Letras @CORdadas – Agustina Bessa-Luís

por Miguel Alves | 2014.02.21 - 16:44

 

Ninguém, provavelmente, lê todos os livros que possui durante a sua vida. Comigo isso acontecerá. Tenho por hábito e exigência, ler completamente todos os livros que começo a ler. Mesmo que isso me exija um elevado esforço. Recordo o último em que tal me aconteceu quando li “Ficções”, de Jorge Luís Borges. Foi obra de curiosidade, esforço e teimosia. A memória que dele guardo é essa mesma. Valeu-me por isso e pelo elevado apreço que fiquei a ter pelo génio de quem o escreveu.

Vou ao longo destas modestas crónicas revisitar algumas das minhas leituras, para que, o que delas guardo se consolide mais e leve os leitores a cobiçá-las. Não sou, nem pretensões de tal alimento, crítico literário ou algo próximo disso. Apenas quero reviver algumas das emoções associadas ao que li, as luzes, sombras e trevas que neles encontrei e o mundo que me ajudaram a construir, ver, idealizar ou rejeitar. E sempre em busca da condição humana.

Em todos os livros que leio, interessa-me pouco a ideia e a história que presidiu à sua construção. Valorizo pouco os actores, a construção do enredo, a sua evolução, os seus caminhos e percursos, os acidentes, traumas, crimes, amores, ódios e desenlaces. Interessa-me a condição humana nas suas diversas matizes. Como são e porque o são em si mesmos e com os outros. Perguntar-se-á se é possível separar isso da acção concreta dos actores/personagens. Se calhar não, mas é a síntese dessa acção, o retrato resultante dela, que para mim identifica essas matizes humanas e não a acção como dado autónomo. São os valores e desvalores universais do homem, que o eternizam, independentemente dos factos concretos havidos e das acções realizadas na sua afirmação/violação/negação. É a paleta diversa e policroma do amor e do ódio, do ciúme e da inveja, da amizade, da traição e da fidelidade, da paz e da guerra, da violência individual, grupal e cósmica nas suas diversas cambiantes, da vida e da morte, do erro e da culpa, das inúmeras estruturas humanas e psicológicas em que a acção humana assenta e que a psiquiatria e psicologia nem sempre abrangem.

 

“Quem lê quer saber; quem não lê quer errar

(Pe. António Vieira-1608.1697)

 

Quero hoje falar desse monumento das Letras Portuguesa que é Agustina Bessaa-Luís. Foi com ela que assentei esta forma de ler. Não identifico nem recordo em pormenor quase nenhuma das histórias que os seus livros contam, apesar de já ter lido um elevado número de obras suas. Aliás, a sua forma de escrita pouco convida a isso. Ela não conta histórias (a excepção relativa que eu conheço é “Eugénia e Silvina” que gira à volta de um acontecimento judicial importante da segunda metade do século XX em Portugal), ela constrói, acompanha, retrata, caracteriza, sintetiza e interpreta personagens e os seus contextos com tanto vigor e clarividência, que os seus actos e a história que constroem são liminarmente secundarizados por elas próprias, quase abstraídas deles. Como se elas existissem, independentemente daquilo que fazem ou fizeram para o ser. Além disso, Agustina, frequentemente, estabelece fracturas na narrativa e no seu tempo que, para quem quiser seguir de forma mecanicista o seu desenrolar, leva muitas vezes à perplexidade. Não é fácil, ás vezes, encontrar coerência, lógica, sequência e continuidade. Presumo que para ela isso não é importante. Ela viaja, essencialmente, para as profundidades do oceano humano, independentemente das suas marés individuais, do seu volume e dos seus efeitos.

Nenhum autor português retrata as contradições, virtudes e percalços humanos como ela. Com ironia muitas vezes, sarcasmo também e poder-se-á até dizer com uma aparente perversão. Com um olhar acutilante, penetrantemente interpretativo, fulminantemente sintético nas suas formas aforísticas das diversas estirpes do humano ser, que muita psicanálise não alcança. Ao retrato profundamente psicológico da condição humana patente na sua escrita, só falta em muitos casos, a terminologia técnica psicanalítica. Quanto ao resto está lá tudo ou quase. “Não se pode acreditar no que dizem os autores. A ficção encobre as verdades mais evidentes. Quanto mais perto está o narrador das grandes pastagens do inconsciente, mais a verdade está ao seu dispor …lobbies políticos e sexuais sem os quais não haveria concertação nas diversas mesas, átrios, corredores e gabinetes do poder …de ciúmes que tinham o valor de uma moeda de corrente …As crise e os escândalos recuavam quando chegavam à medula do desejo e do medo …reconhecidas pelo que tinham de inexplicável e que não pertencia á área da economia e do ventre social …qualquer coisa de inabalável e que fazia da sociedade dos homens uma infiltração de acordos profundos de prazer e desprazer …o acto anti-social que é o agente de todos os impulsos do inconsciente e não só dos impulsos destruidores”.

Sendo um habitante profissional do território da Justiça, espantou-me a forma sagaz como ela se envolve numa análise profunda do crime e da culpa e na dependência mútua que ambas têm entre si em “ANTES DO DEGELO” 1. Com o génio de o fazer em paralelo, quase comparativamente, com uma das grandes obras da literatura universal, “CRIME E CASTIGO”, de Dostoiyevsky e entre a estrutura psicológica, formas de agir, pensar, racionalizar, mecanismos de defesa, a acção e os seus resultados de Genaro e Raskolnikov. Com Cláudia e a velha usurária, como vítimas.

Agustina afirma que o crime é o desfalecimento da vontade e da razão. “Mas não se pode chamar enfermidade ao facto de a razão terminar pelo acto criminoso, mas um regresso ao estado primitivo”. Aqui se encontra uma perspectiva curiosa de Agustina que a psicanálise analisa em outros cenários: “em geral comete-se o crime para se ser castigado, e não se é castigado porque se fez o mal … levava ao extremo o desejo da punição pelo que os actos interditos eram os mais praticados …O desejo inconsciente do crime está em todos nós… Convive-se com a ternura e os actos que são ditados por ela. No fundo, bem no fundo, não resistimos ao prazer de conhecer as atrocidades deste mundo. Para lhes dar legalidade, atribuímo-las aos nossos inimigos. Mas não há inimigos. Todos somos sedentos de sangue”. O acto criminoso é, assim, uma componente arcaica, primitiva e profunda da condição humana, onde muitos têm que ir em busca da culpa e da punição da sua parte má. “O desejo da punição proporciona o impulso do crime …mas conservar intacta a culpa. Ela habita-nos para coisas grandiosas. Ele não se arrependia da sua culpa. A culpa, a opção do homem e sem a qual ele não é nada …A culpa é o maior de todos os excitantes …A culpa tem uma imensa força sexual…A angustia era como um desejo que lhe arrepiava a pele. Sentia-se culpado e isso, como moralidade, dava-lhe mais prazer do que a boçal linguagem dos outros rapazes e das suas experiências sexuais…As pessoas estão a tornar-se falhadas porque já não têm nada de que culpar-se”. Como se a culpa de alguns fosse necessária para identificar a nossa virtude e a dos outros. Como se fossem o negativo uma da outra. O falhanço de muitas vidas estará na ausência de culpa por factos importantes. Apenas cometemos erros que, aparentemente, não se prestam a qualquer crime. Também a prisão, qualquer que seja o seu espaço ou figurino, existe porque a liberdade existe. “ Se não fosse a gente besta não havia espaço para sermos melhores que eles”.

Não lhe escapa também muita curiosidade doentia, veiculada por alguma imprensa que vende, por isso, bem como já vimos parcialmente acima: “não resistimos ao prazer de conhecer as atrocidades deste mundo …Há um processo mágico em todo o crime e, uma vez cometido, começa a ser objecto de curiosidade. A curiosidade é um atentado reprimido”.

Esta obra situa-se historicamente antes do 25 de Abril. Uma das personagens descritas com um profundo rigor psicológico é um informador da polícia política. “Se pudesse mandava todos para a prisão e atirava fora a chave; perito nos olhares silenciosos com que registava tudo. Não lhe escapava o vestuário de um suspeito, nem a sua maneira de andar ou inclinar a cabeça O informador tinha sempre razão. Se não fosse a culpa de cada um não se podia andar neste mundo de cabeça levantada”.

Também os portugueses são objecto do seu olhar perfurante: “Os portugueses falam muito. São verbosos, curiosos como os gatos e as crianças, e dedicam-se à história dos vizinhos e da maneira como se relacionam com eles … a compaixão parece predominar sobre o julgamento das pessoas e a avaliação dos erros. Se Raskolnikov fosse do Porto não ia parar à Sibéria. É uma compaixão fictícia… há muitos motivos para trazer um machado debaixo do casaco… a gratidão é um sentimento a solo. Não pode ser atribuído a um povo inteiro… espécie de derrotismo fingido que é próprio dos portugueses”. Tem expressões lapidares sobre a corrupção de que tanto se fala e que, afinal, para ela é componente tão profunda da nossa condição: ”povo que rouba não faz nação …sem escândalo nem temor não se fazem reinos …Não se entende como se prega tanto contra vícios pequenos. Eles evitam os grandes. Mas não. Querem uma sociedade limpa e sem mancha nos pulmões, toda a gente é culpada na especialidade …A grandeza de alma é um acepipe raro, como as ostras”.

O amor e a relação entre os homens e mulheres é tema recorrente em todas as suas obras. Fá-lo muitas vezes com uma espécie de uma ironia salgada que nos espanta e quase agride, mas num segundo tempo nos concilia parcialmente, perante a sua, nossa, muitas vezes, verdade: …”o amor precisa de milagres … nunca ninguém casa completamente …o prazer das lágrimas que as mulheres conhecem tão bem …As mulheres gostam de mentiras. Arriscam tudo para serem enganadas …os homens têm necessidades e as mulheres pressentimentos do amor e do resto …Se queres prazer junta-te a uma mulher que tenha da juventude mais recordação do que brios. Ela sabe alegrar-te sem parecer que obedece … Os homens não vivem bem sem as mulheres; precisam delas para serem crédulos a respeito deles próprios …escondiam os amores com tanto ardor como se os desvendassem …as mulheres tinham-se tornado uma realidade quando dantes eram uma espécie de reembolso duma mercadoria que se perdeu pelo caminho …Elas estão sempre a desejar a nossa queda duma maneira ou doutra. Atraiçoam-nos mas não com os outros homens. Com elas próprias …aquele homem que tinha em si profunda maldade e extraviados desejos, sonhava com uma rapariguinha decente e pobre …é muito difícil saber o que nos leva a preferir as feias. Não é nada de bom. As feias têm mais razão para ser ciumentas e isso agrada mais a um homem que uma cara bonita como um quadro …um quadro é para emoldurar na parede e não para fazer parte da família …Mas os homens não se interessam por mulheres bonitas. Só os rapazinhos, elas são um chamariz e pouco mais …As bonitas só pensam nelas, as feias só pensam em agradar como os cães vadios …o amor depende de uma poção mágica que por acaso se bebe e basta para que seja indolente e disposto a morrer de grande ou pequena morte. É um fanatismo da espécie …o amor é uma invenção recente. Temos curiosidade pelo prazer mas não chegamos à virtude do prazer …se encontrarem uma rapariga que goste de rir mesmo quando está em dificuldade, prestem atenção nela. E se, além disso, gostar de lavar a loiça, casem com ela, não a deixem então escapar …Achava-a sã de espírito e até inteligente demais para ser interessante. Que a sabedoria não traz encanto no rosto …porque a bondade dos homens não está em serem puros mas serem calados como o melão ”.

Em síntese, Agustina associa uma escrita brilhante (tenho uma imensa dificuldade em acreditar que ela nunca corrigiu aquilo que escreveu e o publicado é a primeira vaga; o génio será, provavelmente, isso mesmo…), irónica e muitas vezes sarcástica e corrosiva. Muito, muito pessoalmente, num fundo de grande melancolia, muito próprio de quem toca a condição humana tão fundo (“se não morrêssemos nunca, não podíamos suporta a vida”).

 

 

 

1. “ANTES DO DEGELO”, Agustina Bessa-Luís.

Guimarães Editores, Porto, 2004.

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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