hoje no parnaso… com deuses e humanos

por Paulo Neto | 2014.02.21 - 09:22

estive hoje no parnaso com deuses e humanos.

sentados em cadeiras dispostas à mesma mesa na mesma sala.

em lisboa, parnaso tem salas e cadeiras e senta os deuses com os humanos e passam aviões por cima para a portela; trazem os homens nas nuvens e não vêm ao parnaso; devia estar jubiloso por estar sentado com os deuses à mesa onde comíamos, servido em francês de très haute cuisine, griffé rallot, o capítulo IX da chartreuse, de stendhal, “le voyage de fabrice”.

ouvindo os deuses, bocejei interdito pelo cometimento.

cheirando os deuses, adivinhei-lhes l’odeur à lanvin.

reconheci-lhes o jaeger le coultre… e bocejei três vezes, expondo as escancaras do derradeiro bocejo.

escorregou-me uma lágrima incontida, de tédio, sofrimento de tédio.

fabrice atravessa o rio pó com ludovic.

três bocas riram, cinco sorriram, oito anuíram e a elocução animada, achou-se muito apreciada.

a deusa convidada do parnaso de aix leu memórias de re-leitura.

fintei o tédio pelo acento no significante.

a deusa entoava harmoniosos sons gauleses, exibindo mapas de outrora e de espaços já perdidos.

a deusa tinha rugas, brincos bi-esféricos de prata, um anel de prata no anelar direito. trouxera os lábios de um bordeaux diluído no carmim do rosto e no feu fanné dos cabelos.

vestia de preto, a deusa, e os homens passavam em cima nos aviões da tap, air france, swissair.

e nós sentados, numa sala fria, com folhetos publicitários cedidos pela embaixada, enquadrados em molduras faux rococo, da galerie des glaces, em versailles, falávamos das viagens de fabrice, que o pobre nunca fez, aliás.

fingi interesse em interessar-me.

um interesse de ficção, também.

até caronte convocaram, estes deuses.

mandou-os enculer, que estava ocupado com coisas pouquíssimo sérias, como a morte. alzira, a deusa-mor, anuía cadenciadamente três vezes por minuto, revirando os olhos nas órbitas acolhedoras dos êxtases.

mathé, o senegalês, convocado só porque viajara de áfrica e seria um expert quando fizesse a outra viagem, a de retorno, perfazendo a quilometragem intelectual necessária, adormeceu e caiu de lado numa vitrina que chocalhou um aplauso estrídulo.

a deusa de aix pôs os óculos e compôs o cabelo ralo que já não era rebelde.

exibida a miopia de todos os intelectuais, tirou-os ostentando-os na mão esquerda astigmática até ao fim, como uma borboleta hipnotizada.

escoou-se uma hora. a deusa sorria, os outros deuses também, os humanos também, e eu, no meu acto flou de comunicação lírica/enunciação poética, afastei as teias-cortinas do tédio, reposteiros fantásticos de defesa, e sorri quando todos riram.

passou mais um avião com homens.

o meu esfíncter espetado nas nádegas, contorcia-se dorido no tampo de fórmica do assento.

o crepúsculo dos deuses não traz melancolia. aos homens dá tolerância.

a tolerância necessária para conviver com os deuses e a sua elevação.

e aturá-los.

tinha os dentes tortos.

não eram decerto postiços.

seriam tão naturais como o hálito que não era fresco como as águas de canaã, antes fétido como o rasto de orfeu fugindo de eurídice, que ficou bem entregue, fujamos dos répteis que mordem os pés e dos deuses que nos trepanam.

tinha as unhas da cor da boca.

porquê pintar as unhas da cor da boca?

as palavras eram incolores e perdiam-se no ar revolto.

passou um avião da varig.

o computador ao alcance do meu cotovelo esquerdo era antiquado e da marca schneider, como a bela romy.

a colega tinha um rabo de cavalo esparso e ralo num laço azul.

aquele cabelo merecia água e sabão.

há já uns dias.

todos escreviam afanosas notas.

creio que são os diferentes capítulos desta narrativa que descreve este parnaso.

agarro-me a uma função nuclear e parto pendurado na asa de um avião da saudia air, com os homens que voam, para longe dos deuses aterrados e enterrados na aura da sua medíocre aspiração à consideração da seita.