Ir a Lisboa «buscar olhos para ver»

por Eugénia Pereira | 2014.09.11 - 20:23

Ao ler o livro de memórias de Aquilino Ribeiro, Um escritor confessa-se, uma frase, de ressonância jocosa, chamou a minha atenção: «E, já que fora à cidade buscar olhos para ver, direi mesmo, sentidos para gozar a natureza, pela qual dantes passava com uma indiferença perfeitamente selvagem, gozava-a com todos os poros à farta». Essa cidade é Lisboa; essa natureza é a beirã.

Nado em terras beirãs, Aquilino fora um garoto «com o Diabo no corpo», um adolescente de «alma perdida», um jovem adulto de «porte iconoclasta» e um homem feito com «gosto de viver, (…) enraizamento no solo natal e amor à liberdade». Da serra da Nave partira, lançando-se pelo mundo, indo ao encontro do seu ser, numa luta contra o embuste, a injustiça e a hipocrisia religiosa. Primeira paragem: Lisboa.

Mas vejamos, antes, algumas situações que, por serem anedoticamente decisivas na vida de Aquilino, merecem ser contadas, já que estiveram na origem do primeiro destempero e questionamento existencial: ainda no Seminário de Beja, num sábado de vigilância afrouxada, Aquilino reunira-se com os colegas seminaristas para uma «orgia» de atum e sardinhas de conserva, quando um dos curas bateu à porta. Pelo facto de os quatro seminaristas demorarem a abrir, este acreditou que algo de lascivo se estava a passar. No dia seguinte, durante a confissão, o sacerdote pediu que ele confessasse as práticas concupiscentes da noite anterior, ao que o jovem soltou uma estrondosa gargalhada.

Este episódio, como tantos outros, não teria tido qualquer consequência, não fosse o prazer que sentia na transgressão e a afinidade que nutria com o meio alentejano:

 

O povo de Beja é irreligioso, não tivessem passado por ali os califas e impregnado para os séculos dos séculos o ar, as pedras, os cromossomas presentes e a vir de geração para geração, e com uma moral da vida e da morte – alfa e meta de tudo – diferente da mirrada e antiestética doutrina do Nazareno.

 

A inevitabilidade da descristianização estava, pois, a tornar-se evidente, mas nunca fora isenta de questionamento, de angústia e de pesar. As noites tornar-se-iam longas e difíceis de passar, acometidas pelos «demónios azedos da existência» que lhe sussurravam ao ouvido: «Mas que há-de ser de ti?». Estas suas dúvidas iriam levá-lo a uma luta pela vida, por uma vontade própria ativa.

Contudo, as férias no lar amansaram-lhe a alma e, no regresso ao Seminário, estava decidido a calar, dentro dele, as vozes de Sancho Pança e de D. Quixote, manipulando-o um pela imaginação e o outro pela razão. Estava decidido a travar esta luta interna, acalmando-se com a redação clandestina de artigos para um jornal, o Jornal de Olhão, mas o facto é que a resignação estava cada vez mais próxima do impossível, pois o Padre Manuel Ançã não o tinha já em consideração. Assim, bastara-lhe um trejeito feito ao acaso para a (auto-)expulsão.

Paremos, então, por ora, no passo das suas memórias onde, num tom humorístico – ou não fosse o escritor detentor de um humor relativista, de um sorriso irreverente –, Aquilino faz o relato desse momento:

 

Uma noite, no refeitório, quase ao fim das rezas, quando o monitor pronunciava: – Fidelium animae per misericordiam Dei requiescant in pace, o coro respondia amen, e voltava o invocante: – Pater Noster… eu, como a oração dominical, segundo a rubrica de secreto, é recitada mentalmente, não me lembro já se rezava se não. O facto é que me encontrava, conforme me pedia a arquitectura do corpo, levemente dobrado sobre ilharga, em relação porventura ao Cristo que estava na parede (…). A súbitas estalou no recinto uma voz como o trovão. Compreendi pelo entono e volume que era a voz do antigo grumete – ala a corda! arria! ruma a bombordo! – que me apostrofava:

– O senhor, lá,… está a rezar sem o devido respeito e compostura! Não quer cá um canapé?

Foi como se me dessem uma vergastada. Redargui sem tir-te nem guar-te:

– Sem respeito e compostura reza o senhor, de contrário não teria notado como é que estou!

 

O refeitório ficou medusado, inclusive o prefeito que, havendo-me arrancado tão disparatadamente do meu bom sentido, não soube que responde.

 

O prefeito decidira castigá-lo, mas ele tomara, então, a decisão de não se deixar humilhar à frente dos outros seminaristas. Assim sendo, só lhe restava abandonar o Seminário, mas não sem antes desafiar, uma última vez, o poder religioso instituído: «Escolhi a gravata mais profana que encontrei no baú, peguei do penante e meti para a rua, direito, batendo a bota, com a naturalidade de quem sai ou entra em sua casa». O pássaro estava livre da sua gaiola e pronto a voar.

Possuído pelos demónios do desassossego, pela intranquilidade, ávido de vida e de conhecimento, conduzido pelo coração, partira numa viagem sem regresso «para lá do cabo do mundo e dos tempos». Esta sua viagem iniciática tem paragem em Lisboa, onde decide cumprir com o «primeiro número do seu programa em branco», isto é ler «o escabichador do real», Eça de Queirós. Começa, então, ainda sem o saber, a esboçar o seu futuro: visita museus, mergulha nos livros de autores clássicos e modernos portugueses e estrangeiros, vibra com o pulsar revolucionário de Lisboa.

Conta com a compreensão do pai para continuar a permanecer em Lisboa, já que a sua mãe «tinha na alma a brancura cristalina da água de neve, mas também a sua dureza e queda para seguir pelo estuário aberto», que a tornavam altiva e intransigente, e queria que o dinheiro lhe servisse para sair dessa Babilónia onde se encontrava. Mas o encanto da cidade já tinha surtido o seu efeito, vivendo o jovem em uníssono com ela, «Tirit[ando] de fome-fome, de sede de justiça e de liberdade». Mas, gastos os últimos tostões guardados no fundo do bolso, tem de se render à evidência e regressar a casa. Ao chegar, enfrenta a dureza da mãe:

 

Bati. E logo ouvi minha mãe, cujo quarto era à mão esquerda da porta, e me teria pressentido na sua vigília atribulada ou adivinhando, tão clara e alceira era a sua voz:

– Quem é?

– Sou eu.

Silêncio. Em menos que segundos decorreu a síntese psicológica de todo o drama: surpresa gozosa, ressentimento, escarmento, vontade de me beijar e de me esbofetear.

– Eu, quem?

– Eu! Bradei mais alto e intimativo.

– Mas diga o nome…

A frase tinha o seu quê do clangor áspero da vingança. A Meseta ajustava contas ao trânsfuga. Guardei silêncio. Um silêncio de raiva. Minha mãe decifrando-o repetiu, com prazer de escarafunchar na ferida:

– Diga quem é…

Rebentei. A minha voz era de quem lavra uma sentença irrevogável:

– Querem que me vá duma vez para sempre ou que me atire ao rio?!

E a porta abriu-se.

 

O castigo na aldeia durara uns bons meses, mas, em nenhum momento, se deixara fazer prisioneiro: fugia de casa durante a noite para jogar às cartas nas tabernas, metendo-se, se esse fosse o caso, em rixas e, durante o dia, percorria os montes à procura de caça. Aprendera, assim, a conhecer o homem nos seus instintos mais primitivos – e a tornar-se rijo, firme e amigo da solidão –, a observar a fauna no seu habitat e a natureza a metamorfosear-se. Em dias de intempérie, tal como um urso preso numa jaula, percorria a sala «de lés a lés», até que o frenesim da leitura e da escrita se apoderava dele, numa «ânsia hipertrófica [da descoberta e] da criação». Lisboa já tinha exercido o seu feitiço e o regresso estava iminente, mas a aldeia haveria de lhe ficar «nos poros, no sangue e no cérebro».

De volta a Lisboa, à falta de um emprego estável, dedicara-se a uma leitura exaustiva de textos literários na Biblioteca Nacional, enquanto a tormenta revolucionária se instalava na capital. O nosso escritor aldeão relata o primeiro momento de rebuliço social e político – o da chegada de Bernardino Machado a Lisboa –, no qual participara com toda a efusão que lhe ia na alma:

 

Nunca tinha visto o espectáculo da multidão desencadeada. Um mar tempestuoso é uma imagem imperfeita. As ondas encabritam-se furibundas e quebram-se contra a praia numa martelada estrondosa, mas com um movimento de aríete e de ressaca invariável. A multidão cresce como a onda, ulula como a onda, mas não quebra como a onda. Reparte-se, e os destroços levantam-se com igual ímpeto, e animados de maior cólera.

O cromatismo rural e oral de Aquilino encontra-se neste passo do seu texto sobre Lisboa, mas modulado pela erupção da sensibilidade citadina. Óscar Lopes diz, a este respeito: «O ter-se feito citadino constitui razão necessária, embora insuficiente, de sentir mais alguma coisa do que aquilo que Aquilino sentiu creio que como rapazola de Soutosa, na Beira Alta, e caçador da Gralheira ou da Nave».

Mas atente-se, agora, num momento soberbo das memórias deste homem:

 

Nas belas manhãs eu gostava de ir sozinho Avenida fora, trepar ao bocado de sertão, que era o Parque Eduardo VII, onde via coelhos a correr, pássaros de tanguinho no bico em vias de construir o ninho. Ali a natureza era a autêntica madre, no seu planalto primitivo, ou quase. Lá estava no alto uma casa de granja, quadrada e com telha moura, ares de «monte» alentejano, desdobrada em abegoaria e alpendres, o Casal Ventoso, onde se vendia um copo de leite, se nos apetecia este mimo rural.

E eu voltava aos meus romancistas boulevardiers, crestado do ar alto, arejado dos pulmões, os olhos recreados de todos os belos painéis da geórgica que se oferecia naquele bocado de serra e frágua, inacessível por então às gâmbias alfacinhas.

 

O sangue de beirão corria-lhe nas veias, a alma aldeã mantinha-se intacta, o prazer pela natureza sublimava-lhe o pensamento: nem as suas leituras, nem a vida citadina, nem o espírito revolucionário quebraram a sua natureza humana. Aliás, Jorge de Sena diz-nos, a este respeito, que o importante em Aquilino é o «seu gosto de estar vivo e de saborear as suas satisfações ou insatisfações com a paisagem do mundo». Saudosamente ligado à natureza serrana, procura um paralelo, uma equivalência em Lisboa, capaz de lhe despertar sensações, emoções e de lhe dar novo alento.

Assim, quando, por força de formalidades militares, se vê obrigado a voltar à serra, o Aquilino artista reinventara-se ou descobrira-se com outro olhar:

 

O Junho é o mês da alegria da serra. A Primavera esplendia como todo o seu fulgor, e as suas tintas, no mato o amarelo do tojo e da giesta, o vermelho-púrpura das urzes e rosmaninho, o branco da esteva e bela-luz, no centeal o ocre palhetado de verde, enchiam os olhos. Cantavam por toda a parte pássaros, que eu deixara de ver havia muitos meses e agora as suas vozes sovavam aos meus ouvidos como aleluias.

 

Aquilino fora a Lisboa «buscar olhos para ver» e ouvidos para escutar. Não se despira do que trouxera da cidade, não se esquecera do que lera sentado naquela sala abobadada da Biblioteca Nacional, não fizera tabula rasa do espírito revolucionário. Só se entregara ao passado com toda a alma e coração: «Tinha-[se] deixado possuir da feitiçaria das coisas ternas da natureza, de que só então dei conta que existiam». Os sentidos entorpecidos são, agora, desenfreadamente estimulados, mas Aquilino reconhece haver um que prevalece sobre todos os outros: o paladar. Com efeito, à semelhança da madalena de Proust, ao comer batatas novas aferventadas, que se derretiam como bombons, a memória involuntária lembrara-lhe a serra, os caminhos percorridos por entre montes e vales, de manhã à noite.

Despertadas as sensações, a natureza da serra surpreendera Aquilino e recria-a, então, à luz da sua sensibilidade, da sua experiência, das suas leituras e de outras fontes de inspiração:

 

Ao toro, com a barriga à mostra, o ranho a alumiar, o ranho a alumiar, as catraítas, depois de depenicar nos ramos [das cerejeiras] que lhes deitavam de cima, punham-nas aos pares bifurcadas por detrás das orelhas à laia de brincos. E ficavam mais vaidosas que princesas de Golconda.

Mas há outras coisas engraçadas para que ninguém olha, tão interessantes como uma écloga do Crisfal: o cebolinho a crescer, cada dia os punhais javaneses de suas tiges a empolarem e altear-se;

(…) outros pássaros, e a rola e o cuco desferiam na coruta dos pinheiros um bolero de Ravel.

 

Cedendo aos esplendores da serra, decidira permanecer mais uns tempos, dedicando-se à observação da natureza humana, animal e vegetal e, simultaneamente, à tradução e à escrita. Antes de partir, ainda sem o saber, para terras de França, da Alemanha e de Espanha, voltara para Lisboa, afoitar o seu próprio destino. Enfrentara a cadeia, mas dela fugira; encarara a insubmissão, mas guardara o respeito pela verticalidade moral; abandonara-se ao prazer da leitura, mas preservara a sua originalidade; seguira um itinerário de escritor e artista, mas guardara sempre a sua autenticidade.

Fernando Namora disse deste momento passado na terra natal: «O regresso à aldeia é o de um potro que, no desterro, aprendeu a estimar mas ainda o seu prado. Bebe-lhe os ares e morde-lhe o sabor como se tal cheiro e tal gosto tivessem de ser assimilados para a vida inteira. Trouxe-os na medula para Lisboa (…).

É, pois, no coração da Beira que se firmam as raízes da escrita de Aquilino Ribeiro e, tal como os castanheiros, ancorados em solo beirão, as palavras tecem uma renda que vai enchendo a alma a quem as lê. As manchas pretas escritas «à enxada», com a força da vontade, do afinco e do amor, vão redesenhando o mundo de forma a torná-lo recôndito e poético. As sensações sinestesicamente intrincadas vão tecendo correspondências criadoras de harmonia.

Com cinquenta anos de labor nas letras, nunca escamoteara o seu espírito beirão e, por isso, Ferrnando Namora escrevera, logo na primeira frase da apresentação do livro Aquilino Ribeiro: «Ali para as bandas de Entre-Campos morava um jovem de setenta e oito anos que trouxera a província para a cidade. Não é fácil trazer a província para a cidade e conservar-lhe aqui o porte e a seiva. A cidade não gosta disso». Contudo, Aquilino conseguira-o com mestria, trouxera as serranias para Lisboa com o ímpeto humano de quem era fiel à sua condição e às suas origens.