Leituras do silêncio

por Ana Albuquerque | 2014.11.30 - 22:02

 

O que é o silêncio?

A ausência de palavras? Aquilo que as palavras não conseguem dizer? O indizível? O implícito? O que se adivinha?

Jogo de interrogações, jogo de palavras para tentar dizer aquilo que é a sua ausência.

O silêncio pode ser entendido como uma manifestação de ceticismo. Crátilo renunciou ao uso da palavra por considerá-la inadequada ao real, preferindo indicar com o dedo os objetos que o rodeavam. Pode ser uma demonstração de “certeza muda”, para os pré-socráticos, ou um “silêncio libertador”, proposto por Nietzche, perante a certeza trágica da inadaptação do discurso à existência humana.

Num sentido teológico, quem não sabe calar, para refletir, não tem capacidade para testemunhar a verdade. O silêncio exige fortaleza, prudência. No campo ascético, o silêncio é frequentemente cultivado como mortificação da língua e representa a condição essencial para o crescimento da vida espiritual. A palavra foi criada no seio do silêncio. O silêncio é o princípio e será o fim.

Na música, o silêncio é a ausência de som. Mas como pode o som existir sem a ausência em que se inscreve? Na melodia, como separar o som e o silêncio, como apagar a sua cumplicidade?

George Steiner lembra-nos que quanto mais calamos mais falamos. Eugénio de Andrade acusa a banalização das palavras, por estarem “gastas, envelhecidas, envilecidas. Fatigam, exasperam. E mentem, separam, ferem. Também apaziguam, mas é tão raro”. Vergílio Ferreira pede-nos “Não ouças só as palavras que ouvires, ouve-lhes também o silêncio, se o tiverem”.

Na pintura, a ausência de cor, na tela branca, é tão significativa quanto o seu preenchimento.

E na poesia? “ A poesia é sempre voz em luta íntima com o silêncio de onde nasce e para onde reflui uma vez nascida. É no lábil espaço entre dois silêncios, metáfora ou eco de cada existência, que a poesia existe (…) ”, diz-nos Eduardo Lourenço.

Há silêncios ameaçadores que nos agrilhoam no tempo. Lembremos todos os mecanismos inquisitoriais, todas as formas de ditadura, todos os espaços de negação da palavra, da negação do humano. São a prefiguração do abandono, a afirmação da intolerância, a voz da guerra, o medo calcinado no rosto da morte.

O silêncio é significativo: « Se taire ce n’est pas être muet, c’est  se refuser de parler, donc parler encore », afirma  Sartre.

Às vezes, nesta Babel de palavras, de máquinas de falar, de teclar, apetece-nos, paradoxalmente, o silêncio!