LETRAS @CORdadas – António Maria de Sousa Sardinha

por Miguel Alves | 2016.02.27 - 18:51

 

(António Maria de Sousa Sardinha – 1887-1925)

António Sardinha foi um político (deputado monárquico no consulado de Sidónio Pais; após o fracasso da “Monarquia o do Norte”, viveu exilado em Espanha entre 1919 e 1921), ensaísta doutrinário, historiador e poeta nascido em Monforte, Elvas. Licenciou-se em direito na faculdade de direito de Coimbra e morreu precocemente com apenas 38 anos de idade.

sard1

Foi o criador e dinamizador de um movimento social, político e cultural que ficou na história com o nome de Integralismo Lusitano. Movimento de carateristicas nacionalistas e tradicionalistas mas não conservadoras, opôs-se à monarquia constitucional e absolutista, à implantação da república e ao estado novo de Oliveira Salazar. Teve origem em 1912 entre os exilados católicos e monárquicos da Bélgica e onde se encontravam alguns dos seus fundadores. Tratou-se, no seu início e em Portugal, de um movimento de reação ao anti clericalismo da I república. Defendia uma monarquia orgânica, tradicionalista e anti parlamentar, o humanismo, a descentralização do poder, o municipalismo e a igreja católica como portadora de um catolicismo social. Defensor de um Estado Integral que não deve ser um fim mas um instrumento “do bem comum, da civilização geral e do serviço de Deus”. Um dos seus principais seguidores, José Pequito Rebelo, afirmou que “a ideia totalitária deve ser definida não pela formula de que tudo tem o seu fim no Estado, mas sim que o Estado deve cumprir a totalidade dos seus fins”.

Entre os seus seguidores para além de Pequito Rebelo, encontramos Hipólito Raposo, Alerto Monsaraz, Francisco Rolão Preto e, tardiamente, também Ramalho Ortigão. O movimento teve algumas proximidades ideológicas com o chamado grupo “a geração de setenta/Os vencidos da vida” onde prontificaram nomes sonantes como Almeida Garrett, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, Teófilo Braga e Oliveira Martins. Terá sido neste grupo que o Integralismo Lusitano encontrou as suas raízes e identificou os seus mestres predecessores.

Teoria não completamente fundamentada é a que alguns historiadores admitem de que o Salazarismo terá recebido “uma profunda influência” do Integralismo Lusitano e que Salazar terá sido um discreto e não assumido admirador do movimento integralista, a ponto de afirmarem que a revolução de 28 de Maio 1926 que pôs termo à Primeira República e precedeu o Estado Novo de Salazar, terá tido uma forte influência do Integralismo Lusitano. Isto embora muitas das figuras gradas do movimento tenham sido marcadamente anti salazaristas por considerarem o seu regime como “um corporativismo de Estado fascista”. Alguns dos seus membros fizeram parte da candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República em 1958.

Em 1915 o Integralismo Lusitano levou a cabo um ciclo de conferências na Liga Naval de Lisboa sobre o iberismo e a eventual assimilação dos dois povos ibéricos. Foi violentamente interrompido e as suas instalações assaltadas e destruídas pelo regime.

O Integralismo Lusitano foi extinto em 1932, por força da morte sem descendentes de D. Manuel II, e que levou ao aglutinar de todas as tendências monárquicas em torno de D. Duarte Nuno de Bragança. Já antes, em 1930, havia ocorrido o encerramento definitivo do Instituto António Sardinha.

Ambos os acontecimentos tiveram como detonador maior as dissensões no interior do movimento em 1927 de personalidades bem conhecidas do período pré democrático de Portugal, entre as quais Marcelo Caetano, último presidente do conselho antes do 25 de Abril, Pedro Teotónio Pereira, Manuel Múrias, José Maria Ribeiro da Silva e António Cavaleiro, entre outros.

Ao longo da sua existência, o Integralismo Lusitano e algumas das suas figuras de proa criaram e dirigiram publicações diversas como veículos do seu pensamento e doutrina política. “Aqui d´El Rei” foi o seu folheto inicial seguido de a “Nação Portuguesa”, 1914, Jornal “Monarquia”, 1917 e Semanário “Acção Nacional”, 1921. Os seus seguidores, mais ou menos inorgânicos, das décadas 30 e 40 criaram as revistas “Gil Vicente”, “Aléo” e as Edições Gama. Em 1945 foi criado o Centro Nacional de Cultura (onde pára ele atualmente?!). Em 1950 surgiram dois instrumentos de reatualização doutrinária: a revista “Cidade Nova” de Henrique Barrilaro Ruas e o jornal “O Debate” de Mário Saraiva. Em 1969 é lançado o manifesto “Renovação Portuguesa” e em 2002 os herdeiros do Integralismo Lusitano apresentaram uma definição atualizada do seu ideário.

Em síntese, o Integralismo Lusitano tinha como ambição maior o restaurar a grandeza perdida de Portugal, escolhido por Deus para dilatar a fé e o império (“No princípio era o Verbo”, 1924). Funcionou sobretudo como uma escola de pensamento e de ideias monárquicas, nacionalistas e patrióticas. O seu lema ficou expresso no chamado “Grito de Almacave”, proclamado pelos povos representados nas Cortes de Lamego: ”Nós somos livres, nosso Rei é livre, nossas mãos nos libertaram”.

Quero hoje @CORdar uma das obras mais importantes de AS: “Ao ritmo da ampulheta – Critica e Doutrina”. Uma edição, já póstuma, datada de 1925 da LYMEN, Empresa Internacional Editora.

Trata-se de um livro de ensaios sobre temas, períodos, acontecimentos e personalidades da história de Portugal. Os primeiros vistos à luz da ciência, cultura e desenvolvimento político e social do seu templo (A vinculação, A energia nacional, Consanguinidade e degenerescência, Ao crepúsculo da inteligência); todos os outros, são abordados na linha do seu pensamento filosófico, político e social. Sendo um homem culto, muito bem informado e documentado, merecem uma leitura muito atenta os textos sobre figuras e datas históricas que todos bem conhecemos. Para mim, os aspetos mais interessantes e valiosos desta obra encontrei-os aqui. Por um lado, por facultar-nos uma visão mais alternativa e fundamentada, porque, informada, daquilo que os manuais oficiais nos transmitiram e, por outro, a análise dos processos e movimentos sociológicos de fundo, nacionais e internacionais, que moldaram, condicionaram e impuseram determinados rumos da história europeia e nacional e cuja ligação não nos foi transmitida de forma clara.

Vou concentrar-me um pouco sobre alguns destes: Duas datas, A retirada para o Brasil, 1820, Super flumina Babylonis, El-rei D. Miguel e Mouzinho da Silveira.Parte inferior do formulário

 

Duas datas: AS liga e articula duas datas importantes da história de Portugal: a conquista de Ceuta e Alcácer Quibir. Ceuta fora, decisiva na expulsão dos “moiros” da península ibérica ao arrancar-lhe o domínio do Estreito de Gibraltar. Marrocos era o nosso “Algarve de além-mar”, uma espécie de natural prolongamento do país: “África fértil e vizinha” no dizer do Conde da Ericeira o último governador de Tanger. AS defende que Alcácer Quibir resultou do facto de o país não ter desenvolvido o projeto africano e se ter inebriado pelas riquezas da Índia. Que a decisão de D. Sebastião não foi leviana e irresponsável, antes pretendeu retomar essa linha de desenvolvimento. Apesar disto, AS considera a “arrancada” do país para a Índia, uma das maiores demonstrações do espírito universalista dos portugueses, a sofrer a influência da “lei dos litorais”. “O erro da nossa acção colonizadora foi abandonar-se o alastramento rural e pacífico da Pátria através das cabeceiras de África e das ilhas do atlântico, para nos mergulharmos, de alma desvairada e sedenta, na miragem faustosa do oiro da Índia. Aí começa a ruina de Portugal. Portugal desnacionaliza-se. Só a Índia nos atrai, donde regressamos piratas, com as mãos amontoadas de morticínios e depredações. Distante, torna-se difícil e pesado o nosso poderio na Índia. Para lhe acudirmos, abandonam-se ao pé da porta as praças de África”. “Há-de vir ainda um dia em que as comendas se ganharão nas costas do Algarve” declarou angustiado o Conde do Redondo ao votar no Conselho Real contra as campanhas da Índia. “A jornada de Alcácer Quibir foi um acto de verdadeiro alcance nacional. Pretendíamos voltar ao caminho perdido dos varões de quatrocentos – ao império da terra já agora querido e desejado por todos, considerando os fumos da Índia, que mais não foram que fumos de catástrofe. D. Sebastião é assim um grande rei porque encarna, não só o sentir do seu povo, mas um desejo maior – o da sua época. …sendo Alcácer Quibir o epílogo funesto  da manhã de glória iniciada em Ceuta”.

 

A retirada para o Brasil: Para AS a retirada para o Brasil do Príncipe Regente D. João VI é um dos factos da história de Portugal menos compreendidos e mais adulterados. Para ele foi um ato de prudência e não uma fuga. Na sua perspetiva, o sobressalto e alguma desordem que a rodeou fazendo dela uma reação de fuga em situação de pânico, deveu-se ao facto de o rei apenas ter sabido da chegada de Junot quando a defesa já era impossível e as tropas francesas já marchavam de Abrantes sobre Lisboa “a razão consiste em que rodeado de traidores, com eles à frente dos negócios públicos….Pinta-se D. João VI como uma caricatura ambulante… A retirada para o Brasil é assim olhada como um expediente de ocasião em que só o susto mandou. Eis numa frase comprida, o que nem se definirá como a história às avessas. Não só a segurança da dinastia a inspirou. Inspirou-a principalmente a salvação de Portugal. É preciso não esquecer que a Maçonaria era aliada de Bonaparte. O partido inglês tinha à sua frente D. Rodrigo de Sousa Coutinho e D. João de Almeida …o partido francês. Defendendo a neutralidade, inclinava-se abertamente para o lado de França, dirigido às ocultas pelas lojas secretas em que se encontrava o seu apoio mais sólido. Demitido o Intendente (Pina Manique), a Maçonaria acha-se enfim à vontade nos seus manejos de traição. É um maçon, António de Azevedo e Araújo, quem substitui os ministros demitidos… sabia perfeitamente quais os intentos de Bonaparte. Só a desculpa que nos podia surpreender um desembarque britânico, desviara para as nossas costas as poucas tropas de que dispúnhamos. Junot entrou sem que o Príncipe Regente suspeitasse de coisa alguma. Veio a sabê-lo não pelo seu ministro, mas por diligências particulares que o preveniram a tempo da cilada em que esteve para cair”. (“Se a Casa de Bragança não tivesse o Brasil em 1807, em vão hoje na Europa se buscaria o throno português” – A Dinastia e a Revolução de Setembro). “A retirada para o Brasil não foi um expediente determinado pelo pânico. É a baba jacobina a difamar a serenidade do nosso passado. Quando da Restauração no momento em que a França nos entregava à nossa sorte no congresso de Munster, o padre António Vieira não duvidou sugerir a D. João IV a saída para a América como um recurso. E quando a Espanha anos invadiu na sequência do Pacto de Família, Pombal chegou a ter preparada a esquadra que transportaria ao Brasil D. José e a sua côrte”.

 

24 de Agosto de 1820: É a data em que teve lugar na cidade do Porto o início da revolução que impôs o regime liberal em Portugal. Como resultado dessa revolução, tiveram lugar em Dezembro de 1822 as primeiras eleições em Portugal que escolheram os deputados às Cortes Constituintes para a elaboração da Constituição de 1822. Além disso, a revolução exigiu o regresso a Lisboa do Rei D. João VI que se encontrava no Brasil. Esta revolução impôs ainda os princípios da liberdade e da igualdade dos cidadãos perante a lei, acabou com os privilégios do clero e da nobreza e consagrou a divisão do poder em Portugal entre o poder legislativo, executivo e judicial. D. João VI regressou em 1821, jurou a Constituição e Portugal transformou-se de uma Monarquia absoluta numa Monarquia constitucional.

As razões para esta revolução que a história nos deixou foram sobretudo a depauperação do país pelas invasões napoleónicas, o domínio inglês no governo do país pela mão de Beresford e o facto de os portos brasileiros terem deixado de ser exclusivos de Portugal.

Os líderes da revolução agrupavam-se numa associação secreta, o Sinédrio, fundada em 1817 e composta por juízes, comerciantes, proprietários e militares sob a chefia de Manuel Fernandes Tomás. À sua criação já tinha presidido a ideia de mudar o regime.

AS nunca foi apoiante desta revolução, dos seus resultados e identifica algumas das suas origens que são pouco referidas pela história, sobretudo o papel que nela desempenhou a Maçonaria nacional e internacional.

Em primeiro lugar, segundo ele, a estadia do Rei no Brasil não era uma fragilidade do país antes o alargamento imperial da sua dimensão: “…a demora da Corte no Rio de Janeiro impôs-nos à Europa, disposta a abandonar-nos á nossa sorte, sem que com isso se molestasse a nossa aliada da véspera – a Inglaterra. …teríamos sido miseravelmente retalhados pela Espanha e pela Grã-Bretanha nas decisões do congresso de Viena. Ninguém, mais do que a Inglaterra, desejava pôr cobro à assistência do Rei no Brasil, que nos estava valorizando internacionalmente. …à Inglaterra se deve o golpe decisivo, colaborando activamente na emancipação do Brasil, igualado à metrópole pela política sábia de D. João VI. O liberalismo nasceu entre nós no seio das lojas maçónicas exactanmente com aqueles que facilitaram aqui a penetração dos exércitos napoleónicos, conspirando primeiro com os sequazes de Junot. Por semelhante solidariedade a nossa Maçonaria facilitou a entrada de Junot em Lisboa, mandando mensageiros a Napoleão e dispondo-se a entregar-lhe com a dinastia o único penhor da independência do país. Tanto a conjura de Gomes Freire em 1817, como a revolução de 1820, desenvolvidas e delineadas no regaço da Maçonaria, tinham trabalhos comuns com espiões espanhóis”.

 

Super flumina Babylonis: Neste ensaio, AS relaciona a Monarquia, o Liberalismo, a Maçonaria e a Igreja. Para ele, o liberalismo foi o percursor da república, impondo á monarquia o período intermédio da monarquia constitucional. O liberalismo foi comandado pela maçonaria e, mais tarde, nela entrou a igreja. “1820 é já a república disfarçada num fantasma de um rei coacto. Maçónica na sua origem, é um engano supor-se que a revolução do Porto obedeceu a indignadas iras patrióticas contra a residência inglesa e a demora obstinada da Corte no Rio. A Maçonaria serviu-se dessa capa fácil. Levantam uma bela manhazinha no Porto, meteram-se ao caminho para Lisboa, onde o terreno se achava já preparado pela teimosia habilidosa das várias irmandades do Triangulo – e – Avental. …como interpretar o assassinato de el-rei D. Carlos senão como o resultado trágico do duelo  irreconciliável que se travara entre a Monarquia e o Liberalismo. Enlaçada a Maçonaria ao Liberalismo, a política religiosa seguida inspirou-se imediatamente no Regalismo de Pombal. Pretendeu Pombal, a título de nacionalizar a Igreja, diminuir os laços que nos prendiam a Roma. Verificada ou não a sua matrícula na Maçonaria, o que é fora de contestação é que os principais colaboradores do Marquês nessa tentativa de dissidentíssimo pertenceram á classe eclesiástica. Expulsos os jesuítas, cerca-se Pombal do Padres do Oratório. …no seio das Ordens Religiosas o fermento das ideias francesas encontrava excelente acolhida. Na lista dos cabecilhas avulta fr. Francisco de S. Luís, mais tarde Bispo-Conde eleito, reitor da Universidade e finalmente Patriarca de Lisboa, com a designação de Cardeal Saraiva. Segundo a relação das lojas existentes em Portugal por volta de 1821 e dada nesse ano à estampa em Paris, o futuro Cardeal-Patriarca fazia parte do estado-maior do Grande Oriente Lusitano com o crisma maçónico de Condorcet. Funcionavam com ele os Irms. Temístocles (cónego Castelo Branco), Durac (padre Portela). No horror dos vintistas ao padre, não se lhe confiaria um lugar de proeminência, se a inscrição nos fastos do grémio lhe não abonasse a conduta. …a loja Liberdade instalada em Elvas no ano de 1818, informa pertencerem a  ela as principais pessoas daquela praça, entre outras o Bispo Ataíde, o general Stubes, o Visconde de Vila Nova de Gaia, José Lúcio Valdez, depois duque de Bomfim, o cónego João Travaços, o tenente Manuel Geraldes Ferreira Passos que era o Venerável. Compreende-se assim os motivos porque os franceses, quando das três invasões, acharam nestas classes alguns auxiliares valiosos. …outros prelados com registo na Maçonaria, o cónego Francisco Eleutério Castelo Branco, o arcebispo de Évora (Anes de Carvalho), D. Januário, bispo eleito de Castelo Branco”.

Uma referência ao bem conhecido e histórico, clérigo viseense: o bispo Alves Martins.

“com uma estátua inaugurada e subsidiada pela Maçonaria, o bispo Alves Martins é talvez um dos últimos representantes desse episcopado vergonhoso. Ministro e presidente do Conselho, nunca se aproveitou do seu valimento para minorar as leis proibitivas da associação e da liberdade religiosas. Narra um viajante estrangeiro que, assistindo uma vez a uma sessão do nosso Parlamento, pasmou de que o motivo do debate fosse a repressão das congregações, sendo o presidente da Câmara de mais a mais um prelado. Tratava-se naturalmente do bispo de Viseu, que se recusou em Roma a assinar as decisões conciliares que proclamaram Nossa Senhora imaculada na sua Conceição”.

Apesar do atrás escrito, AS é otimista e intelectualmente sério sobre as instituições atrás referidas: “Mas é preciso, numa hora de injustas acusações, que se reponha a verdade no seu merecido lugar. Nem a Igreja é atingida pela conduta dos seus maus servidores, nem a monarquia se deve envolver nos erros que partiram, não dela, mas do sofisma qua diminuiu e corrompeu. Monarquia e Igreja sofreram ambas o contágio funesto da revolução”.

AS tenta com grande convicção nesta obra fazer aquilo que para ele é a reabilitação de algumas figuras da história de Portugal e desmistificar o excessivo mérito que a outras é dado. Já ficou evidente entre as primeiras o Rei D. João VI; em menor dimensão fá-lo também à sua Rainha consorte D. Carlota Joaquina, assim como à Rainha D. Maria I. O mesmo em relação a D. Miguel; Mouzinho da Silveira é para ele um mito.

 

El-rei Miguel: AS começa por compará-lo a seu irmão D. Pedro: “ …que não foi mais que um simples usurpador. Voltou ao país que renegara, de armas na mão e trazendo no coice uma onda de mercenários, arrebanhados a tanto por cabeça nas tavernas mais imundas de Londres. Tais são, com pequenas excepções, os 7.500 bravos do Mindelo. D. Pedro apelando para a intervenção estrangeira, oferecia em troca da expulsão de D. Miguel “a baía de Lourenço Marques, ou qualquer outra das colónias asiáticas ou das africanas da costa oriental ”- Apontamentos para a história diplomática de Portugal de Agostinho José Freire. Caluniado como nenhuma outra figura da nossa história, apontam-no como querendo depor, – e até assassinar! – seu pai, debaixo das instigações malévolas de D. Carlota Joaquina (“Deve trabalhar-se para decidir os representantes estrangeiros a tomarem parte neste acto em nome dos seus soberanos. Desta arte, os ministros serão conservados ou reintegrados no poder, e, sem o conhecer, D. João VI preparará tudo para chegar à última vergonha, a que o queremos arrastar. Se a Rainha e Dom Miguel… persistem em contrariar o nosso desígnio de destronar o déspota e de restabelecer a Constituição, é de absoluta necessidade decidir o Rei a banir a sua esposa e seu filho da terra portuguesa” – Instruções Maçónicas do Grande Oriente Espanhol Egypcio, Cadiz, 1828). É que D. Miguel, ao embarcar, levava na pobreza das suas bagagens o espírito autóctone da sua pátria – a velha e experimentada alma lusitana”.

 

Mouzinho da Silveira: AS apelida Mouzinho da Silveira de “falso redentor da terra portuguesa que aluiu os fundamentos agrários da família e da propriedade, empurrando o país para a dissolução individualista do moderno capitalismo”.

Menoriza o programa legislativo de Mouzinho no que diz respeito a dízimos, florais e missas, comparando-o com a legislação nessas matérias levada a cabo por D, João VI, na sua opinião muito mais válida. No que diz respeito à reforma administrativa de Mouzinho da Silveira, AS atribui-lhe um caráter desnacionalizador, ao adotar o sistema administrativo francês a Portugal, afirmando ainda que o republicanismo é incompatível com o municipalismo. “Mouzinho da Silveira, conduzido por critérios abtractos de ideólogo, constrangeu perniciosamente a sociedade portuguesa. Com a sua surdez, a sua pública avareza e o seu isolamento misantropo, Mouzinho é bem o legista, abstracto e geométrico, inteiramente devorado por uma loucura metódica – a de encerrar a realidade dentro da estreiteza das normas jurídicas”.

AS vai buscar apoios concordantes com a sua visão em personalidades contemporâneas de Mouzinho da Silveira, nomeadamente Alexandre Herculano, Almeida Garrett e Coelho da Rocha: Disse Herculano; “…adoptou-se o systema administrativo francês, o que foi, digamo-lo de passagem, um erro prático e um contrassenso político Parte inferior do formulário. …o systema de administração francesa, cuja adopção fora um erro de Mouzinho, funcionava mal”. Disse Garrett na Câmara do Pares em 1854: “seria a maior de todas as vergonhas se nos envergonhássemos de confessar que errámos, que errámos muitas vezes”. Coelho da Rocha ao pronunciar-se sobre alguma legislação de Mouzinho escreveu: “A precipitação e a forma que se lhes deu, fez com que, em lugar de remédio, víssemos antes aumentar os males públicos. Para recompor uma nação pequena e pobre, foram-se procurar os modelos à França e à Inglaterra, as duas nações mais ricas e poderosas da Europa”.

AS conclui o seu armamentário com as próprias palavras de Mouzinho ditas no exílio em Paris: “Isso aí não tem cura”. AS conclui: “Atribuindo a defeitos irreparáveis da nação os males que o seu delírio desencadeara, Mouzinho alheia-se da instabilidade que só ele provocara – desnacionaliza-se no sentimento, como já se desnacionalizara da inteligência”.

 

Sobre a revolução de 1820 e as suas consequências, pode dizer-se que AS esteve do lado errado da história. Mas fê-lo de forma lúcida, consciente e crítica. Tendo, com coragem e convicção, projetos políticos e sociais alternativos para Portugal. Posições suportadas na construção de uma conceção filosófica e política própria relativa aos movimentos históricos e do país, tal como do seu futuro. Convicta e patriótica à l´autrance. Pena é que tenha morrido tão cedo. Seria valioso constatar a sua produção e evolução intelectual em termos políticos e sociais posteriores.

Estas são figuras históricas relevantes porque, discordando, identificam e recortam com nitidez o lado bom do porvir histórico que acabou por suceder. Por outro lado, fazem a análise do seu lado menos bom, expresso nos métodos, processos e na personalidade dos atores que os comandaram.

A leitura de alguns tetos de AS poderá ser aposta aos acontecimentos e evoluções recentes da história do país? Todas as grandes mudanças têm pretextos, e razões mais ou menos claras. Expressas e camufladas. As suas razões, motivações e determinantes, serão tão claros como parecem ser?

O consciente, o inconsciente e o reprimido da condição humana e das nações em plena pujança. Para os teorizar, Freud e a psicanálise estavam, no seu tempo, ainda longe mas a caminho. Mas estes já lá estavam. Sempre estiveram, tal como hoje!

 

Outras obras de AS

Poesia

Epopeia da Planície, 1915;

Na Corte da Saudade, 1922;

Chuva da Tarde, 1923;

O Roubo da Europa,1931;

Pequena Casa Lusitana, 1937.

Estudos e Ensaios

O Valor da Raça, 1915;

A Aliança Peninsular, 1924/1925;

A Teoria das Cortes Gerais, 1924;

No princípio era o Verbo, 1924;

Na Feira dos Mitos, 1926;

À Lareira de Castela, 1943.

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

Pub