Inspiração em forma de mensagem cultural

por Eugénia Pereira | 2013.11.28 - 17:54

Em novembro de 2007, um jornalista americano, chamado Donald Morrison, publica um artigo controverso, intitulado «The Death of French Culture», na versão europeia da revista Time, que desencadeia uma onda de contestação em França e incendeia media, intelectuais e grande público. Segundo Morisson, o fracasso da cultura francesa prende-se com a falência na exportação da sua arte. O veredicto, de uma certa forma excessivo, do jornalista abalou profundamente os alicerces da identidade francesa e os seus ideais de primazia na cena cultural mundial.

Na resposta a Morrison, Antoine Compagnon, professor de literatura no Collège de France e na Columbia University (NY), publica, em 2008, Que reste-t-il de la culture française? – Le souci de la grandeur, onde destaca a ambivalência da cultura francesa, considerando que esta ainda é capaz do melhor, mas que ela está como que paralisada pela inquietação da sua própria grandeza. Compagnon estima que a França tem de relativizar o seu ideal de grandeza e deixar de reagir à insolência cultural dos Estados-Unidos.

O facto é que a França é um país fundado sobre os ideais das Luzes, e que leva muito a sério aqueles que ajudaram a edificar as bases iluministas da sua identidade nacional: Montesquieu, Voltaire, Rousseau e Diderot.

Ora, não podemos, ou não devemos, renunciar ao universalismo herdado dos princípios republicanos de 1789, e é bom que nos inspiremos naqueles que os ajudaram a construir, (re)lendo algumas obras literárias daqueles que foram os grandes filósofos do século das Luzes: As cartas persas (1721), onde Montesquieu, discorrendo sobre uma viagem mítica que ele teria feito para a Pérsia, usa do ridículo para criticar de forma irreverente e ácida as instituições políticas, a igreja e certos costumes da sociedade europeia; e Zadig (1747), de Voltaire, um conto sobre o carrossel das desventuras por que passa o protagonista, que representa o acumular de erros levados a cabo pela ambição desenfreada e pelo fanatismo dos homens, encontrando-se a condição humana seriamente comprometida; As confissões (1755) de Rousseau, uma narrativa singular, entre o factual e o ficcionado e poético, iniciadora daquilo que viria a ser a forma da autobiografia moderna; e Jacques o fatalista e o seu amo (1796), tecendo Diderot, sob a forma de um romance recheado de diversas espécies de narrativas, aventuras e reflexões, um jogo satírico, de forte pendor anticlerical e antiteísta, uma reflexão crítica sobre a condição humana e a sociedade do seu tempo;

Chegada a Revolução de 1789, os ideais das Luzes tomam novo fôlego e servem de modelo para o liberalismo político e económico e para a reforma humanista do mundo ocidental do século XIX. A França, sedimentada enquanto pátria da liberdade, está pronta para aceitar os cortes com o passado: diversas correntes literárias, aparentemente contraditórias, tomam forma e vão interessar-se pela riqueza, a profundidade e a complexidade das aspirações do homem, intelectual e sensível, em luta com a sua própria condição existencial. Assim, e a título de exemplos, Victor Hugo, figura máxima do romantismo francês, permitiu que a sua vasta obra, rica em imaginação, poderosa no idioma, revolucionária no gosto poético e retórico, se tornasse portentosa. Salienta-se, deste autor, A lenda dos séculos (1859-1883), um visionário poema épico, que evoca a história do mundo e mistura constantemente a lenda com a realidade: “Deus sonha. Vasa os olhos d’água; pica/As artérias da terra; os lis fabrica,/E da matéria sonda o fundo ovário./Pinta as rosas de branco e de vermelho,/E faz das asas vis do escaravelho,/A surpresa do mundo planetário”. Baudelaire e Rimbaud, dois poetas visionários e amaldiçoados, têm, também eles, de ser (re)lembrados e a sua escrita re(valorizada). A “bruxaria evocatória” e a “magia sugestiva” d’As flores do mal (1857), de Baudelaire, tornam a sua poesia insólita, o elemento poético encontrando-se no poder mágico e misterioso da linguagem: “Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,/Da Terra, por prazer, faria um só detrito/E num bocejo imenso engoliria o mundo;//É o Tédio! – O olhar esquivo à mínima emoção,/Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado./Tu conheces, leitor, o monstro delicado/- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!” (cf. “Ao leitor”). Rimbaud, inspirando-se no soneto “Correspondências” de Baudelaire, procura, também ele, que a linguagem resuma tudo, mas, enquanto, em Baudelaire os perfumes, os sons e as cores, por via da sinestesia, se confundem, no poema “Vogais” (cf. Poesias, 1871), de Rimbaud, tudo não passa de um exercício poético sobre o poder sugestivo das vogais, procurando o poeta decifrar a “floresta de símbolos” que se estabelece entre o visível e o invisível: “A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais./Explico um dia vossas origens latentes:/A, negro corpete é um pelo em moscas luzentes/Que zumbem ao redor de fedores brutais”.

Estes três poetas estiveram, pois, na origem do Espírito Novo, de Guillaume Apollinaire, e do seu livro de poemas Alcools (1913). Inspirando-se nos seus antecessores, Apollinaire procura inovar e surpreender o leitor, brincando com o soneto, inventando o poema-conversação, o calligramme, etc. Diz-nos, no seu poema “Outono enfermo”: “Outono mortiço e adorado/Morrerás quando o furacão soprar nos rosais/Quando nos vergéis/ Tiver nevado”. Esta liberdade criadora, iniciada no século XIX, e fortalecida com Apollinaire, vai permitir que surja uma outra forma de encarar o mundo. Os surrealistas Breton, Desnos e Eluard vão valorizar o sono e o sonho e deixar que a sua poesia siga um novo caminho: o da aceitação do inusual, da exploração do automatismo psíquico puro e do funcionamento real do pensamento.

A cultura francesa não pode, pois, ser ignorada, posta de parte ou simplesmente desvalorizada pelo resto do mundo, pois ela está na base da reflexão sobre a condição humana, da liberdade e da inovação literária, e deveria, por isso, continuar a ser valorizadas no mercado mundial da cultura.

Quanto mais não seja, leiam-se ou releiam-se os livros referido enquanto obras primas universais incontornáveis, obras que, tal como nos diz Italo Calvino, por tanto se ter ouvido falar delas, provocam em nós o desejo de as ler, nos convidam à (re)leitura. Numa sociedade pós-industrial, dominada pela marginalização da cultura literária e das humanidades, elas são as detentoras de uma verdade humana reconhecível por todo o lado e por todos e acabam por nos ajudar a descobrir uma outra coisa, que não é mais do que o outro de nós próprio.