LAMENTAÇÃO SOBRE AS RUINAS DO CONVENTO DE S. FRANCISCO (CARIA – MOIMENTA DA BEIRA)

por Alberto Correia | 2014.12.14 - 14:41

 

 

Devia andar pelos sete ou oito anos quando fui pela primeira vez, com meu pai, à Feira de S. Francisco que todos os anos ocorre, ainda, no minúsculo terreiro que em tempos ladeou a velha Cerca dos Frades de S. Francisco, nas vizinhanças de Caria.

Esse era o tempo em que os meninos da Escola não faziam ainda visitas guiadas aos castelos, igrejas ou conventos. A evocação desses e de outros padrões de uma colectiva memória chegava-nos, nesse tempo, efabulada e como tal vitoriosa, pelos contos, à lareira, de avós, uma madrinha e nossos pais. E a meu pai que, lavrador da arada, me levara, com seis anos, a vez primeira, a um museu (Lamego), eu pedi que me mostrasse o convento que havia ali ao pé.

Meu pai subiu comigo ao alto da vizinha colina então vestida de pinhal e apontou ao longe o casario abandonado cujo desenho então não decifrei. Não fomos mais além, que adiante não era chão baldio.

Volvidos muitos anos lá cheguei, uma e outra vez. Levava-me Aquilino, o seu Roteiro feito texto mavioso na Via Sinuosa ou aprazível história de fradinhos na Geografia Sentimental. Ledo contar da entrega de uma Quinta pertencente ao nobre Pedro Gil, como ex-voto, talvez, era de 1443 e logo a igreja a nascer que dois anos depois se inaugurava. E logo depois o cenóbio, recolhida residência de trabalho e oração.

Ganhou fama este lugar, talvez devido aos monges santos, que os havia também de pecadores. E das esmolas lá deixadas e das benesses, que as houve, de rainha, e da fama deixada pela lenda que S. Francisco ali passou e bebeu da fontezinha que depois fizeram correr de um chafariz, o convento dos frades de S. Francisco prosperou. E foi então que se ergueram as modernas construções, a igreja arvorando solidez, o claustro de colunas bem lavradas, compridas naves com as celas, refeitório, biblioteca onde Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo estanciou algumas vezes.

Quando os frades deixaram o lugar forçados pela lei grave de um ministro deu a entrar o “caruncho” no lugar onde já não era igual o zelo dos novos guardiães.

Aquilino traça do convento uma memória efabulada, a de um tempo de uma jubilosa adolescência de tão fecundas experiências de vida, desde o sensível e recatado amor de Celidónia, à convincente e afectiva pedagogia de Padre Ambrósio. De Aquilino nos ficou a traça de um último retrato, mesmo que a tinta se tenha apagado com o tempo, como as pedras desviadas, o chafariz subvertido, os retábulos da igreja, as imagens dos altares, os móveis carcomidos, os livros feitos pasto de insectos ou papel para foguetes, apenas o monacal silêncio ali permanecendo como memória, estranha memória que tão bem se conjuga com a fantasmagoria da portentosa fachada da igreja que ninguém arrastou, mesmo sem o badalar dos sinos dando ecos de rebate.

Quanto baste, essa memória, para dar corpo à nossa lamentação.