tudo à realidade humana, da mais visível à mais subtil e oculta. Não foi um escritor inventivo, mas um trabalhador da lógica natural das coisas. Dizia de si próprio que só quando adivinhava o que não via começava nele o talento.

 

“Fechem as tabernas, abram escolas” – Émile Zola

“Sempre que se abre uma escola, fecha-se uma prisão” –  Vitor Hugo

 

Toda a obra de EZ é um tratado circunstanciado e pleno de minúcias do meio social, dos lugares e das pessoas que estudou detalhadamente para sobre elas escrever numa prosa de absoluto rigor e trespassada por uma estrutura moral de inexcedível exigência. Como se sempre lá tivesse vivido e sempre as tivesse conhecido. EZ é de um rigor extremo consigo próprio e relativamente ao que almeja fazer. A EZ interessava de igual forma o descer ao fundo das minas, como a frequência dos meios elegantes onde um restrito clube gastava o dinheiro da nação. EZ é o turista da miséria social (Nana) e económica (Germinal), do snobismo cabotino dos salões na Paris aristocrática (A Derrocada e Sua Excelência Eugénio Rougon) e da emergência da burguesia portador de uma dúplice identidade original: os resquícios da antiga ordem e o novo esplendor do dinheiro (Pot Bouille – Pote de carvão e o Ventre de Paris).

Quero hoje @CORdar duas das mais notáveis obras de EZ: uma, a mais marcante do naturalismo zooliano (Germinal, 1885, Guimarães e Cª, 1931). Retrata as condições de vida da atividade mineira no norte de França, a exploração económica, social e pessoal da imensa massa operária dessa indústria, bem como o início da sua organização sindical e operária e as contradições e diferenças entre as correntes políticas que as conduziam: os marxistas e os anarquistas.

A outra diz respeito ao ciclo histórico e político que marcou o tempo de EZ e até o futuro da nossa Europa de hoje (La Débacle, 1892, G. Charpentier et E. Fasquelle, Editeurs, 1892). É um romance histórico que navega nas águas da decadência do Segundo Império e relata o desmoronar de uma sociedade corrupta, nascida, desenvolvida e em derrocada à sombra dele e com ele. Acaba na derrota e submissão humilhantes de Luis Bonaparte, Napoleão III, às mãos do Chanceler do Império Prussiano, Otto von Bismark na batalha de Sédan que pôs fim á guerra franco prussiana no ano de 1870. Nasceu aí a Alemanha de hoje.

Para escrever “Germinal”, EZ trabalhou dois meses numa mina de carvão onde viveu nas suas casas, bebeu nas suas tabernas e sentiu na pele o esforço para carregar o vagão de carvão, a humidade e calor do ambiente, a escassez de espaço para se movimentar, trabalhando muitas vezes de joelhos. Soube o que era a má alimentação e a fome, a promiscuidade e o baixo salário. Acompanhou também a greve dos mineiros.

Estêvão, uma das figuras dominantes da obra, chega a Marchinnese e cedo verifica as condições de trabalho aí existentes. Com a morte de uma operária vai substituí-la alojando-se na casa dos Matheu onde vive sua filha Catarina. “De quem é isto? E de uma gente… E, com o dedo, indicava na sombra um ponto vago e remoto, povoado daquela gente para quem os Matheu cavavam no veio havia mais de meio século. A sua voz tomara uma espécie de medo religioso; era como se falasse de algum tabernáculo, onde se ocultava o deus a quem todos eles davam a sua carne, e que eles nunca tinham visto. Nem ele sabia; queria tornar a descer á mina para sofrer e bater-se, pensando raivosamente nessa gente de quem falava o Boa Morte, nesse deus agachado como um ídolo hindu, ao qual dez mil esfaimados davam a sua carne sem o saber. E graças a Deus que ainda tenho saúde. Aos quarenta e dois, muitos há que vão para o calçado velho!”.

Catarina conhece Chaval que quer casar com ela. Estêvão era aprendiz e por isso pede ajuda a Pluchart, um membro da Internacional. Assimilam ideias comuns e acham que têm que coletar dinheiro aos mineiros para ações futuras. Rasseneur, dono da taberna, acha que a caixa de previdência não irá funcionar. A ação de Estêvão influencia toda a aldeia e as Caixa começa a ser reconhecida e valorizada. É nomeado secretário da associação e as condições de vida melhoram. “Aqueles operários cujo odor de miséria agora o incomodava – sentia ele a necessidade de os exaltar a uma apoteose, mostrando-os como únicos, grandes e únicos impecáveis, como única fidalguia e única força em que a humanidade se podia retemperar. E via-se já na tribuna, triunfando com o povo – se antes disso o povo não o devorasse”.

Começa a falar-se em greve. Há um desmoronamento na mina e Estêvão encontra um operário semi soterrado com ambas as pernas partidas. A rebelião inicia-se na mina vizinha de Voreux. O movimento alastra-se a Deneulin, Gaston Marie e Mirou. Estêvão manda Chaval estourar a bomba da água da mina e este não obedece fugindo com Catarina. “Desde o fundo até lá cima, havia cento e duas escadas, pouco mis ou menos de sete metros, pousadas num estreito patamar que tomava a largura o poço, e onde um buraco quadrado mal deixava passar os ombros. Era como que uma chaminé chata, de setecentos metros de altura, entre a parede do outro poço e o tabique do compartimento de extracção; furna húmida, negra e sem fim, onde as escadas se sobrepunham, quase direitas – escadas de mão – a intervalos regulares. Um homem valente precisava de vinte e cinco minutos para engatinhar aquela coluna gigante. De resto, o poço as escadas já não servia senão em caso de catástrofe”.

Mais tarde, com estrondo e grande violência aparece a polícia. O mineiro que Estêvão havia encontrado com ambas as pernas partidas e que sobrevivera, mata um dos polícias cujo corpo é escondido. Entretanto, mineiros belgas substituem os franceses nas minas de Voreux. A polícia forma duas filas de soldados frente a um muro. São provocados e insultados. Sem espaço para recuar, acabam por atirar sobre os mineiros e suas famílias. Nesta altura Estêvão já havia interiorizado que a companhia era forte demais para falir. Acaba com a greve, facto que irrita os mineiros e leva Rasseneur a acalmar os revoltosos, suplantando Estêvão na sua condução. “A Associação depois de ter conquistado o mundo inteiro num ímpeto de propaganda, que ainda fazia estremecer os burgueses, era agora devorada, destruída um pouco cada dia pela batalha intestina das vaidades e ambições. Desde que os anarquistas triunfavam, escorraçando os evolucionistas do começo, tudo estalava; o primitivo fim, a reforma do salariato, afogava-se no meio das questiúnculas da seita, os quadros sábios desorganizavam-se com o ódio da disciplina. E já se podia prever o abortar final daquele levantamento em massa, que num instante ameaçara levar de escantilhão a velha sociedade apodrecida”.

No dia seguinte, a bomba de água rebenta de novo, fazendo vários feridos e mortos. Estêvão, Catarina e Chaval ficam nos escombros. O primeiro, não suportando mais o seu rival, mata-o. Catarina morre também. Estêvão deixa a cidade e vai para Paris, desolado, frustrado e à procura de novos sonhos. “Estêvão decidiu-se. Acaso julgava tornar a ver os olhos límpidos de Catarina, lá no alto à entrada do cortiço. Acaso seria antes um vento de revolta que vinha de Voreux. Pendurara-se de um salto ao pescoço dele. E foi a sua noite de núpcias, no fundo daquele túmulo, sobre aquele leito de lama, a necessidade de não morrer sem o seu quinhão de felicidade, obstinada necessidade de viver e de dar a vida. Amaram-se no desespero de tudo, na morte. Mas Paris é que não havia de esquecer os tiros de Voreux, também o sangue do Império havia de correr por aquela ferida incurável”.

“Germinal”, como quase todas as obras de EZ, é um grito de fé, otimismo e esperança no futuro, num quadro de fundo de alguma melancolia e revolta, que nem sempre foi vislumbrado pelos seus críticos. “Germinal” é o grito lançado como semente para debaixo da terra, ou levado na brisa como eco no espaço, na voz da multidão a clamar, num misto de ameaça e estertor (Marques, E.).

 “Agora em pleno céu, o sol de Abril raiava em toda a sua glória, aquecendo a terra que estava em pleno trabalho de conceber. Do flanco maternal esguichava a vida, os rebentos desabrochavam em folhas verdejantes, tremiam os campos com a alevantar subterrâneo das ervas. Por toda a parte as sementes inchavam, obrigavam-se, gretavam o chão, aguilhoadas por uma necessidade de calor e sol. Aos raios inflamados do sol, por aquela manhã de juventude, era daquele rumor que a campina estava grávida. Surgiam homens, um exército negro, vingador, que germinava lentamente nos alqueives, nascendo para as colheitas do século futuro, e cuja germinação não tardaria a fazer estoirar a terra”.

“La Débacle”, a derrocada, tem como pano de fundo a abordagem da brutalidade da guerra, sobretudo para a gigantesca massa dos soldados a quem é pedido e exigido fazê-la, os consequentes danos e perdas de todo o tipo para as populações, as famílias e os territórios. Esta abordagem faz-se a partir de uma guerra concreta, a guerra franco prussiana declarada pela França à Prússia.

Esta guerra tem com pano de fundo geoestratégico, o equilíbrio do poder entre as grandes potências após as guerras napoleónicas e a derrota e exílio de Napoleão I (Bonaparte). O Chanceler do Reino da Prússia, há muito ambicionava a unificação com todos os estados alemães no que viria a ser o Império Alemão (proclamado por Bismark em Versalhes e Guilherme I seu Imperador após a entrada das tropas prussianas em Paris – II Reich), hoje a Alemanha unificada. Esta unificação tinha ainda o apoio da Confederação da Alemanha do Norte constituída já pela Prússia e pelos estados de Baden e Wurttemberg. Este projeto tinha a oposição da França e o apoio dos estados alemães do sul em caso de guerra. Para tanto, Bismark pôs em curso um vasto programa militar que teve como consequência a criação de um poderoso e muito bem equipado exército. Ao mesmo tempo, sabia da precariedade francesa nesta matéria, já que a França estava desequilibrada politicamente, pois Napoleão III subira ao poder através de um golpe de estado com a dissolução da Assembleia Nacional (“História de um crime” – Victor Hugo, 2 de Dezembro de 1851). Os conselheiros de Napoleão III convenceram-no de que poderia derrotar os alemães, sabendo que o Imperador necessitava de recuperar o seu prestígio após um conjunto de derrotas diplomáticas que havia sofrido.

O pretexto para a guerra, induzido aos franceses por Bismark, foi a oferta por parte das Cortes de Espanha do trono espanhol a um príncipe de origem prussiana (Leopoldo de Hohenzollerne) primo do Imperador da Prússia (Guilherme I), que a França não podia aceitar. Tendo a Prússia abdicado desta exigência, a França exigiu mais: a garantia de que jamais um membro da família imperial prussiana ocuparia o trono de Espanha e a negociação direta do Imperador com o embaixador francês Vincent Benedetti. O Imperador da Prússia recusou dar novas garantia e, como, não obstante isso, estava decidido a resolver diplomaticamente a crise com a França e sabendo Bismark disso, este alterou um telegrama de Guilherme I a Napoleão III (telegrama de Ems), a par de referências provocatórias que habilmente dirigiu à França e que desencadearam a guerra. Este telegrama seria mais tarde enviado por Napoleão III a Guilherme I.

O romance tem três partes: a primeira situa-se nos movimentos militares de ambas as partes, a segunda descreve na batalha de Sédan que decidiu a guerra e a terceira relata a rendição da França, a prisão do imperador e do seu exército, a humilhação do armistício, a ocupação alemã expressa sobretudo em Paris, as consequências e o governo da derrota, bem como o papel da Regente que havia ficado na cidade. Os dois exércitos foram comandados por Mac-Mahon pela França e Helmuth von Moltke pela Prússia. A eficácia alemã começou por ocupar a Alsácia, enquanto uma outra divisão comandada por Bazaine teve que retirar para Metz (a França pagou à Prússia cinco mil milhões de francos de indemnizações de guerra, pagou os custos da ocupação da Prússia que durou três anos, perdeu a Alsácia e a Lorena e foi forçada a libertar 100.000 prisioneiros alemães que a Prússia veio a reintegrar para levarem a cabo o esmagamento da Comuna de Paris durante a ocupação).

Tudo isto se passa á volta de quatro personagens principais: João, Maurício, Henriqueta e Weiss marido desta.

“… a incapacidade dos chefes. E até o destino estava conta nós, acumulando fracassos e coincidências desastrosas que realizam o plano secretos dos prussianos, que se resume em dividir em dois o nosso exército, de impedir o acesso a Metz e isolá-la da França, enquanto que eles marchariam sobre Paris, depois de destruir o resto. O sargento estava conflituoso, tratando com um desprezo furioso os seus subordinados, um conjunto de homens sem coesão, um rebanho de inocentes trazidos par o massacre por imbecis. Napoleão e os generais tinham dificuldade em estar de acordo sobre as verdadeiras e importantes decisões e dos factos que delas poderiam resultar. Maurício sofria cada vez mais dos pés que já haviam inflamado e estavam de novo iguais. Insistia tão dolorosamente na recuperação que João dispôs-se a picá-lo: Então, isso não vai? Outra vez?! Os soldados, quando os abastecimentos falhavam, conseguiam encontrar qualquer coisa para comer, ajudavam-se mutuamente e punham em comum os seus recursos, Enquanto isso, o oficial ficava sem nada, isolado faminto e sem poder lutar desde que algo não viesse de fora. Henriqueta, com a sua pressa suave, com a sua atividade de mulher silenciosa, parecia ajudá-lo a passar impune e sem dar nas vistas pelo perigo a que ela escapava subtilmente”.

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“O rei observara a marcha matemática, inexorável do exército durante nove horas. Eles marchavam, marchavam sempre, segundo os planos previstos, completando o cerco em volta de Sedan e reforçando-a de homens e canhões. Mais um esforço e o Príncipe Real da Prússia daria a mão ao Príncipe Real da Saxónia. Os alemães eram inflexíveis. Toda a pessoa encontrada com uma arma sem ser militar, era fuzilada na hora. Esta praça-forte através da qual tinha havido a ideia desastrosa de mudar o sentido da guerra, acabara por ser uma tentação funesta, o abrigo que se ofereceu ao inimigo, a ilusão de vitória para os mais bravos no meio de desmoralização e do pânico de todos. Os generais Douay e Ducrot advertiram o Imperador que a batalha estava perdida. Deram-lhe os detalhes da situação com a precisão de que dispunham. O exército em Sedan estava sitiado de todos os lados. O desastre iria ser absoluto. A luta era sem esperança e toda a resistência seria criminosa. E á cabeça reconheceu o Imperador: suado e angustiado de marchar para a capitulação. A face suja e cheia de pó e terra, tinha a brutalidade dolorosa de uma agonia. Este Imperador não tinha mais trono. Confiou os seus poderes à Imperatriz Regente, este Comandante em Chefe que não comandava nada, teve um sonho de poder, a irresistível necessidade de o exercer uma última vez. Alteza, vinde comandar as vossas tropas, elas sentir-se-ão honradas de vos abrir uma passagem entre as linhas inimigas. O general Reille, foi encarregado pelo Imperador de levar ao Rei da Prússia esta carta: -Senhor meu irmão, não tendo morrido no meio das minhas tropas, não me resta senão colocar nas suas mãos a minha espada. Sou de Vossa Majestade, o bom irmão Napoleão. O general parou a dez passos do Rei desceu do cavalo, sem arma e não tendo nas mãos senão o pengalim. O sol punha-se com uma grandiosidade rosa. O Rei respondeu que aceitava a espada e esperava o envio de um oficial para tratar da capitulação”.

 

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“Depois a complicação dos interlocutores, os emissários suspeitos e mentirosos, que vão e vêm falar com Bismark, com o Rei Guilherme I, com Imperatriz Regente que, finalmente, decidiu recusar-se a negociar com o inimigo com base na ocupação e secessão de territórios; a Catástrofe inelutável, o destino à porta, a fome em Metz, a capitulação forçada, os comandantes e as tropas sem alternativa senão aceitar as duras condições dos vencedores. A França não tinha mais exército.

João foi para sua casa. Ficou gelado no seu coração de camponês a soçobrar de angústia: Ah! A guerra, a abominável guerra que transformara todo o seu mundo em bestas ferozes, que semeava ódios selvagens e a todos metera na lama da vida”.

Tal com em “Germinal”, também em “A Derrocada”, EZ semeia o patriotismo (que foi acusado de não ter) e a esperança no futuro. “Então João teve uma sensação extraordinária: pareceu-lhe naquele fim de dia, à vista desta cidade em chamas, que uma aurora se levantava já. Era o rejuvenescimento certo da eterna natureza, da eterna humanidade, a renovada promessa do trabalho que leve á mudança. A árvore a cujo tronco vigoroso cortaram um ramo podre através do qual a seiva envenenada apodrecia as folhas. O campo devassado estava há muito em pousio, a casa incendiada estava no chão. João mais adulto, muito sofrido, saiu. Em direção ao futuro e à enorme e ciclópica tarefa de reconstruir a França”.

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Eis a Alemanha. De novo.

Este povo que deve muito do seu brilho a milhares de portugueses que a ajudaram a reconstruir-se. Que gosta de Portugal e dos portugueses.

Olhando para a história desta nação, é incontornável não ver no seu ADN uma ambição imperial.

A II guerra mundial e o seu caráter genocídico e de fratura civilizacional em busca de um império; a I guerra mundial, vinte e cinco anos antes, que foi o ensaio geral para aquela; a guerra franco prussiana, quarenta e quatro anos antes, que permitiu o agregar de energias e territórios para o que viria a seguir. Mais: que reequilibrou em seu benefício o outro império que no mapa e territórios europeus se instalara: o napoleónico levado a cabo por um corso: “le petit”, no dizer de Victor Hugo. Inaceitável!

Ei-la de novo. Sem armas, nem sangue. Mas equipada com toda a tecnologia, sobretudo a financeira, a querer dizer e impor como deve ser o euro, a corrente sanguínea que define hoje as fronteiras e os impérios europeus, tão violentas assim, quanto dantes as outras.

E eis a Grécia a dizer que não, que não pode ser assim. A Grécia, o eterno berço da alma europeia.

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*1 Uma das maiores figuras desta corrente literária em Portugal, foi Eça de Queiroz. Nas suas viagens pela Europa, chegou a visitar EZ em Paris a quem surpreendeu pela fluência do francês que falava. EZ nunca dominou qualquer língua estrangeira.

EZ encontra-se no Panteão Nacional de França ao lado de Victor Hugo. Eram amigos e admiravam-se mutuamente. São comuns alguns temas de “A Derrocada” com a “História de um crime” de Victor Hugo e de que já escrevemos em crónica anterior.

 

Outras obras de EZ

 

A saga dos Rougon-Macquart (20 0bras):

O ventre de Paris – 1873

A taberna – 1876

Uma página de amor – 1878

Nana – 1879

A roupa suja – 1879

O paraíso das damas – 1883

A alegria de viver – 1884

A besta humana – 1886

O Dinheiro – pag.177

A Terra – 1887

O doutor Pascal 1893

Obras críticas

O romance experimental 1880

Os romancistas naturalistas – 1881

O naturalismo no teatro – 1881

Os autores dramáticos – 1881

Uma campanha -1880/1883

Nova campanha – 1896

A verdade em marcha – 1901

Poesia

Messidor – 1898

O furacão – 1901

Peças de Teatro

Thérèse Raquin – 1867

Les héritiers Rabourdin – 1874

A série dos quatro Evangelhos:

Fecundidade – 1899

Trabalho – 1901

Verdade – 1903

A série das três cidades:

Lourdes -1894

Roma – 1896

Paris – 1898

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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