LETRAS @CORdadas

por Miguel Alves | 2014.05.21 - 20:47

Vitor Hugo (1802-1886)*1

A Europa vive hoje um dos seus períodos históricos mais conturbados. Pensamos nós que único, raro e o mais decisivo. Não é assim. Quero hoje convidar os leitores a @CORdarem uma das obras menos conhecidas de um dos maiores vultos das letras universais e que a mim me fascinou: “HISTORIA DUM CRIME” (1877/188) *2 de Victor Hugo.

É um livro sobre a Europa e sobre parte do seu fascinante e decisivo século XIX. Decisivo porque condicionou e condiciona toda a evolução da Europa até aos dias de hoje. É um livro sobre a guerra e a paz, a democracia e a autocracia/totalitarismo, a economia e o desenvolvimento e a política em muitas das suas formas de expressão: desde as mais nobres ás mais vis e execráveis. Um livro sobre o homem e a natureza humana na pena de um dos mais notáveis, lúcidos, perspicazes, empenhados e visionários europeus da nossa pré União Europeia.

Em síntese, o livro relata minuciosamente (VH era deputado e um dos activistas mais notáveis da democracia representativa): a chegada ao poder de Luís Bonaparte (Napoleão III, sobrinho de Napoleão I), primeiro como Presidente da Republica e depois, através de um golpe de Estado, auto proclamado Imperador dos franceses que foi durante 18 anos; as lutas pelo poder, as traições, os heróis, os assassinatos, a carnificina resultante, o papel da Igreja; finalmente, a derrota e queda humilhantes de LB na batalha de Sedan ás mãos de Bismarck, Chanceler de Francisco José Imperador da Prússia (Setembro de 1870). No final do livro, VH lançou um olhar visionário e optimista sobre o futuro da França e da Europa, onde emergia a unificação do Império Alemão, mais tarde de todos os Estados alemães, que iria desembocar na I Guerra Mundial, depois na II, quem sabe agora na III, de dominação e subjugação diferentes, sem armas mas com muitos biliões como armamento.

“LB não tinha paixão alguma. Nele, o holandês acalma o corso: Um homem que espreita o acaso, espião tentando ludibriar Deus. Possuía a fantasia lívida do jogador que trapaceia. A trapaça admite a audácia e exclui a cólera. Para ele não havia na terra senão interesses. LB não tinha confianças inúteis. Perdoava porque explorava; esquecia tudo porque calculava tudo. …Encerrado na premeditação, conversando com doçura em um morticínio necessário; sofrera o resfriamento profundo de Machiavel. Toda a sua política resumia-se nisto: esmagar os republicanos e desprezar os realistas”

VH caracteriza também os principais colaboradores de LB de forma subtil, mas carregada de um profundo sentido político, humano e psicológico. Se levarmos a cabo uma análise psicológica mais fina, encontraremos na caraterização que VH faz da entourage social e política de LB, algumas das invariantes da condição humana, independentemente das suas épocas históricas e também bem visíveis em estruturas psicológicas atuais e contextos similares:“Merimée era naturalmente vil; não lhe queiramos mal por isso. Quanto a Morny era outra coisa, valia mais; havia nele o que quer que era de salteador. Era corajoso. Ofício de salteador obriga. Pode-se crer em Morny e não em Merimée. Morny entrava nos grandes segredos, Merimée nos pequenos. Além de Vieillard havia Vaudrey. Nestes casos, um coronel de conspirações, pôde ser um general de emboscada. Havia Fialin, o duque cabo de esquadra. Havia Fleury, destinado à glória de viajar ao lado do Czar sobre uma nádega. Havia Lacrosse que de liberal passara a clerical, um desses conservadores que levam a ordem até ao embalsamento, e a conservação até à mutilação. Mais tarde foi Senador. Havia o Cónego Coquereau que disse do Eliseu que aí se podia dizer a uma princesa o que não se podia dizer a uma mulher na rua. Havia Fartoul que conhecia todos os mastros, inclusive o do conhaque. Havia os Auvergnats que se odiavam. Um alcunhara o outro de caldeireiro melancólico. Havia Abbatucci, uma consciência que deixava passar tudo. Havia Suin, um bom conselheiro para as más ações. Havia o Dr. Véron, o qual tinha na cara o que os outros homens do Eliseu tinham no coração. Havia Billaul, um estadista de mediocridade superior. Em todos eles, discursos repletos de traição e o Eliseu alimentava-se com o que mata os outros. No Eliseu, uma certa lealdade era considerada uma eloquência”.

“Quem lê quer saber; quem não lê quer errar”

(Pe. António Vieira-1608.1697)

 

Neste processo de conquista do poder, LB criou em 1849 com fins beneficentes, a Sociedade 10 de Dezembro que veio a ser a base de todo o apoio político que lhe permitiu o golpe de Estado de 2 de Dezembro de 1851 com o qual destituiu a Assembleia Nacional da Segunda República Francesa. Era constituído pelo lúmpen proletariado teorizado por Marx: uma classe social desintegrada e flutuante, sem escrúpulos, que apenas cria enriquecer, constituída por fortunas duvidosas, militares desligados das Forças Armadas, aventureiros, bastardos, ex presos, foragidos e devassos ligados à prostituição. Na luta política contra os democratas e a aristocracia constitucional na Assembleia, LB utilizou os dezembristas quase como partido pessoal para fazer chantagem política, intimidar e ameaçar adversários e levar a cabo todo o tipo conspirações e assassinatos.

Pressionado pela Assembleia, LB dissolveu a Associação mas ela continuou a existir em semi clandestinidade e a apoiar os seus sonhos absolutistas.

Na parte final do livro, VH recupera o optimismo e lança o futuro: “Esqueçamos este homem e contemplemos a humanidade. A invasão da França pela Alemanha foi um efeito da treva. Espantou-se o mundo que tanta treva pudesse sair de um povo. As fronteiras… Haverá fronteiras daqui a vinte anos? As vitórias! O porvir pertence ao livro e não à espada. O futuro pertence á vida e não à morte!”

Este “efeito da treva” alemão, viria a repetir-se na I guerra mundial em 1914 e na II em 1939 com o fenómeno do nazismo que constituiu uma verdadeira “fractura civilizacional” no coração do velho mundo civilizado e ainda hoje inexplicável (Gunter Grass). Este célebre escritor alemão e Nobel da literatura em 1999, surpreendeu o mundo no final da sua vida num livro autobiográfico (“Descascando a cebola”) que gerou uma enorme polémica e onde confessa a sua participação nas Waffen SS (tropa regular de elite comandada por Himmler, responsável pela segurança pessoal de Hitler e dos guetos nos territórios ocupados) do regime nazi.

Quero acabar a crónica de hoje, exactamente, com o último parágrafo deste livro: “Um dia, não muito remoto, que não virá longe, as sete nações que resumem toda a humanidade, aliar-se-ão, como as sete cores do prisma, em uma radiante curva celeste. Aparecerá, eterno e visível, acima da civilização, o prodígio da paz, e o mundo contemplará, fascinado, cheio de deslumbramento, o imenso arco-íris dos Povos Unidos da Europa”.

Aparte algum chauvinismo, em França tão antigo como a própria França (nações que resumem toda a humanidade), VH sonhou o que todos ainda hoje sonhamos: uma União Europeia de facto. O fim definitivo do “efeito da treva” e a instalação desse imenso arco-íris de paz, cooperação e solidariedade. Pós todos os LB, Otto de Bismarck que se têm sucedido aos verdadeiros e em escala, muitas vezes, tristemente bem reduzida.

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*1 VH exilou-se após o golpe de Estado de 2 de Dezembro de 1851 em oposição a Napoleão III (LB) que condena vigorosamente por razões politicas e morais. É neste período que escreveu este livro. Viveu exilado em Jersey, Guernsey e Bruxelas. É o único proscrito a recusar a amnistia decidida algum tempo depois: « Et s’il n’en reste qu’un, je serai celui-là »

É interessante referir aqui o que VH escreveu sobre Portugal e a propósito da abolição da pena de morte de que o nosso país foi precursor: “Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos”.

Cronologia da abolição da pena de morte em Portugal

Abolida para crimes políticos em 1852 no Ato Adicional à Carta Constitucional de 5 de Julho, sancionado por D. Maria II.

Abolida para crimes civis em 1867 no reinado de D. Luís, exceto para crimes de traição durante a guerra (Lei de 1 de Julho de 1867). Continuava a existir no Código de Justiça Militar

Abolida para todos os crimes, incluindo os militares em 1911.

Readmitida em 1916 para crimes de traição em tempo de guerra.

A sua abolição total ocorreu em 1976.

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*2 Guimarães e Cª – Lisboa, 1958.

 

Existe um outro livro importante sobre este período da história de França e da Europa: “La Débacle” de Émile Zola, outro notabilíssimo escritor francês de que um dia falaremos. Este livro retrata pormenorizadamente a batalha de Sedan que decidiu a guerra franco prussiana com uma vitória retumbante de Bismark sobre LB.

 

Outras obras de VH:

Odes et Poésies Divers (1822);

Notre Dame de Paris(1831);

Napoleon le Petit(1852);

Les Misérables (1862);

Quatrevingt-treize (1874).

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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