Jingle Bell Rock

por Sofia Amaro | 2013.12.24 - 10:58

Fui acordada pelos helicópteros que sobrevoam o céu da cidade circundada pelos espíritos da nova ordem mundial, intelligentsia que alimenta escalas entre Washington e Bruxelas e compactuam com as hostes da Baviera. A dois quarteirões ouvem-se quadras natalícias, porque o tempo exaspera e não se alimenta a miséria com o pouco silêncio que nos resta, e eu vejo Antígona através da janela, cala-se para salvar a casa dos Labdácidas. Aqui no edifício fica a minha edícula, oratório que restitui silêncio à conspiração, aos impropérios ouvidos na boca dos cleptocratas. Desenho árvores e animais nos vidros embaciados, e nestes pensamentos imprecisos, neste medo, a história do homem transforma-se em metafísica. O silêncio que é, no advento, porvir e nascimento da palavra, torna visível o que pertence ao reino das sombras, como se as próprias coisas no observassem sem serem resgatadas. Em dia de cimeira, sem vocábulo ou gramática a acrescentar, vejo apenas através do escritório o equilíbrio singular da física e os homens a serem dirigidos por drones, veículos não tripulados que visam o ângulo perfeito, dizem os líderes. E é nesta liça, que a vida na sua contingência nos dá a conhecer o páramo, porque existem poetas e escritores que no seu reino silencioso manifestam a verdade do mundo. Ainda bem, são a minha salvação, porque hoje tive de correr, aturdida pelo barulho dos helicópteros, com os cães a farejarem os suspeitos do costume, os manifestantes por detrás das barricadas de descontentamento, as sirenes, o arame farpado, os ódios arrancados e do outro lado o clássico Jingle Bell, Jingle Bell, Jingle Bell Rock.

O barulho tornou-se ensurdecedor porque subsiste a conspiração que o silêncio não existe e o Natal deixou de ser tempo de nascimento para passar a ser quimera e êxtase. Este silêncio exige demasiadas respostas éticas, epistemológicas, e fica relegado para o refúgio último do poeta e do intelectual. Mas é nesta mística e nesta geografia que lhe é estrangeira que se articulam palavras vazias sob a esteira da razão e da técnica, lançam-se leis inconsequentes e a verdade não é restituída, é toldada pelo barulho, assim como naquele tempo totalitário cada vez mais próximo, muito próximo. Hoje ouvi o mal no latido destes cães. Eles têm medo da quietude, do deserto, da pastoril silente, eles farejam para perceber que afinal são os seus donos os próprios inimigos porque só a eles reagem. E enquanto metade do meu mundo continua barricado, do outro lado, num raio de alguns quilómetros, as pessoas compram os últimos presentes, comem pão de especiarias com chocolate a derreter por entre os dedos, e o silêncio do espaço sonega-se na abadia de uma recordação ou sob aquele altar onde ouvimos pela primeira vez as notas de uma escala diminuta, simetria acabada. Agora não posso sair do edifício, existem ameaças, estou próxima do fogo, e fico quieta e ao mesmo tempo espantada por esse assombro antigo, mistério borgeano. As horas passam sob a ameaça. Lá fora, no corredor de ferro, continua a sarabanda, o medo em ouvir os pássaros da manhã e os homens fazem ribombar no céu os hélices dos helicópteros, Jingle Bell, Jingle Bell, Jingle Bell Rock.

Sofia Amaro nasceu em Mirandela, Trás-os-Montes. Licenciada em Filosofia, pela Universidade Nova de Lisboa, traça o seu percurso académico na área das Relações Internacionais e envereda por um mestrado em Pedagogia na Universidade de Liége, Bélgica, país onde reside. Tem várias obras transversais à escrita, desde o cinema de animação, como argumentista e guionista do filme A Estrela de Gaspar para a Animanostra /RTP, à banda desenhada para a Pública (suplemento do Jornal Público) e Beraca em co-autoria com Pedro Brito, assim como outras publicações. A última como jornalista na revista belga La Revue Nouvelle. Tem uma relação umbilical com o teatro, dedicando-se várias vezes à leitura de autores como David Lescot ou como autora da peça A Cartografia do Medo. Recentemente publicou O Umbigo de Deus laureado com duas menções honrosas, o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes e o Prémio literário Alves Redol, e em breve termina um novo romance. Como um pêndulo continua a escrever sobre os indícios humanos, a natureza e a relação entre as esferas como um derradeiro sinal de metamorfose.

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