“I’ll be dead and gone”

por Sofia Amaro | 2014.01.26 - 08:11

A propósito da vandalização cultural a que o erário público submete a nossa vida, espoliando o nosso património, vendendo os bens existentes ao preço da China, para não falar do desinvestimento científico, nos cortes a avulso e sem freio nas nossas instâncias maiores de sapiência, num precipício propalado por este vórtice polar que representa o Inverno dos nossos dias. A propósito das sombras chinesas que resolveram amedrontar os sonhos da nossa infância, num país que se quer velho, para além do colossal envelhecimento demográfico, essas são as mesmas que acabam por definhar entre as muralhas, como nas histórias trágicas que desencantam desde sempre as nossas noites.

São tantos os acontecimentos, os títulos dispensáveis para a nossa efémera felicidade, que resolvi há uns dias ir ver, antes que me passasse completamente ao lado, o magnífico registro folk dos irmãos Coen, Inside Llewyn Davis. Fui ver aquele cantor, no limite da ruptura, com a esperança aviltada pelo mundo,  cantar “I’ll be dead and gone”. Homem expropriado, desertado pela sociedade, que o deixa constantemente nesse jogo de Inverno, ao acaso de um abrigo maior que nunca acontece. Volta sempre ao lugar dos mortos, nesse Greenwich Village frio e melancólico. O ponto onde artistas, beatnicks, errantes ou curiosos se reuniam à noite e ficavam ali num espectro de fumo a aguardar a manhã. Assim estamos todos como Llewyn Davis, que não canta nem melhor nem pior, mas canta com a voz vivida e experiente que é o que o mundo lhe confere. A figura acabada que teima em cantar, tentar até à morte da nota maior, mesmo ele que não sabe distinguir uma pauta, ele e o gato Ulisses, que passa para o avisar desta luta hercúlea com a vida. Um pequeno verso rasgado numa manhã fria de Nova Iorque e o ronronar de um gato. Este é um presságio de Inverno, austero, ríspido, pintado de tempestades, ondas colapsantes, vórtices polares, caudais aflitos. Inside Llewyn Davis não é mais do que uma epígrafe de um estado que ambicionamos transitório.

No fim fiquei a beber uma cerveja neste cinema pequeno, independente, parte integrante da própria cidade, onde podemos beber uma Gueuze, cerveja típica, e ficar a conversar com desconhecidos que se revêm neste traço noir, pontuado de polichinelos, a que os Coen nos habituaram. Ficamos a falar sem ordem de abandonar o cinema, numa única sala com um empregado tirado da trama, o mesmo que nos vende o bilhete à entrada e nos abre a porta e acompanha. Diz-nos que as portas principais já estão fechadas, e somos obrigados a sair pelas traseiras. Leva-nos quase até à passagem de ferro que se abre num corredor medieval com dois estaminés, passo pela álea estreita e oiço através da janela um homem a tocar guitarra e a cantar “Heureux qui comme Ulysse a fait un beau voyage” de Georges Brassens, e eu a pensar que talvez tudo fosse possível num cinema chamado Londres.

Sofia Amaro nasceu em Mirandela, Trás-os-Montes. Licenciada em Filosofia, pela Universidade Nova de Lisboa, traça o seu percurso académico na área das Relações Internacionais e envereda por um mestrado em Pedagogia na Universidade de Liége, Bélgica, país onde reside. Tem várias obras transversais à escrita, desde o cinema de animação, como argumentista e guionista do filme A Estrela de Gaspar para a Animanostra /RTP, à banda desenhada para a Pública (suplemento do Jornal Público) e Beraca em co-autoria com Pedro Brito, assim como outras publicações. A última como jornalista na revista belga La Revue Nouvelle. Tem uma relação umbilical com o teatro, dedicando-se várias vezes à leitura de autores como David Lescot ou como autora da peça A Cartografia do Medo. Recentemente publicou O Umbigo de Deus laureado com duas menções honrosas, o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes e o Prémio literário Alves Redol, e em breve termina um novo romance. Como um pêndulo continua a escrever sobre os indícios humanos, a natureza e a relação entre as esferas como um derradeiro sinal de metamorfose.

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