Leituras de abril na poesia de Manuel Alegre

por Ana Albuquerque | 2014.04.08 - 14:35

 

José Carlos de Vasconcelos apresenta, amanhã, dia 9 de abril, simbolicamente, no Quartel do Carmo, em Lisboa, uma antologia poética de Alegre à qual o poeta deu o nome de País de Abril, título de um dos seus poemas de Praça da Canção (1965). Atente-se na premonição mágica de Abril de 74.

Abril tão triste neste País de Abril. Aqui

A noite. Aqui a dor. Meninos velhos

– Minha pátria a chorar como quem ri

Em surdina em silêncio. E de joelhos.

A propósito do convite para essa apresentação, apeteceu-me partilhar algumas linhas de leitura que me parecem adequadas ao momento que, passando, eterniza a “Trova do vento que passa”, e nos faz continuar a dizer “Não!”.

Em muitos poemas que Alegre escreveu, antes (e depois) do 25 de Abril, são inúmeros os vocábulos que se repetem, denunciando o encarceramento da pátria prisioneira, a naufragar no medo e nas trevas. Lisboa era (é) a sinédoque do país, do estado em que este se encontrava (encontra) e que o poeta desesperadamente rejeitava (rejeita):

– Minha pátria vestida de viúva

Entre as grades e as chuvas das cidades. (“País de Abril”, Praça da Canção, 1965).

O poeta personifica a tristeza de um país parado, “de olhos no chão”, de “mangas de alpaca”, de “ombros curvados” e culpabiliza-a por este mal-estar coletivo. A eterna suspeita, os olhares vigilantes, o silêncio comprometido e comprometedor caracterizam a pátria que urgia (urge) libertar do jugo da opressão. E, então, os cantos de luto tornam-se também de luta:

Por que não corres tristeza?

Por que não cantas não gritas

Não acendes tua mágoa

No meio de cada praça

Nem transformas este sono

Em raivas punhos e pedras

Com que partas à pedrada

A redoma onde prenderam

Talvez a vida quem sabe? (“Canto da nossa tristeza”, Praça da Canção, 1965)

O poeta serve-se, muitas vezes, de metáforas históricas para ilustrar o encarceramento do país e a necessidade de lutar contra a tirania. Veja-se esta “Carta de Manuelinho de Évora a Miguel de Vasconcelos, ministro do reino por vontade estranha”, no país sob o domínio filipino, e estabeleçamos algumas analogias com o tempo que vivemos:

São estas as notícias que te dou

Na minha pátria prisioneiro mas de pé.

Vai dizer ao teu rei que o meu preço não é

O baixo preço por que te comprou

(…)

E se a pátria confundes eu distingo-a:

A pátria não és tu mas este povo

Que não entende as leis que ditas noutra língua. (Praça da Canção, 1965).

A rejeição da situação política de marasmo em que o país se encontrava (encontra), fez (faz) dele um poeta resistente que encontra na palavra a via da luta. Os seus primeiros livros foram escritos na clandestinidade e passaram de mão em mão, manuscritos, denunciando este sentimento de um país perdido em si próprio. Recorde-se O Canto e as Armas, 1967.

O poeta invoca muitas vezes, ao longo de toda sua obra, figuras emblemáticas da luta pela liberdade, para que assistam à degradação moral e ideológica deste “país em inho”, expressão decalcada da ironia lancinante de O’Neill, do “País relativo”, do “Cibinho mastigado devagarinho” e reconhece que, após a euforia dos primeiros momentos, que se seguiram à Revolução, tudo voltou ao que era dantes e, por isso, continua a não encontrar o seu lugar. Parafraseando Gedeão, cantado por Manuel Freire, que o acompanhará, amanhã, na apresentação deste livro, confirma que os sonhadores estão, sempre estiveram, a mais:

E por isso perguntas para quê

Para quê as renúncias os exílios

O heroísmo até? Ah é verdade : o sonho.

“Eles não sabem que o sonho” por isso

Estão a mais. E tudo como dantes. (“In mezzo del camin”, Babilónia, 1983)

Podemos interrogar-nos, com ele, com mágoa, “Que farei com este cravo?” 40 anos depois, o canto da desolação persiste. Continua a saudade do que afinal não foi ou ainda não é:

Vi o Abril que ganha e Abril que perde

Abril que foi Abril e que não foi

Eu vi Abril de ser e de não ser.

 

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)

Abril de Abril despido (Abril que dói)

Abril já feito. E ainda por fazer. (“Abril de sim, Abril de não”, Atlântico, 1981)

Com a publicação (republicação) de muitos poemas nesta Antologia, Alegre, o poeta, e Alegre, o político, reafirmam um apelo profético, numa intertextualidade evidente com “Nevoeiro” da Mensagem de Fernando Pessoa:

Pois falta aqui o verbo ser. E sobra o ter.

Falta a sobra sobre a falta. Ó Proletários da tristeza

Falta a ciência mais exata: a poesia.

E há muito já que um poeta disse: É a hora

Neste país de aqui. Neste país de agora. (“País em inho”, Atlântico, 1981)