LAMENTAÇÃO SOBRE AS RUINAS DO “SOLAR DOS BRASIS”

por Alberto Correia | 2015.08.18 - 15:02

 

A história desse sugestivo memorial poético, dessa obra de arte que se impõe no remanso de uma paisagem que dobra da Beira para o Douro, o quase enigmático “Solar dos Brasis”, tem seu começo num milagre antigo que se relata nos quadrinhos pintados (ex-votos) que integram, dentro do ouro gasto das molduras, a talha barroca do sumptuoso retábulo da Capela de Nossa Senhora da Penha de França, anexa ao velho solar que pousa a deslado da aldeiazinha da Torre do Terrenho, do Concelho de Trancoso.

Na fachada da Capela, sumptuosa na sua silharia ora queimada do sol nas suas faces Norte e Nascente, uma inscrição correctamente desenhada junto ao pórtico ilustra a origem do monumento:

Esta Capela a mandou fazer para si e seus herdeiros Luís de Figueiredo Monterroio, Capitão da Armada, Guarda-mor e Procurador dos quintos reais que foi nas minas de oiro. 1726-27.

Acontecera que no ano de 1703 Luís de Figueiredo Monterroio, o velho senhor do Solar dos Brasis, que assim o deve ter chamado o povo ao vê-lo levantar, navegava com sua filha Úrsula Angélica ao largo das brasileiras terras da Baia quando uma tempestade ameaça desfazer a embarcação que comandava. E ei-lo prometendo uma capela à Senhora da Penha de França que efectivamente o salvou, voto que ele cumprirá mais tarde com os largos abonos havidos no desempenho do elevado cargo confiado pelo rei.

A solenidade da Capela revela-se no primoroso afeiçoado da cantaria, na sumptuosidade da talha do altar, nas pinturas dos caixotões do tecto, nos registos dos impressivos ex-votos que um dia requeri para Exposição alusiva, nas pinturas do patrono e no túmulo onde o doador que mais tarde se ordena sacerdote no cair da idade e ali repousa com sua filha. Revela-se ainda nessa harmónica integração na arquitectura do Solar com aquele equilibrado corpo voltado ao Nascente onde se impõe o gigantismo de uma torre concebida porventura como resguardado espaço de residência.

Quem ali vai espanta-se ao colher de longe a vista do Solar como se gigante de lenda fosse e ali estivesse desfalecido sobre a extensão ondeante das fazendas antigas confiadas aos cuidados de servos e rendeiros que garantiam a abastança do pão que enchia as tulhas, as rasas de castanhas que alimentavam a gente até ao Verão, a fartura das adegas de onde saiam carros de bois levando pipas a largos mercados.

Estive ali há poucos dias, ao findar da tarde, pude transpor a porta aberta sobre a estranha intimidade que ainda se evola do gigantesco pátio interior, o sol batia na ampla fachada do Poente onde a ruina se pressente e outra vez trazia o mistério da torre arvorada no ângulo do Solar, a galeria alpendrada para onde se subia por elevado balcão, fantasmas bons perpassando, num aceno. Áleas de buxo arruinadas, macieiras antigas que ninguém poda, madre-silvas sem cuidado, um forno aberto e onde já não cheirava a pão, pássaros ainda calados nessa hora de calor, o silêncio, um perturbante silêncio.

E eu lembro-me sempre, nestas circunstâncias, nestas horas, das profecias de Jeremias lamentando-se sobre as ruinas de Jerusalém deserta.