Viva o Mercado Interno

por Rui Macário | 2014.06.28 - 11:13

Citando Adolfo Mesquita Nunes (Secretário de Estado do Turismo): os portugueses representam 67% das dormidas no Centro e quase metade das dormidas no Norte do país…

Por outro lado (e isto não foi dito), a grande maioria dos visitantes pagantes em museus portugueses, são estrangeiros e a média de gasto por turista é muito superior no que se refere a estrangeiros, quando em comparação com os nacionais. Estes são dados correlacionais, como outros haveria a indicar, no entanto, e partindo do disposto podemos apresentar um conjunto de leituras.

A primeira delas é que, provavelmente os governantes deste país nunca foram sequer a Espanha desde que se introduziram portagens nas SCUT, ou tentaram abordar coloquialmente alguns daqueles espanhóis que ano após ano alugavam casas em Aveiro (a faixa balnear mais próxima de Castela e Leão), fazendo paragens por outras localidades da A-25. A esses, ouviriam (não o tentam esconder) que enquanto se pagar o que se paga e como se paga, não mais virão a Portugal veranear…

A segunda é que, derivada da primeira, não admira que os portugueses sejam os principais responsáveis pelas dormidas no Centro do país: não há quem cá queira vir; e sobretudo, os de cá não podem ir a qualquer outro lado (isto percentualmente falando, quanto a essa grande maioria que viu os seus rendimentos cortados em cerca de 50% nos últimos anos).

A terceira – esmagadora – é que a política da internacionalização falhou, se ao que se apela agora é ao turismo interno como mercado de maior potencial que o externo.

A quarta, simplesmente a de que uma boa estratégia turística, sem festas e foguetório, pode sustentadamente atrair quem deseje e efectivamente gaste um conjunto substancial de euros aquando de cada visita. Os museus (como o de Lamego, por exemplo, que anuncia que 60% dos visitantes pagantes não são nacionais) podem e devem cada vez mais ser indicador para a contabilização do turismo e, nesse sentido, devidamente financiados e publicamente “expostos” no que aos resultados e modo de funcionamento diz respeito. O turista do século XXI quer mais que sol e praia, quer “cultura”… e é já tempo de os “turismos” estatais e empreendimentos privados “gourmet” assumirem a sua quota-parte de responsabilidades em vez de apenas beneficiarem da existência das estruturas culturais.

Por fim, um apelo: será que com tanta expectativa quanto a 2020 (fim do actual Orçamento Comunitário) não conseguiremos por uma vez olhar para o que temos e fazer as contas ao que existe sem depender, eternamente, de fundos, financiamentos e demais? Por este andar, daqui a dois anos estaremos a dizer que o mercado externo é o futuro e que com uma candidatura-zinha, se exportará a Cava e a Serra da Estrela e isso sim, fará maravilhas, algures numa qualquer China próxima de nós.

 

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

Pub