LETRAS @CORdadas – Alberto Morávia – 1907/1990

por Miguel Alves | 2015.05.25 - 10:24

 

Alberto Pincherle Morávia nasceu em Roma filho de uma família da classe média. O pai era arquiteto e pintor. Ainda em criança contraiu tuberculose óssea que o forçou a abandonar a escola e passar por longos períodos de internamento. Estudou em sanatórios onde começou a adquirir o hábito da leitura que levava níveis obsessivos.

Aos treze anos já escrevia poemas e aos 22 escreveu o seu primeiro romance que publicou a expensas próprias, circunstância que fez dele um dos escritores mais precoces da literatura europeia contemporânea. “Os Indiferentes” (1929) é considerada a sua obra maior, logo seguida de outras de grande qualidade escritas na primeira parte da sua carreira, ao contrário das restantes da sua produção artística nas quais muitos críticos sugerem fazer algumas cedências ao excito fácil.

A obra e a escrita de AM foram influenciadas pelo teatro e têm carateristicas cinematográficas. Os indiferentes, A Romana, O Conformista, A Ciociara*1, (Duas Mulheres, 1960), foram algumas das suas obras adaptadas ao cinema por realizadores importantes e famosos: Luigi Zampa, Bernardo Bertolucci e Vitorio De Sicca. AM foi também jornalista en La Stampa e na Gazzeta del Popolo.

AM foi um cidadão empenhado politicamente, tendo sido eleito deputado europeu como independente pelo partido comunista italiano. Algumas das suas obras foram proibidas por Mussolini e colocadas no índex pela Igreja por assinalarem em forma de sátira a contemporização da burguesia e da Igreja com o regime deste ditador. Foi em 1929 que o regime de Mussolini se consolidou no poder pela mão da Igreja, através da assinatura da Concordata entre a Igreja e o Vaticano.

AM é considerado o primeiro escritor existencialista, avant la lettre, antecipando-se a Camus (O Processo) e a Sartre (A Náusea). A sua escrita desenvolve-se em ambientes e com personagens decadentes em termos éticos e morais e na esteira do neo-realismo italiano e europeu.

É hoje considerado provado historicamente que AM não foi laureado com o Prémio Nobel em 1958 por manifesta e decidida intervenção da CIA e por razões de natureza política derivadas dos conflitos ideológicos entre o ocidente e bloco soviético e subjacentes á guerra fria que nessa altura entrava em período de grande intensidade e virulência. O prémio foi entregue a Boris Pasternak pela obra Doutor Zhivago, que foi impressa e entregue à pressa pela própria CIA em Estocolmo. Este poeta e escritor russo havia caído em desgraça na União Soviética em 1930 e não foi autorizado a deslocar-se a Estocolmo para receber o prémio. Boris Pasternak é considerado o precursor da luta política aos gulags na União Soviética que, mais tarde, seria desenvolvida por outro grande escritor e também laureado com o Prémio Nobel em 1970, Aleksandr Solzhenytsin e outros dissidentes do regime soviético.

Quero hoje @CORdar “Os Indiferentes”, a primeira e mais notável obra de AM como dissemos acima. A história/tragédia decorre num espaço da 48 horas, com cinco personagens e num espaço restrito de quatro casas. As personagens são Mariagrazia, uma viúva da alta burguesia italiana que vive das aparências, num tipo de vida luxuoso e hipócrita e muito acima das suas reais possibilidades (“Fingir, pensou ela, voltando a fechar a porta com precaução. É justo fingir”); Carla, sua jovem filha de vinte anos que paira um pouco sem destino e na esperança que algo lhe transforme a monotonia existencial do vazio em que circula e vive (“Carla olhou-a quase com ódio. Como…, por exemplo, tornar-me amante de Leo, desejaria responder e imaginava, com um prazer triste e ávido, o pasmo, a indignação, o medo que despertariam aquelas palavras”); Michele, o segundo filho de Mariagrazia é um jovem cobarde, indiferente, infeliz, sem capacidade de reação, amorfo, abúlico e incapaz de romper com o que o rodeia e detesta, recaindo constantemente no abismo da apatia (indiferente) sempre que as oportunidades de ser diferente/trágico se lhe deparam. (“Quanto a Michele atormentava-o um mal-estar oculto. Era preciso vencer, uma vez por todas, a própria indiferença e agir. Desejaria viver naquela época trágica e sincera, desejaria sentir aqueles grandes ódios arrasadores, elevar-se àqueles sentimentos sem limites”); Lisa, é uma amiga da família e ex amante de Leo a quem caberá assumir e desenvolver a pouca energia psicológica circulante no enredo, através da rivalidade com Carla na conquista/reconquista de Leo (“Não é, concerteza uma senhora honesta. O senhor não pode conhecer senhoras honestas … uma cortesã qualquer, isso sim, qualquer rameira de ínfima ordem”); Leo finalmente, a figura em redor do qual tudo circula, porque a ele se devem os empréstimos à custa dos quais a família vive e que a partir desse facto irá desenvolver uma estratégia da dominação psicológica e manipulação existencial para se apoderar dos bens e do palacete em que a família vive: cínico, amoral, sem escrúpulos e seguro de si foi amante de Lisa, é-o de Mariagrazia e, vem a sê-lo também de Carla (“Como se eu pudesse esquecer a sua conduta para comigo… como se ele não tivesse mais nada a fazer senão aparecer para obter tudo o que quisesse”).

Nesta obra e num estilo direto, frontal, frio, de recortes intimistas e frequentemente apaixonado, estão psicologicamente subentendidas, teatralmente expressas e cinematograficamente disponíveis as quatro carateristicas essenciais do conjunto total da obra de AM e na qual “Os Indiferentes”, sendo a sua obra mais importante, é também considerada uma obra-prima da literatura decadentista: O tédio existencial, a imensa dificuldade, para alguns verdadeira impossibilidade, da comunicação real, efetiva e empática entre as pessoas, a alienação humana nas múltiplas vertentes que a mesma pode assumir e, finalmente, o sexo como substituto da comunicação e até da linguagem.

 

O tédio existencial

“Sempre irrepreensível, não faz mais nada senão divertir-se e não tem pensamentos de espécie nenhuma …compreendeu demasiado tarde ter sido lisonjeado e definitivamente troçado. Devia ter dito: imediatamente, pensou, fosse quem fosse teria feito assim, imediatamente e discutir, talvez injuriar. Tinha vontade de gritar de raiva, vaidade e indiferença: no decurso de poucos minutos, Leo soubera fazê-lo em ambos os abismos. E quando roubas, teria querido perguntar Michele, que vinha atrás dele; mas não sabia odiar um homem que, de má vontade, invejava. Tivera a nítida impressão de ver os seus quatro rostos, ali suspensos, naquele halo mesquinho; ali estavam, por conseguinte, todos os objetos do seu aborrecimento. Agora seria preciso responder-lhe à letra, injuriá-lo, fazer nascer uma bela questão e romper com ele no fim. Mas não teve sinceridade para isso; calma mortal, ironia, indiferença. Todos temiam com tédio e desgosto a tempestade mesquinha que adensava naquela luz tranquila do jantar. O hábito e o tédio estavam emboscados naquele corredor, tudo era imutável, tudo era repetição. Se soubessem como tudo isto me é indiferente! Um homem normal ter-se-ia ofendido e protestado, mas ele não… ele com certo sentido aviltante de superioridade e desprezo compassivo, ficava indiferente. Michele não falou, não bebeu, não respondeu ao brinde. Tinha a cabeça baixa e oprimia-o um desgosto odioso, mesclado de pesar e humilhação. Carla sentia-se possuída por um mal-estar como nunca experimentara, seguia-se o atordoamento e a náusea. Nunca mais, desejaria responder, mas deteve-a este pensamento: é preciso ir até ao fundo, até ao fundo da destruição. O que sou eu? Porque não corro, não me apresso como toda a gente? Porque não sou um homem instintivo, sincero, porque não tenho fé? A angústia oprimia-o. Desejaria ser como um dos que passavam, desejaria ter um fim qualquer, não patinhar assim de rua em rua por entre gente que tinha um. Suplicava um fim para aquele limbo de fracassos absurdos, de sentimentos falsos. …a busca de um caminho, o de todos, onde as ações são sustentadas por uma fé ou sinceridade. Mariagrazia, de olhos vítreos, assustada detida a meio do seu enfado loquaz, fitava aquele rosto sem piedade. Desejaria gritar, todavia, ficou imóvel e apavorada. Leo, fora de uma indiferença sem par. Mais uma boa ocasião perdida, dizia para consigo, para contender com ele, para romper com ele. Já não existem para ele fé, sinceridade, tragédia. Tudo lhe parecia através do seu tédio, digno de dó, ridículo e falso. Cólera, ira, ódio. Todas as riquezas do mundo por um pouco de ódio sincero.

 

A não comunicação:

Michele não se movia; nunca lhe acontecera ver o ridículo confundir-se a tal ponto com a sinceridade, a falsidade com a verdade; apoderava-se dele um embaraço odioso. Oprimia-o uma náusea leve e fastidiosa, como quando se sente desenvolver-se o vómito e se quer detê-lo; no fim de contas ela é como eu, serviu para o induzir finalmente a um pouco de compaixão com aquela figura de mentirosa sem necessidade. Somos todos iguais, entre todas as maneiras de fazer uma coisa, escolhemos sempre a pior. Isto é demais, pensou, isto é trazer-me pelo beiço. E amanhã será a mesma história, volta amanhã. O desejo de destruição era mais forte que o desgosto; soube, porém, em vez disso ficar triste e irónica. Deixaria que a família se arruinasse ou se fizesse manter por Leo.

 

A múltipla alienação:

“…queres provocar uma briga. Tenho muita pena mas digo-te imediatamente que não resulta. Se fosses um homem saberia como responder-te… mas és um rapaz sem responsabilidades. Por isso o melhor que podes fazer é ir para a cama e aconselhares-te com o travesseiro. Tinha a impressão que a maré dos pequenos acontecimentos daquele dia estava para transbordar e para submergir a sua paciência; semicerrava os olhos e espreitava com tolerância as caras estúpidas e irritadas dos outros quatro. A incompreensão da mãe dava-lhe o sentimento doloroso de uma cegueira e de uma escuridão em que todos se encontravam envolvidos sem esperança de libertação. Como a mãe alicerçava sobre o erro todas as suas construções, inspirava-lhe sempre uma piedade desgostosa. Tu, mamã, queres ver-me sufocar… eu prefiro a ruína, sim, entendes? Há-de voltar, disse Leo. Eu conheço-o, não é dos que fazem as coisas a sério, há-de voltar podes ter a certeza. Mas havia nas costas um pouco curvadas da mãe, uma resolução teimosa de não se voltar para a verdade. Sentia-se indiferente, como sempre, especulativo e indiferente. Cansada de se examinar, a si e aos outros; não queria perdoar, não queria condenar, a vida era o que era e era melhor aceitá-la do que julgá-la, que a deixassem em paz. Não fiz nada. Agitou-o um frémito de medo. Não amei a Lisa, não matei o Leo, não fiz senão pensar …eis o meu erro. E a vila? E a hipoteca? Mas na verdade, que restava que Leo não houvesse já apanhado?

 

O sexo como substituto da comunicação:

A brincadeira tornava-se-lhe agora dolorosa, enterrava-se como um espinho naquela impaciência que a possuía. Estávamos no vestíbulo desejaria acrescentar, estávamos atrás do reposteiro, eu e o Leo, abraçados e imaginava a cena que estalaria àquelas palavras; mas seria a última; depois tudo acabaria… e fez um gesto de despedida ao seu leito. Amanhã dar-me-ei ao Leo e devia começar assim uma vida nova. Lembrou-se da mãe. E é com o teu homem, pensou, com o teu homem mamã que irei. Devia ser tudo impuro, sujo, baixo, não devia haver nem amor nem simpatia, mas somente um sentimento escuro de ruína. Criar uma situação escandalosa, impossível, cheia e cenas e de vergonhas, pensava, arruinar-me completamente. Parecia-lhe que estes pensamentos tristes já a haviam perdido. Para onde vai a minha vida, perguntava, olhando para o chão. O rosto de Michele iluminou-se de ironia, queres dar-me a grande notícia de que minha mãe tem um amante, pensou; sentiu um desgosto profundo por si mesmo e pela mulher. Tudo isto é ignóbil, pensava, com desgosto, mas assim que se sentaram derrubou Lisa sobre as almofadas como se quisesse possuí-la. Viu aquele rosto fechar as pálpebras brilhantes e abandonar-se a uma espécie de êxtase entre repugnante e ridículo; a impressão foi tão forte que todo o desejo desapareceu. Então, é mesmo verdade que não vens, perguntou ela, entre suplicante e incrédula; olhou-a, hesitou; tudo fora definitivamente inútil: desgosto, piedade; a mulher ficou onde estava, no seu erro. Tornar-se-ia amante de Lisa com as pequenas porcarias, pequenas baixezas, pequenas falsidades. Não há nada a fazer, são todas assim. Estas mulheres rígidas são sempre as mais ardentes.

 

Um diagnóstico preventivo

As sociedades atuais carregam hoje consigo fatores de grande indiferença perante processos e acontecimentos, condutas e comportamentos que abrem caminho aos Leo de todo o tipo. Nesse terreno desatento proliferam e, muitas vezes vingam, aqueles que nas ciências da psicologia e da psiquiatria se chama a neurose de caráter, o transtorno de personalidade psicopática, os sociopatas, o transtorno de personalidade dissocial, o transtorno de personalidade anti-social, o transtorno de personalidade narcísica, ou outra terminologia que prefiramos adotar. O Leo de ”Os Indiferentes” é um deles. Pleno de simpatia e sedução, manipulador, carrega por trás delas a ruina e o perigo que lhe subjazem. Procura apenas a sua gratificação e interesse, porque exclusivamente autocentrado na ideia grandiosa que tem de si próprio. Neles não existe o EGO como instância de mediação entre o ID e o SUPER EGO. Amorais e sem escrúpulos, apenas procuram o prazer e auto-satisfação. Já Teofrasto, aluno de Aristóteles, os caraterizou com “os inescrupulosos” e Thomas Man os definiu como personalidades anti-sociais. Vê-los assim, não se trata de fazer um diagnóstico, trata-se, sim, de ver um construto estabilizado. Como diz o provérbio popular “não é defeito, é feitio”, isto é, não é sintoma, é estrutura. O terreno da indiferença e da apatia, é o seu campo de granjeio. Quem não desmontar as suas aparências, cairá na desilusão da falsidade que é o seu ADN e nas malhas da ruina que carregam e em tempo útil colam ao “outro” que para eles apenas existe com essa finalidade.

 “Era preciso tentar depois do jantar, bater o ferro enquanto estava quente e não no dia seguinte …que Leo nos arruinou… e agora finge ser nosso amigo… mas não o é. Leo triunfava, apoderava-se do dinheiro da mãe; ele, pelo contrário, ficava de mãos vazias, pago com um brinde, com um abraço de coisas inconsistentes. Porque sei sempre adivinhar a tempo as intenções dos outros. Tenho tido muitas mulheres que nunca amei. A própria Lisa, tive-a sem a amar … e não obstante, nunca tive razões para me arrepender. Diverti-me tanto como com qualquer outra. Nenhuma ação de Leo, por muito perversa que fosse, conseguia abalar a sua indiferença; acabava sempre numa explosão de ódio, encontrar-se, como agora, de cabeça vazia um pouco apatetado, muito leve. É absolutamente impossível que eu ame Leo: é grosseiro, é material. Meditara a resposta como todas as pessoas que creem possuir perigosas reservas de malícia. Um autentico patife, repetiu, e sentiu-se gelar a sua própria voz que era fria e banal. A falsidade e a abjeção de que tinha a alma cheia, via-as nos outros sempre.

______________________________________________________________________

*1. Região tradicional da Itália central. Nome dado às mulheres dessa região. Nome do asteroide 21799. Ciocia: roupa tradicional para longas marchas na região dos Apeninos.

*2. Província italiana de fronteiras com Perugia, Mar Adriático e Montecassiano.

 

 

Outras obras de AM:

*2. A Macerata – 1941

A Romana – 1947

O Conformista – 1951

Contos romanos – 1954

Duas Mulheres – 1960

O Homem como fim (ensaio) – 1963

A Virgem guerreira – 1978

 

 

 

 

LETRAS @CORdadas

 

(Alberto Morávia – 1907/1990)

 

 

 

Alberto Pincherle Morávia nasceu em Roma filho de uma família da classe média. O pai era arquiteto e pintor. Ainda em criança contraiu tuberculose óssea que o forçou a abandonar a escola e passar por longos períodos de internamento. Estudou em sanatórios onde começou a adquirir o hábito da leitura que levava níveis obsessivos.

Aos treze anos já escrevia poemas e aos 22 escreveu o seu primeiro romance que publicou a expensas próprias, circunstância que fez dele um dos escritores mais precoces da literatura europeia contemporânea. “Os Indiferentes” (1929) é considerada a sua obra maior, logo seguida de outras de grande qualidade escritas na primeira parte da sua carreira, ao contrário das restantes da sua produção artística nas quais muitos críticos sugerem fazer algumas cedências ao excito fácil.

A obra e a escrita de AM foram influenciadas pelo teatro e têm carateristicas cinematográficas. Os indiferentes, A Romana, O Conformista, A Ciociara*1, (Duas Mulheres, 1960), foram algumas das suas obras adaptadas ao cinema por realizadores importantes e famosos: Luigi Zampa, Bernardo Bertolucci e Vitorio De Sicca. AM foi também jornalista en La Stampa e na Gazzeta del Popolo.

AM foi um cidadão empenhado politicamente, tendo sido eleito deputado europeu como independente pelo partido comunista italiano. Algumas das suas obras foram proibidas por Mussolini e colocadas no índex pela Igreja por assinalarem em forma de sátira a contemporização da burguesia e da Igreja com o regime deste ditador. Foi em 1929 que o regime de Mussolini se consolidou no poder pela mão da Igreja, através da assinatura da Concordata entre a Igreja e o Vaticano.

AM é considerado o primeiro escritor existencialista, avant la lettre, antecipando-se a Camus (O Processo) e a Sartre (A Náusea). A sua escrita desenvolve-se em ambientes e com personagens decadentes em termos éticos e morais e na esteira do neo-realismo italiano e europeu.

É hoje considerado provado historicamente que AM não foi laureado com o Prémio Nobel em 1958 por manifesta e decidida intervenção da CIA e por razões de natureza política derivadas dos conflitos ideológicos entre o ocidente e bloco soviético e subjacentes á guerra fria que nessa altura entrava em período de grande intensidade e virulência. O prémio foi entregue a Boris Pasternak pela obra Doutor Zhivago, que foi impressa e entregue à pressa pela própria CIA em Estocolmo. Este poeta e escritor russo havia caído em desgraça na União Soviética em 1930 e não foi autorizado a deslocar-se a Estocolmo para receber o prémio. Boris Pasternak é considerado o precursor da luta política aos gulags na União Soviética que, mais tarde, seria desenvolvida por outro grande escritor e também laureado com o Prémio Nobel em 1970, Aleksandr Solzhenytsin e outros dissidentes do regime soviético.

Quero hoje @CORdar “Os Indiferentes”, a primeira e mais notável obra de AM como dissemos acima. A história/tragédia decorre num espaço da 48 horas, com cinco personagens e num espaço restrito de quatro casas. As personagens são Mariagrazia, uma viúva da alta burguesia italiana que vive das aparências, num tipo de vida luxuoso e hipócrita e muito acima das suas reais possibilidades (“Fingir, pensou ela, voltando a fechar a porta com precaução. É justo fingir”); Carla, sua jovem filha de vinte anos que paira um pouco sem destino e na esperança que algo lhe transforme a monotonia existencial do vazio em que circula e vive (“Carla olhou-a quase com ódio. Como…, por exemplo, tornar-me amante de Leo, desejaria responder e imaginava, com um prazer triste e ávido, o pasmo, a indignação, o medo que despertariam aquelas palavras”); Michele, o segundo filho de Mariagrazia é um jovem cobarde, indiferente, infeliz, sem capacidade de reação, amorfo, abúlico e incapaz de romper com o que o rodeia e detesta, recaindo constantemente no abismo da apatia (indiferente) sempre que as oportunidades de ser diferente/trágico se lhe deparam. (“Quanto a Michele atormentava-o um mal-estar oculto. Era preciso vencer, uma vez por todas, a própria indiferença e agir. Desejaria viver naquela época trágica e sincera, desejaria sentir aqueles grandes ódios arrasadores, elevar-se àqueles sentimentos sem limites”); Lisa, é uma amiga da família e ex amante de Leo a quem caberá assumir e desenvolver a pouca energia psicológica circulante no enredo, através da rivalidade com Carla na conquista/reconquista de Leo (“Não é, concerteza uma senhora honesta. O senhor não pode conhecer senhoras honestas … uma cortesã qualquer, isso sim, qualquer rameira de ínfima ordem”); Leo finalmente, a figura em redor do qual tudo circula, porque a ele se devem os empréstimos à custa dos quais a família vive e que a partir desse facto irá desenvolver uma estratégia da dominação psicológica e manipulação existencial para se apoderar dos bens e do palacete em que a família vive: cínico, amoral, sem escrúpulos e seguro de si foi amante de Lisa, é-o de Mariagrazia e, vem a sê-lo também de Carla (“Como se eu pudesse esquecer a sua conduta para comigo… como se ele não tivesse mais nada a fazer senão aparecer para obter tudo o que quisesse”).

Nesta obra e num estilo direto, frontal, frio, de recortes intimistas e frequentemente apaixonado, estão psicologicamente subentendidas, teatralmente expressas e cinematograficamente disponíveis as quatro carateristicas essenciais do conjunto total da obra de AM e na qual “Os Indiferentes”, sendo a sua obra mais importante, é também considerada uma obra-prima da literatura decadentista: O tédio existencial, a imensa dificuldade, para alguns verdadeira impossibilidade, da comunicação real, efetiva e empática entre as pessoas, a alienação humana nas múltiplas vertentes que a mesma pode assumir e, finalmente, o sexo como substituto da comunicação e até da linguagem.

 

O tédio existencial

“Sempre irrepreensível, não faz mais nada senão divertir-se e não tem pensamentos de espécie nenhuma …compreendeu demasiado tarde ter sido lisonjeado e definitivamente troçado. Devia ter dito: imediatamente, pensou, fosse quem fosse teria feito assim, imediatamente e discutir, talvez injuriar. Tinha vontade de gritar de raiva, vaidade e indiferença: no decurso de poucos minutos, Leo soubera fazê-lo em ambos os abismos. E quando roubas, teria querido perguntar Michele, que vinha atrás dele; mas não sabia odiar um homem que, de má vontade, invejava. Tivera a nítida impressão de ver os seus quatro rostos, ali suspensos, naquele halo mesquinho; ali estavam, por conseguinte, todos os objetos do seu aborrecimento. Agora seria preciso responder-lhe à letra, injuriá-lo, fazer nascer uma bela questão e romper com ele no fim. Mas não teve sinceridade para isso; calma mortal, ironia, indiferença. Todos temiam com tédio e desgosto a tempestade mesquinha que adensava naquela luz tranquila do jantar. O hábito e o tédio estavam emboscados naquele corredor, tudo era imutável, tudo era repetição. Se soubessem como tudo isto me é indiferente! Um homem normal ter-se-ia ofendido e protestado, mas ele não… ele com certo sentido aviltante de superioridade e desprezo compassivo, ficava indiferente. Michele não falou, não bebeu, não respondeu ao brinde. Tinha a cabeça baixa e oprimia-o um desgosto odioso, mesclado de pesar e humilhação. Carla sentia-se possuída por um mal-estar como nunca experimentara, seguia-se o atordoamento e a náusea. Nunca mais, desejaria responder, mas deteve-a este pensamento: é preciso ir até ao fundo, até ao fundo da destruição. O que sou eu? Porque não corro, não me apresso como toda a gente? Porque não sou um homem instintivo, sincero, porque não tenho fé? A angústia oprimia-o. Desejaria ser como um dos que passavam, desejaria ter um fim qualquer, não patinhar assim de rua em rua por entre gente que tinha um. Suplicava um fim para aquele limbo de fracassos absurdos, de sentimentos falsos. …a busca de um caminho, o de todos, onde as ações são sustentadas por uma fé ou sinceridade. Mariagrazia, de olhos vítreos, assustada detida a meio do seu enfado loquaz, fitava aquele rosto sem piedade. Desejaria gritar, todavia, ficou imóvel e apavorada. Leo, fora de uma indiferença sem par. Mais uma boa ocasião perdida, dizia para consigo, para contender com ele, para romper com ele. Já não existem para ele fé, sinceridade, tragédia. Tudo lhe parecia através do seu tédio, digno de dó, ridículo e falso. Cólera, ira, ódio. Todas as riquezas do mundo por um pouco de ódio sincero.

 

A não comunicação:

Michele não se movia; nunca lhe acontecera ver o ridículo confundir-se a tal ponto com a sinceridade, a falsidade com a verdade; apoderava-se dele um embaraço odioso. Oprimia-o uma náusea leve e fastidiosa, como quando se sente desenvolver-se o vómito e se quer detê-lo; no fim de contas ela é como eu, serviu para o induzir finalmente a um pouco de compaixão com aquela figura de mentirosa sem necessidade. Somos todos iguais, entre todas as maneiras de fazer uma coisa, escolhemos sempre a pior. Isto é demais, pensou, isto é trazer-me pelo beiço. E amanhã será a mesma história, volta amanhã. O desejo de destruição era mais forte que o desgosto; soube, porém, em vez disso ficar triste e irónica. Deixaria que a família se arruinasse ou se fizesse manter por Leo.

 

A múltipla alienação:

“…queres provocar uma briga. Tenho muita pena mas digo-te imediatamente que não resulta. Se fosses um homem saberia como responder-te… mas és um rapaz sem responsabilidades. Por isso o melhor que podes fazer é ir para a cama e aconselhares-te com o travesseiro. Tinha a impressão que a maré dos pequenos acontecimentos daquele dia estava para transbordar e para submergir a sua paciência; semicerrava os olhos e espreitava com tolerância as caras estúpidas e irritadas dos outros quatro. A incompreensão da mãe dava-lhe o sentimento doloroso de uma cegueira e de uma escuridão em que todos se encontravam envolvidos sem esperança de libertação. Como a mãe alicerçava sobre o erro todas as suas construções, inspirava-lhe sempre uma piedade desgostosa. Tu, mamã, queres ver-me sufocar… eu prefiro a ruína, sim, entendes? Há-de voltar, disse Leo. Eu conheço-o, não é dos que fazem as coisas a sério, há-de voltar podes ter a certeza. Mas havia nas costas um pouco curvadas da mãe, uma resolução teimosa de não se voltar para a verdade. Sentia-se indiferente, como sempre, especulativo e indiferente. Cansada de se examinar, a si e aos outros; não queria perdoar, não queria condenar, a vida era o que era e era melhor aceitá-la do que julgá-la, que a deixassem em paz. Não fiz nada. Agitou-o um frémito de medo. Não amei a Lisa, não matei o Leo, não fiz senão pensar …eis o meu erro. E a vila? E a hipoteca? Mas na verdade, que restava que Leo não houvesse já apanhado?

 

O sexo como substituto da comunicação:

A brincadeira tornava-se-lhe agora dolorosa, enterrava-se como um espinho naquela impaciência que a possuía. Estávamos no vestíbulo desejaria acrescentar, estávamos atrás do reposteiro, eu e o Leo, abraçados e imaginava a cena que estalaria àquelas palavras; mas seria a última; depois tudo acabaria… e fez um gesto de despedida ao seu leito. Amanhã dar-me-ei ao Leo e devia começar assim uma vida nova. Lembrou-se da mãe. E é com o teu homem, pensou, com o teu homem mamã que irei. Devia ser tudo impuro, sujo, baixo, não devia haver nem amor nem simpatia, mas somente um sentimento escuro de ruína. Criar uma situação escandalosa, impossível, cheia e cenas e de vergonhas, pensava, arruinar-me completamente. Parecia-lhe que estes pensamentos tristes já a haviam perdido. Para onde vai a minha vida, perguntava, olhando para o chão. O rosto de Michele iluminou-se de ironia, queres dar-me a grande notícia de que minha mãe tem um amante, pensou; sentiu um desgosto profundo por si mesmo e pela mulher. Tudo isto é ignóbil, pensava, com desgosto, mas assim que se sentaram derrubou Lisa sobre as almofadas como se quisesse possuí-la. Viu aquele rosto fechar as pálpebras brilhantes e abandonar-se a uma espécie de êxtase entre repugnante e ridículo; a impressão foi tão forte que todo o desejo desapareceu. Então, é mesmo verdade que não vens, perguntou ela, entre suplicante e incrédula; olhou-a, hesitou; tudo fora definitivamente inútil: desgosto, piedade; a mulher ficou onde estava, no seu erro. Tornar-se-ia amante de Lisa com as pequenas porcarias, pequenas baixezas, pequenas falsidades. Não há nada a fazer, são todas assim. Estas mulheres rígidas são sempre as mais ardentes.

 

Um diagnóstico preventivo

As sociedades atuais carregam hoje consigo fatores de grande indiferença perante processos e acontecimentos, condutas e comportamentos que abrem caminho aos Leo de todo o tipo. Nesse terreno desatento proliferam e, muitas vezes vingam, aqueles que nas ciências da psicologia e da psiquiatria se chama a neurose de caráter, o transtorno de personalidade psicopática, os sociopatas, o transtorno de personalidade dissocial, o transtorno de personalidade anti-social, o transtorno de personalidade narcísica, ou outra terminologia que prefiramos adotar. O Leo de ”Os Indiferentes” é um deles. Pleno de simpatia e sedução, manipulador, carrega por trás delas a ruina e o perigo que lhe subjazem. Procura apenas a sua gratificação e interesse, porque exclusivamente autocentrado na ideia grandiosa que tem de si próprio. Neles não existe o EGO como instância de mediação entre o ID e o SUPER EGO. Amorais e sem escrúpulos, apenas procuram o prazer e auto-satisfação. Já Teofrasto, aluno de Aristóteles, os caraterizou com “os inescrupulosos” e Thomas Man os definiu como personalidades anti-sociais. Vê-los assim, não se trata de fazer um diagnóstico, trata-se, sim, de ver um construto estabilizado. Como diz o provérbio popular “não é defeito, é feitio”, isto é, não é sintoma, é estrutura. O terreno da indiferença e da apatia, é o seu campo de granjeio. Quem não desmontar as suas aparências, cairá na desilusão da falsidade que é o seu ADN e nas malhas da ruina que carregam e em tempo útil colam ao “outro” que para eles apenas existe com essa finalidade.

 “Era preciso tentar depois do jantar, bater o ferro enquanto estava quente e não no dia seguinte …que Leo nos arruinou… e agora finge ser nosso amigo… mas não o é. Leo triunfava, apoderava-se do dinheiro da mãe; ele, pelo contrário, ficava de mãos vazias, pago com um brinde, com um abraço de coisas inconsistentes. Porque sei sempre adivinhar a tempo as intenções dos outros. Tenho tido muitas mulheres que nunca amei. A própria Lisa, tive-a sem a amar … e não obstante, nunca tive razões para me arrepender. Diverti-me tanto como com qualquer outra. Nenhuma ação de Leo, por muito perversa que fosse, conseguia abalar a sua indiferença; acabava sempre numa explosão de ódio, encontrar-se, como agora, de cabeça vazia um pouco apatetado, muito leve. É absolutamente impossível que eu ame Leo: é grosseiro, é material. Meditara a resposta como todas as pessoas que creem possuir perigosas reservas de malícia. Um autentico patife, repetiu, e sentiu-se gelar a sua própria voz que era fria e banal. A falsidade e a abjeção de que tinha a alma cheia, via-as nos outros sempre.

______________________________________________________________________

*1. Região tradicional da Itália central. Nome dado às mulheres dessa região. Nome do asteroide 21799. Ciocia: roupa tradicional para longas marchas na região dos Apeninos.

*2. Província italiana de fronteiras com Perugia, Mar Adriático e Montecassiano.

 

 

Outras obras de AM:

*2. A Macerata – 1941

A Romana – 1947

O Conformista – 1951

Contos romanos – 1954

Duas Mulheres – 1960

O Homem como fim (ensaio) – 1963

A Virgem guerreira – 1978

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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