Viver e Sobreviver

por Rui Macário | 2014.03.16 - 11:14

A ideia fundamental por detrás de qualquer desenvolvimento é a de que a qualidade de vida deve ser o objectivo último dos cidadãos por ele abrangidos. Esse conceito é lato mas provavelmente não poderia ser de outro modo. Curiosamente, a noção de “cultura” surge-lhe sempre associada, ou pelo enfoque de que aqueles com mais posses se podem dedicar a “pensamentos elevados e distrações” (como na Grécia e Roma Antigas embora não exclusivamente), sendo o Belo um indicador de classe; ou, pelo contrário, como um aglomerado de elementos identitários que marcando o calendário, se apresentavam como um “descanso” da lide (dura) quotidiana e fortaleciam a necessidade de prover (para si e para os seus). Identidade e Património – Hoje, Cultura – são pilares de um entendimento que aos poucos determina o mais que haja para lá da sobrevivência pura. Em última instância, o que distingue a espécie humana das demais.

Corre-se contudo um risco: o de produzirmos uma linha de acção que vincando o cultural como algo para lá do básico, esqueça o conteúdo essencial de formação das comunidades. Uma praia de água salgada no Interior do país é tão culturalmente necessária como um deserto de areia nos Polos (houvesse comunidades humanas com sentimentos identitários por lá), ainda assim é uma distração, um centro de lazer, e por tal válido para os que a decidam aproveitar. Só não se imiscua lazer com ser, e viver com sobreviver. Podemos ter novas festas, certames e romarias, que em duas ou três gerações talvez até sejam “identitárias” para as comunidades cujas geografias elas ocupam, o que não haverá certamente é algum tipo de justificação quanto ao seu início e circunscrição. Se trocarmos alegremente o que temos e de onde vimos por algo que sendo externo pretendemos emular, caminhamos para a troca – que é também em si uma marca da humanidade, apesar de tudo – da nossa História específica por uma História partilhada e derivada de outro qualquer percurso.

Não se sendo Velho do Restelo, pode-se ser Velho ou do Restelo ainda assim. Ninguém mais o será por nós.

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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