Leitura silente e breve do conto “Silêncio”, de Sophia de Mello Breyner Andresen (1966)

por Ana Albuquerque | 2014.07.02 - 21:31

In memoriam

Uma mulher, Joana, é a protagonista. Depois de um dia intenso de trabalho, encontra, na tranquilidade de um entardecer de verão, a paz que procurava, a hora do silêncio que buscava, a hora da verdade do Ser: “Havia um grande sossego. Tudo estava arrumado e o dia quase pronto. (…) Um doce silêncio pairava como uma sede estendida. (…) O silêncio desenhava as paredes, cobria as mesas, emoldurava os retratos (…).”

Este silêncio desejado assume, poeticamente, contornos nítidos. Atentemos nas comparações animadas e na beleza das imagens conferidas por estas frases, quase versos: “O silêncio como um estremecer profundo percorria a casa (…). Era como uma flor que tivesse desabrochado inteiramente e alisasse todas as suas pétalas”. Uma flor, o silêncio, à volta da qual giravam todos os astros naquela paz serena do anoitecer.

Esta paz, esta serenidade interior, sofre, subitamente uma desordem. O silêncio é avassalado por um grito “um longo grito agudo, desmedido. Um grito que atravessava as paredes, as portas, a sala, os ramos do cedro”. Um grito que desorganizou os astros e desfolhou as pétalas, diríamos nós.

E novos gritos romperam, continuando a violar o silêncio: ” Era a voz de uma mulher, uma voz nua, desgarrada, solitária”. Uma voz que crescia ” (…) com fúria, raiva, desespero, violência”, rasgando fendas, abrindo feridas. Era uma voz, que solta contra o silêncio, revelava um abismo interior. Desafiava as portas da prisão, onde o marido se encontrava, diríamos nós, preso por defender a liberdade e um regime novo. Uma voz que queria abalar as paredes daquele edifício enorme, que enchia todo o lado esquerdo da rua, que sufocava todo o lado esquerdo da vida, diríamos nós, ainda. Aquele grito tentava rasgar o ventre da noite sem alma, onde homens nus eram crucificados.

Um homem pediu-lhe que se calasse, mas a mulher continuou o seu grito, querendo, com ele, atingir os confins do universo e “aí tocar alguém, acordar alguém, obrigar alguém a responder”. As portas e as janelas mantiveram-se cerradas e, do alto, nem mesmo Deus respondeu!

E a voz que se instalou na noite de repente calou-se. Transformou-se num ” (…) eco de soluços e de passos que se afastavam e diminuíam. Depois voltou o silêncio”.

Joana, a mulher nomeada, assistira a tudo pela janela aberta que dava para a rua: “Tudo agora, desde o fogo da estrela até ao brilho polido da mesa se tinha tornado desconhecido” e Joana atravessou como “estrangeira” a sua própria casa, o seu próprio reino. A paz que reencontrara no silêncio da tarde, depois de um dia intenso de trabalho, fora violada pelo silêncio da negação que oprimia a voz solitária daquela mulher, a voz de Sophia, gritando contra as algemas do tempo. Do nosso tempo, concluiríamos nós!