Gaiolas Douradas

por Rui Macário | 2014.07.26 - 16:28

EUDAIMONIA

A época estival traz consigo o regresso das comunidades portuguesas espalhadas por esse mundo fora. Entre nós, que cá estamos em permanência, surge um misto de horror ao “cheio” que o Interior conhece – só pelo Verão, em boa verdade – e de reconhecimento pelo esforço “deles”, que é tudo menos transitório, no sentido de mais e mais longe procurar o que “em casa” poderia eventualmente nunca surgir.

De algum modo falta ainda essa plena integração entre os vários saberes, de quem parte e de quem nunca partirá, para que a nossa maior tradição (a diáspora) se não perca em imposições e estereótipos. Há aldeias que são apenas aldeias de quem tem morada longe, habitando sempre as terras de origem. Velha história, outra e paralela, a de que nas gerações sequentes não se manterá esse pendor. Será quase inevitável que na Gaiola Dourada a “aldeia” diga pouco mais que nada a quem a não conhece (e não fazemos todos isso com a aldeia que foi de outros palco?).

Os visas dourados não abrangem estes porque não precisam de “licença” para se movimentarem pelas fronteiras da Europa mas faria mais sentido talvez que lhes fosse outorgado qualquer outro “prémio”.

Estamos mais pobres e mais velhos; mais velhos ficamos a cada dia e a pobreza que de espírito for, essa não passará nunca, enquanto apenas se rememoram os anos em que o cabelo existia com fartura na cabeça de alguns, sem avançar ou dar lugar ao que entretanto o pode assumir.

Por Julho e Agosto penso sempre que a migração que nos falta é a das gerações e em particular dos “geracionistas” que agarrados ao que foram, não podem, não querem e sobretudo, não conseguem mais, contribuir para um mundo que existe apenas nas suas palavras.

Venham os de fora (do país e do “sistema”) que todos precisamos de um arraial novo, sem que com isso se perca o que quer que seja do que conhecemos (apenas pelo conhecimento em si) do anterior.

 

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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