Leituras e desleituras

por Ana Albuquerque | 2014.04.21 - 19:25

“ (…) la lecture est une forme d’action. Nous mobilisons la voix, l’être entier de l’œuvre. En revanche nous la laissons pénétrer en nous, non sans réticences d’ailleurs. ( …) Il faut être prêt à prendre de grands risques pour bien lire (…). Quiconque a lu la Métamorphose de Kafka et peut se regarder dans un miroir sans broncher, sais sans doute “ lire ”, au sens technique du terme, mais demeure analphabète ” George Steiner, Langage et silence (1969)

Comungando destas afirmações de Steiner, há duas atitudes de leitura: uma que envolve riscos porque nos torna vulneráveis; outra, tecnicamente hábil, mas incipiente, inócua, pela ausência de efeitos.

Para nós, o leitor, na verdadeira aceção, no seu encontro com o texto (e com o autor) não volta a ser inocentemente o mesmo. A verdadeira leitura é a que propicia o nosso aprofundamento como ser, como pessoa.

Há livros que nos penetram de tal forma que nos impõem mudanças, recapitulações, “aparições” de nós a nós próprios (Vergílio Ferreira). Alguns dão-nos tantos safanões que precisamos de tempo para nos refazermos do susto ou do deslumbramento, por exemplo, Cem Anos de Solidão, de Garcia Marquez!

O autor não ignora o leitor, antes o procura, mesmo quando, através da escrita, busca a autocatarse ou escreve sob impulsos de ordem confessional. A publicação da obra, as notas, as epígrafes, as dedicatórias, os prefácios, todos os elementos paratextuais configuram essa busca.

No plano da teorização literária nem sempre foi atribuída uma função de relevo ao leitor, neste processe dinâmico de comunicação. O biografismo romântico privilegiou o emissor/autor empírico; o historicismo positivista acentuou a figura do autor; o formalismo hipervalorizou a relevância da mensagem, o texto; o estruturalismo polarizou a atenção no uso da língua, no código. A partir da década de 60, desenvolveu-se a chamada “estética da receção” que defende que a historicidade de recetor não pode nem deve ser ignorada ou desqualificada.

O texto só se constrói na sua fruição por um sujeito. O texto reclama um leitor. A leitura de um texto literário, de modo particular, só se realiza na “fusão de dois horizontes” (Jauss): o horizonte implícito no texto e o horizonte concretizado pelo leitor, por cada um, no ato de leitura.

Para nós, parece-nos de toda a justiça que se faça uma síntese de todos estes paradigmas. O caminho deve ser o da tríade autor-texto-leitor.

Realidade poligonal, um texto nunca está completamente lido!