“Laços de família”

por Amélia Santos | 2014.06.18 - 17:29

Uma história de sucesso…

Costuma dizer-se que a família não se escolhe e, portanto, tanto pode dar-se o caso de haver boas relações familiares, como más ou péssimas. Na grande maioria dos casos os problemas residem nas heranças e nos dinheiros, ou na ausência destes últimos. Outras vezes, transmitem-se os desentendimentos de geração em geração e os feitios parecem ser irremediavelmente incompatíveis. Mas também existem casos em que o entendimento e a harmonia familiar supera todas as desavenças e se sobrepõe a todo o tipo de males entendidos. Esse é o conceito ideal de família.

Há uma família que eu conheço bem que se encontra num meio termo. Há de tudo: os que se dão muito bem; os que se dão mais ou menos, dependendo das fases, e os que praticamente não se relacionam, pelos mais diversos motivos. No seio desta família existem vários irmãos. O mais velho leva 21 anos de avanço à mais nova. Nunca viveram juntos, nem existem grandes memórias de convívio nos primeiros anos de vida da caçula. Poderá até dizer-se que as distâncias que os separaram durante muito tempo preencheram as narrativas que se iam construindo à volta da (ausência de) relação entre os dois irmãos. Esse passado constitui hoje um conjunto de fragmentos, de recordações de um ou outro episódio mais marcante e que, na maioria das vezes, se pautava por falta de interesses em comum e até por um natural conflito de gerações.

Houve um dia, que certamente já nenhum recorda, em que todo esse panorama mudou de forma quase inconsciente e despercebida. Uma conversa e outra e outra, já numa fase da vida em que ambos são adultos, leva-os a sentir um gosto especial em ouvir e partilhar ideias e manter essa pessoa cada vez mais presente na sua vida. E, eis que se descobre uma grande cumplicidade. Uma cumplicidade especial, porque para além de todos os entendimentos e partilhas, transporta consigo laços de sangue e um passado familiar, que agora ganha uma renovada importância, à luz de uma maturidade que antes não existia.

De um irmão mais velho e distante, passa-se a um irmão, que é «pai» e conselheiro, que é amigo, que é cúmplice. Que passa a estar próximo, embora fisicamente distante. A quem se contam os episódios do quotidiano, mas também os problemas e as angústias. Com quem se repartem bons e maus momentos. A quem se ouve falar de política com conhecimento e argumentos, de forma honesta e coerente, como já não é habitual ouvir falar a muita gente. A quem se admira muitíssimo, pelo seu carácter e princípios, mas também pela sua cultura, pelo prazer de falar, contar e explicar.

Esse é o meu irmão mais velho, que hoje completa 62 anos. A quem vejo como um espelho, onde se reflete parte do meu feitio, da minha maneira de ser e do meu sentido de humor.

Obrigada por existires, assim, na minha vida!

 

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

Pub