IRA

por PN | 2014.01.01 - 13:09

Ira-te

 

Acede à paixão da raiva

Agride com palavras cortantes duras cruéis

Retesa os músculos

E nas cordoveias

Golfa litros de suada seiva

 

Ferra as unhas na palma da mão

E com os hirtos ossos enclavinhados

Agride a punho todos os bardamerdas

E ri aos idiotas envergonhados

 

Agride-os também com os olhos

Cerra os dentes cospe o fel

Queima-os co’a ácida pulsão

 

Êxtase da inquietude

Sofrimento que se brande

Mágoa a que se alude

E se transmite urrando

E em crescendo bramindo

 

Uma violência um ardor

A bigorna do ferreiro

Onde o malho o ferro fere

Que chia e chispa o metal cru

 

Irado iracundo irascível

Estado de pré demência crível

Pávido modo de cuspir brochas d’ódio

Em foguetes de arraial

 

Ir’arte é uma explosão estética

Um paroxismo de fúria

A bestialidade mongol

A catadupa maléfica

A energia sem tento nem tino

Do núcleo de ti

 

Descontrole desrazão

Uma masseira sem pão

Inaptidão desafago

O silêncio centripetado

Em volúpias raivosas

Cilícios supliciantes

Na carniça suplicante

Uma agonia

 

Ira dor

Um irlandês zangado

Uma palavra basca de consoantes

Unívoca d’aspereza

Uma prece explosiva

Uma implosão orada

Rasgada dor

 

Orate agitação

Anti clímax da paz

Tal ciência tal premência

Tão uivada demência

 

Irar-te também

De conveniência

Num salão chic de chá

Engasgares-te ao veres entrar

O gigolo da tua noiva Prudência

Tão benilde e virgem-mãe

E borrifares de chá petardado

De migalhas inglesas

O peito da dona brocado

Que debica em polpa rubra

O vinho loiro adamado

Da porcelana pálida de sèvres

 

Um cavalo zangado

A escoicinhar uma parede de pedra

Num piaffer obsessivo

Uma longa birra d’urso

 

A ira é uma útil forma de eutanásia

Um avc emboliante

Uma inútil cirrose de abstémio

 

Um motivo-efeito-causa

Um defeito

O doido de Pascoaes

A marcha de Dantas

Uma punheta do Pacheco

O marin alcantarinado do Botto

O grito Nobre de Georges

Anjos caídos ao visconde

O férvido Amaro

A cândida fremência d’Amélia

Os copos d’Alba

Os lobos d’Aquilino

A folia de Gancho

A guerra do Junqueiro

A voz exausta de Camões

A desmamada moça de Bernandim

As cínicas Quybiricas de Quadros

O perfumado Pum d’Almada

As hiantes cartas de Mariana

E o canto que já foi de alegres armas

 

E isto não é o compêndio de literatura do Saraiva!

É um ensaio sério & trágico sobre a IRA

Para a revista Inútil

Porra!

 

Quanto a mim

— Ah, faltava o “eu”!

Sou do tipo ira inútil

Género plácida paixão

Em tédio entretecida

A casquinar seixos quinudos

Em sonhos arriscados

Na abulia morna

De um lençol sedoso

Como outra vida de Pessoa

Em Campos revolvida

 

— Oh que grande treta d’ira

Que tal sono me tomou!

 

 

(Publicado no nº I da Revista INÚTIL, Out. de 2009, dir. de Maria Quintans)