Letras @CORdadas

por Miguel Alves | 2014.09.27 - 22:27

 

 

Gabriel García Márquez (1927/2014)

Prémio Nobel de literatura em 1972

 

Após termos viajado em recente crónica pelo norte do contingente americano para revisitarmos William Faulkner, descemos hoje para o sul do mesmo continente para @CORdar o seu maior vulto literário. Apesar de ter falecido muito recentemente, ele não necessitará de ser @CORdado. Ele não morrerá nunca porque a sua obra será eterna: Gabriel García Márquez.

Colombiano de nascimento, filho de um coronel combatente da guerra civil * 1, cedo se apaixonou pelas tradições indígenas daquele continente. Na sua juventude foi educado no rigor, exigência e profundidade da Companhia de Jesus. Cursou direito sem acabar e recebeu formação em jornalismo por exigência da força avassaladora que a escrita tinha dentro de si.

A sua obra mais notável é “CEM ANOS DE SOLIDÃO” (1967) que é considerada uma das obras-primas da literatura universal e o paradigma do chamado realismo mágico onde também se enquadra um outro nome notável da literatura sul-americana: Jorge Luis Borges. Vou hoje, a par deste seu expoente maior, falar um pouco mais desta corrente literária, coisa que não fizemos quando escrevi sobre Salman Rushdie que também é incluído nela, como nesse texto foi dito.

O realismo mágico não equivale a uma literatura mágica. Antes, à expressão de emoções concretas a partir de uma atitude especifica face á realidade. Desenvolveu-se a partir dos anos 60 como consequência de duas visões do mundo que sempre conviveram na América hispânica e portuguesa: a cultura tecnológica e a cultura da superstição. Estilisticamente, o realismo mágico tenta misturar e tornar verosimilhantes, na sua estrutura interna e mais profunda, o irreal e o quotidiano, o mágico mas intuitivo com o não explicável, a realidade com algumas das suas conotações não explicadas, o quotidiano muitas vezes transformado em experiências fantásticas e sobrenaturais. No realismo mágico o tempo é mítico, fora do tempo dos homens (tempo concreto), abordado ciclicamente e fora da racionalidade moderna, fazendo com que o presente se repita como passado e sempre envolto em arquétipos e alegorias. O realismo mágico compartilha também algumas carateristicas com o chamado realismo épico

O realismo mágico é também considerado com uma resposta latino-americana à literatura fantástica europeia, bem como o reflexo da reação do seu mundo das letras aos regimes ditatoriais e aos rumos políticos e sociais que a América latina desenvolvia nessa época. Ao mesmo tempo, o realismo mágico demarca-se das vanguardas europeias do início do século XX, como a atitude niilista da realidade e o surrealismo, este último a que nos referimos quando escrevemos sobre a “decadência do paradoxo” de Pitigrilli.

Li “Cem anos de solidão” nos finais dos anos 80, altura da primeira edição portuguesa (1988). Recordo hoje a sensação de ter sido uma leitura marcante, sem no entanto guardar até hoje muito da sua mensagem, história e estrutura narrativa. Com a morte recente de García Márquez resolvi revisitar esta obra e o meu espanto foi o equivalente à dimensão deste livro: sem fim porque eterno. No universo da literatura hispânica, “Cem anos de solidão” só é comparável a “Don Quixote de la Mancha” de Cervantes.

“Quem lê quer saber; quem não lê quer errar”

(Pe. António Vieira-1608.1697)

 

“Cem anos de Solidão” relata a epopeia de sete gerações da mesma família: a família Buendía que é fundada numa superstição secular: as relações sexuais e o casamento entre primos em primeiro grau geraria filhos com rabo de porco. Mesmo assim, apaixonados, José Arcádio Buendía rapta a sua prima Úrsula Iguarán, dando origem a três filhos saudáveis, que iniciam a saga de cem anos de solidão de uma família a que os seus membros terão sido condenados, após os quais se extingue e numa cidade inexistente. “…a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no momento em que Aureliano Babilónia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo o que neles estava escrito era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra. Aqui está a DIVINA PROVIDÊNCIA, apregoava. Não a deixem ir embora, porque só chega uma vez em cada cem anos”.

 

Este fundador, José Arcádio Buendía, atravessa pântanos, vales e terras encantadas para fundar a sua própria cidade e aí viver feliz com a sua família: Macondo será uma cidade mítica, isolada porque fora de todos os mapas e por onde, de tempos a tempos, transitam ciganos que trazem novas da sua própria raça ou por ela inventadas e novas de todo o outro mundo. Melquíades é o patriarca destes ciganos que irá ensinar ao patriarca Buendía alguns segredos de alquimia e outros da sua própria linhagem. É uma personagem decisiva na narrativa: é segundo as previsões dos seus pergaminhos que tudo irá ocorrer segundo a díade do fenómeno existencial: cosmos e caos. Estes dois patriarcas, juntamente com mulher do primeiro serão os protagonistas de toda a trama que GGM desenvolve com uma mestria ímpar e arrebatadora.

Esta cidade fictícia será o palco por onde irão passar e desenvolver-se todas as representações da condição humana e as relações, mais ou menos viscerais, que entre ela se criam, desenvolvem, interrompem, explodem ou morrem.

Na narrativa espraiam-se todo o tipo vivências e dramas de uma sociedade arcaica, expressas nas angústias, esperanças, revoltas, vitórias, derrotas e morte dos seus habitantes. Num cenário de fundo bem focalizado, consciente e comprometido que é a sociedade colombiana desse tempo e de forma ainda mais abrangente todo o continente sul-americano. Macondo não passa de uma alegoria da América latina onde o conformismo, o imobilismo social, alienação e a passividade perante a sua invasão pelos americanos aglutinou ainda mais os seus habitantes em torno do seu primitivismo patriarcal. Por isso, a força esmagadora do realismo mágico desta obra inigualável é tamanha, que obriga a uma leitura exigente para identificar a sua sincronia critica com as realidades do seu tempo e lugar e a que quer reportar-se.

Não temos a impossível pretensão de abarcar a imensidade das questões que esta peça única da literatura universal levanta e desenvolve. Vamos por isso selecionar algumas que numa perspetiva subjetiva e singular consideramos importantes:

  1. O tempo e a sua vivência social e psicológica.
  2. A liderança social e política.
  3. A intervenção social que GGM pretende levar a cabo com esta obra no contexto da Bolívia e da América Latina do seu tempo.

 

  1. O tempo e a sua vivência social e psicológica.

Nas civilizações arcaicas, o tempo é heterogéneo com duas carateristicas diferentes: O tempo é linear quando o passado, o presente e o futuro são vividos como circunstâncias e acontecimentos profanos. As coisas acontecem umas atrás das outras, de forma simples e sem implicações e conexões para além dos simples factos; por outro lado, pode ser cíclico quando ele decorre em circunstâncias e acontecimentos encarados no mundo do sagrado e repetidos ciclicamente em períodos diferentes, em locais e pessoas diversas. Este tempo cíclico pode ser infinito ou limitado. (toda a saga de “Cem anos de solidão” ocorre num tempo cíclico limitado: (100 anos/solidão). Em qualquer dos casos, este tempo tem sempre carateristicas míticas, já que transcende e ultrapassa as circunstancias, os acontecimentos e os factos concretos.“… foi perdendo o sentido da realidade e confundia o tempo atual com épocas remotas da sua vida ao ponto de, em certa ocasião, ter passado três dias a chorar desconsoladamente pela morte de Petronila Iguarán, sua bisavó, enterrada há mais de um século. Úrsula conversava com os seus antepassados sobre acontecimentos anteriores à sua própria existência. Chegou a misturar de tal maneira o passado com a atualidade que nas duas ou três lufadas de lucidez que teve antes de morrer, ninguém soube ao certo se falava do que sentia ou do que recordava. Era a história da família escrita por Melquíades até nos pormenores mais triviais, com cem anos de antecedência. Melquíades não tinha ordenado os factos no tempo convencional dos homens, mas concentrou um século de episódios quotidianos, de modo que todos coexistiam no mesmo instante”.

 

  1. A liderança social e política.

Na cidade de Macondo, existe uma fusão simbólica entre esta e o seu líder. Com este facto cria-se uma identidade coletiva construída na fantasia daquilo que se pensa o líder ser, ao mesmo que tempo que é visível a dissonância dessa identidade em muitos acontecimentos e, ás vezes, clarividente em alguns dos seus habitantes.

Sendo uma cidade primitiva e arcaica, os seus habitantes projetam na sua liderança, de alguma forma, algumas componentes também arcaicas da natureza humana, situando-se nelas o que de mais invariante a mesma possui. Esta projeção “ideal” e a identificação dela resultante, equivale à projeção e identificação psicanalíticas que em processos terapêuticos é necessário construir para depois desconstruir para a consciência da realidade.

Também as lideranças sociais e políticas atuais funcionam nesta plataforma: na construção da fantasia de conhecermos e acreditarmos no que não conhecemos ou apenas conhecemos muito parcialmente, por corresponder aos nossos ideais ou parte deles. Tal só é possível por nos situarmos no território do inconsciente e das componentes mais primitivas e arcaicas da condição humana.

Às lideranças modernas exige-se aquilo que nem sempre se vê: superioridade do saber, força de vontade, solidez catoniana de convicções, firmeza ideológica, confiança em si e nos outros e carisma (Michels, R.). O problema das elites é, seguramente, um dos mais sérios problemas do nosso país e desde longa data que remonta, segundo alguns autores, ao século XVI.

Articulado com as lideranças sociais e políticas, está o progresso e o desenvolvimento, tal como o arcaísmo, o atraso e a estagnação das sociedades e a manipulação dos seus fatores construtivos e desconstrutivos. Muitas das desilusões dos cidadãos com estas lideranças resultam do “setting” em que as esperanças/ilusões são construídas e que acima sintetizámos. “A embriaguez do poder começou a desfazer-se em rajadas de desgosto. Sentiu-se disperso, repetido e mais só que nunca. A normalidade era precisamente o mais espantoso daquela guerra infinda: é que não acontecia nada. Mais vale estar morto do que ver-te feito um tirano. …era mais fácil começar uma guerra do que acabá-la. Escapou a catorze atentados, setenta e três emboscadas e a um pelotão de fuzilamento. Sobreviveu a uma dose de estricnina. Recusou a Ordem de Mérito. Chegou a ter jurisdição e poder de uma fronteira á outra e ser o homem mais temido pelo governo. Nunca permitiu que lhe tirassem uma fotografia. Declinou a pensão vitalícia que lhe propuseram e viveu até à velhice dos peixinhos de ouro que fabricava na sua oficina de Macondo. A única coisa que ficou de tudo isso foi uma rua como seu nome em Macondo. Aqui te deixamos Macondo, disse antes de partir. Deixamos-te bem. Faz com que a encontremos melhor”.

 

  1. A intervenção social que GGM pretende levar a cabo com esta obra no contexto da Bolívia e da América Latina do seu tempo.

A sociedade colombiana retratada na cidade de Macondo está baseada no sonho do líder e pouco na realidade. O líder sonha e esta acompanha-o no sonho. Se este o não fizer, ela não o fará também. No livro, o sonho é a fuga a uma realidade e a luta por uma outra sociedade na Bolívia oposta a um realismo progressivo representado pela colonização da companhia bananeira. “Vamos ganhar. Os trabalhadores… começaram a sabotar a sabotagem: incendiaram fazendas e armazéns, destruíram carris para impedir o trânsito dos comboios”.

 

Encadeada com o sonho coletivo, surge a peste da insónia, um dos grandes acontecimentos ocorridos em Macondo. Ela começa pela atribuição de um nome a todas as coisas aí existentes por parte de JAB, já que os habitantes o esqueciam. Ao fazê-lo, introduz a questão do signo linguístico que, pela sua arbitrariedade, pode conduzir à alienação: as coisas e o seu nome podem ser infinitas e por isso chegar-se à impossibilidade de fazer coincidir o seu nome com cada uma delas. Tal poderia conduzir ao conhecimento do nome das coisas sem delas reconhecer a utilidade. Como mensagem, fica evidente a eventual discrepância entre o sentido e utilidade das coisas, dos factos e dos acontecimentos e a possibilidade de haver uma outra realidade (social e política). “Visitación reconheceu nesses olhos os sintomas da doença cuja ameaça os tinha obrigado, a ela e ao irmão, a desterrarem-se para sempre de um reino milenar onde eram príncipes. Era a peste da insónia. …porque o seu coração fatalista lhe indicava que essa doença a havia de perseguir de qualquer maneira até ao último recanto da terra. A índia explicou-lhes que o mais temível da doença era a impossibilidade de dormir, pois o corpo não sentia nenhum cansaço até chegar a uma manifestação mais crítica: o esquecimento. …começavam a apagar-se da memória as recordações, o nome da coisas, a noção das coisas, a identidade das pessoas e até a própria consciência do ser até se afundar numa espécie de idiotia sem passado. …até ao terceiro dia, quando, á hora de se deitarem, se sentiram sem sono e se deram conta que estavam há mais de cinquenta horas sem dormir. Sentiu-se esquecido, não com o esquecimento remediável do coração, mas com esse outro esquecimento mais cruel e irrevogável, porque era o esquecimento da morte. Foi Aureliano quem concebeu a forma que havia de os defender durante vários meses das evasões da memória. JAB decidiu construir a máquina da memória. Em todas as casas se tinham escrito chaves para memorizar os objetos e os sentimentos. Mas o sistema exigia tanta vigilância e resistência moral, que muitos sucumbiram ao feitiço de uma realidade imaginária. Mediante este recurso, os ísones começaram a viver num mundo construído pelas alternativas incertas”.

 

Também a chuva diluviana que arrasa Macondo durante quatro anos, onze meses e dois dias, que simboliza o “arrasamento” de uma sociedade e a esperança que ela possibilitasse a criação de uma outra após a destruição da cidade antiga, primitiva e arcaica, carrega muito do imobilismo, conformismo e indiferença dos seus habitantes. Porém, essa esperança não irá ter concretização. “O céu desmoronava numas tempestades calamitosas e de norte chegavam uns furacões que arrancaram telhados e derrubaram paredes e desenterraram pela raiz os últimos talos das plantações. Como aconteceu na peste da insónia, que a Úrsula lhe deu para recordar naqueles dias, a própria catástrofe ia inspirando defesas contra o tédio. O único médico que restava em Macondo, era o francês extravagante que se alimentava com a erva dos burros. Viu, com uma impotência surda, como o dilúvio foi exterminando sem misericórdia uma fortuna que em tempos se considerou a maior e mais sólida de Macondo, e da qual apenas restava a pestilência. Já só havia seis quilos de carne salgada e um saco de arroz no celeiro. …quando a chuva começou a acalmar e as nuvens se foram abrindo, e viu-se que de um momento para outro que iria clarear. …iluminou-se o mundo com um sol tonto, vermelho e áspero como o pó de tijolo e quase tão fresco como água e não voltou a chover durante dez anos. Da antiga cidade aramada apenas ficaram os escombros. As casas pareciam arrasadas por uma antecipação do vento profético que anos depois haveria de apagar Macondo da face da terra. Os sobreviventes da catástrofe, os mesmos que já viviam em Macondo antes desta ser sacudida pelo furacão da companhia bananeira, estavam sentados no meio das ruas a gozar os primeiros sóis. A Rua dos Turcos era outra vez a de outrora. Os árabes da terceira geração estavam sentados no mesmo lugar e na mesma atitude dos pais e dos avós, taciturnos, impávidos, invulneráveis ao tempo e ao desastre, tão vivos e tão mortos como depois da peste da insónia. …perguntou-lhes de que recursos misteriosos se haviam valido para não naufragarem na tormenta, como diabo tinham feito para não se afogarem: a mesma resposta: a nadar”.

Numa outra fase marcante do livro, esse imobilismo e conformismo associados ao medo, ou dele consequência, irão ter efeitos que à luz das sociedades modernas seriam impossíveis de tolerar e a reconstrução de Macondo deveria exigir: a prisão de José Arcádio II, bisneto de JAB, líder de uma greve na companhia bananeira, o seu transporte em comboio juntamente com “mais de três mil” habitantes de Macondo (do qual este consegue fugir) e o seu assassínio (deitados ao mar). “… a tensão política estalou sem qualquer aviso. José Arcádio Segundo e outros dirigentes sindicais, que haviam permanecido na clandestinidade até então, apareceram intempestivamente num fim-de-semana e organizaram manifestações nas aldeias da região bananeira. Rebentou a greve geral. Eram três regimentos cuja marcha pautada por um tambor de galeras fazia trepidar o chão. Eram pequenos, maciços, brutos. Suavam com suor de cavalo e tinham um cheiro a carne crua macerada pelo sol e a impavidez taciturna e impenetrável dos homens do páramo. Não se fez nenhuma tentativa de conciliação. …o exército tinha colocado ninhos de metralhadoras em volta da praceta e a cidade armada da companhia bananeira estava protegida com peças de artilharia. …o decreto nº4 assinado pelo general Carlos Cortes Vargas classificava os grevistas de quadrilha de malfeitores, dando ordem ao exército para os matar à bala. Mais um minuto e abre-se fogo. Cabrões, gritou. Oferecemos-lhe o minuto que falta. Os cadáveres tinham a mesma temperatura que o gesso no Outono e a mesma consistência de espuma petrificada, e quem os colocara no vagão tivera tempo para os arrumar na ordem e no sentido em que se transportavam os cachos da bananeiras. Tentando fugir ao pesadelo, José Arcádio Segundo arrastou-se de um vagão para outro, via os mortos homens, os mortos mulheres, os mortos crianças que iam ser deitados ao mar como os desperdícios das bananas. Quando chegou ao primeiro vagão deu um salto no escuro e ficou estendido na valeta até o comboio acabar de passar. Era o mais longo que jamais vira, com quase duzentos vagões. Não levava qualquer luz e deslizava a uma velocidade nocturna e sigilosa. Em cima dos vagões viam-se os vultos dos soldados com as metralhadoras em posição”.

Uma outra realidade humana tratada neste livro é a cegueira para, em termos simbólicos remeter para a cegueira social e política dos habitantes de Macondo: “vencida pela decrepitude ninguém descobriu que estava cega. Empenhou-se numa calada aprendizagem das distâncias das coisas para continuar a ver com a memória. …descobriria o auxílio imprevisto dos cheiros que se definiram nas trevas como uma força muito mais convincente que os volumes e as coisas. Soube, com tanta segurança, o lugar onde se encontrava cada coisa que até ela se esquecia que estava cega. Contudo nessa impenetrável solidão, teve a clarividência para analisar até os mais insignificantes acontecimentos da família que, pela primeira vez, viu claramente as verdades que as suas ocupações de outros tempos tinham impedido de ver. Se não seria preferível deitar-se de uma vez na sepultura e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para aguentarem tantos sofrimentos e mortificações”.

 

Esta cegueira, medo, é expressa de forma dolorosa e contida pela indiferença com que os habitantes de Macondo reagem ao assassinato de “mais de três mil” dos seus habitantes: “Aqui não houve nada. Desde os tempos de meu tio, o coronel, não acontece nada em Macondo”.

 

Até a violência totalitária do regime fomentou a cegueira social e psicológica: “os militares negavam-no aos próprios parentes das vítimas que invadiam os gabinetes dos comandantes à procura de notícias: Foi seguramente um sonho, insistiam os oficiais. Em Macondo não se passou nada, nem passa, nem se passará nunca. Esta é uma aldeia feliz. Assim consumaram o extermínio dos chefes sindicais. No momento em que lhe passou pelos olhos a rajada de luz da lanterna do oficial, José Arcádio Segundo compreendeu que aquele momento era o fim de uma ansiedade e o princípio de outra que só encontraria alívio na resignação”.

 

GGM mudou a ótica do mundo em relação à América latina. Após a sua morte, o presidente da república da Bolívia, Juan Manuel Santos, afirmou: ”Mil anos de solidão e tristeza pela morte do maior colombiano de todos os tempos”.

Por cá, vivemos hoje tempos de solidão dorida e dolorosa num cenário de integração numa União que constitui o maior desafio, o sonho mais ambicioso e o projeto político e social mais notável de todo o século XX a nível planetário.

Completar-se-á ele no século XXI?

Em Macondo nada resultou de novo após a peste da insónia, depois do dilúvio, após a tentativa de “libertação das liberdades”, dos direitos humanos, do esforço de coesão e de solidariedade. Tudo acabou em sucessivos duzentos vagões em direção ao mar. Lá, nada se passou. Macondo sempre viveu feliz.

Foi a Bolívia e na América Latina. Há muitos anos, dir-se-á.

E as lições da história? E o Estado Islâmico? E a Ucrânia? Que significa a vigilância aérea dos Estados bálticos pela força aérea da NATO?

No Macondo lusitano, a solidão entre o eu e o outro é cada vez maior e mais densa a animosidade para além do espaço vital individual.

Para cada ano desta nossa solidão, uma década de solidariedade para que chegados ao fim dos nossos “Cem anos de solidão” (“qual antecipação de um vento profético”), a estirpe não seja extinta e o nosso Macondo não seja “arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens”.

 

Outras obras de Gabriel García Márquez

Olhos de cão azul – 1947/1955

La Hojarasca – 1955

Os funerais da mamã grande – 1962

Ninguém escreve ao coronel – 1968

O Outono da Patriarca – 1975

Crónica de uma morte anunciada – 1981

O amor nos tempos de cólera – 1985

O general no seu labirinto – 1989

Doze contos peregrinos – 1992

Do amor e outros demónios – 1994.

 

*1 Historicamente está enraizada no assassinato de Jorge Gaitán, um líder político populista dos anos 40 (1948). Foi sempre considerada uma guerra de baixa intensidade. Desse assassinato resultou uma forte repressão anticomunista que lhe estava latente, patrocinada pelos USA. Por influência da revolução cubana nos anos 60, intensificou-se a radicalização da guerrilha camponesa liderada pelo Exército de Libertação Nacional (ELN). Nos anos 80 a guerra ganha um novo protagonista: o tráfico de droga através das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC ou FARC-EP – Exército do Povo). Ambas as fações financiaram a sua luta armada através de sequestros com os quais obtiveram avultadas quantias, tendo tido alguns deles um forte impacto mediático internacional. Também nos anos 60 (1968), o governo colombiano aprovou uma lei que possibilitava a criação de milícias paramilitares para fazer frente aos guerrilheiros. Estas milícias acabaram por transformar-se em forças paramilitares com uma orientação política de direita que, não obstante a posterior revogação da lei, se instalaram nesta guerra como força ativa e depois denominadas Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC).

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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