EUDAIMONIA – Os santuários

por Rui Macário | 2014.02.09 - 11:24

Cada vez mais pelo interior do distrito assistimos a um decréscimo populacional acrescido de um decréscimo nos serviços e comércio nessas povoações interiorizadas instalados. Igualmente assistimos a uma maciça “fuga”, para outras localidades (regiões ou países) mais capazes de centralizar emprego e assistência, perdendo-se a vitalidade e a capacidade de regeneração do tecido social.

O efeito primeiro é a incapacidade de manter (por interesse ou falta de meios – humanos nomeadamente) o que seja o corpo de tradições locais, consubstanciadas nas festas e nas relações diárias. Enquanto se não inventar a romaria virtual, haverá uma lacuna a preencher na romaria convencional. As escolas fecham, as crianças acordam cada vez mais cedo e cada vez por menos tempo partilham com as “suas” ruas e familiares os momentos disponíveis. O desenraizamento acentua-se.

Entre Novembro e Fevereiro há um conjunto amplo de dias “santos” e festividades que anteriormente suportavam ou marcavam o calendário dos encontros. Se ainda permanecem, são cada vez menores em impacto e participação, independentemente dos esforços das muitas colectividades ou associações informais que tomam para si a responsabilidade de prosseguir ou recuperar o “de antigamente” – nem sempre com a devida sustentação factual.

Neste chuvoso inverno, como sempre, celebraram-se os devidos dias e prestou-se homenagem aos devidos santos, protelando para Agosto a celebração farta que aqueles que estão fora impõem. O que se não viu foram as necessárias mudanças para que a cultura das aldeias espelhe o transmutar das gerações: há dias falaram-me em sarcófagos egípcios e camas dos mouros, referindo-se a sepulturas medievais escavadas na rocha. Ninguém tem obrigação de conhecer a essência das coisas, salvo os que disso fazem o seu viver. Mais do que livros escritos com espaçamentos certos e “profusamente ilustrados” à moda de outras décadas. Faz falta que se voltem a analisar as existências e as fontes. Que se investigue mais do que reproduza. Que se compile mais do que se repita. Enfim, que se dê à historiografia e à História uma justa hipótese de ter passado e futuro. As lendas são fundacionais não os pilares do dizer “doutoral” que deve em si apresentar as certezas como estado actual do conhecimento e as dúvidas como caminho a prosseguir até ser absolutamente claro que não tem saída – voltando atrás e a outra via na encruzilhada.

Vivemos todos na génese do sistema de comunicação global e esquecemos que é ao vizinho que devemos o primeiro bom dia, do mesmo modo que esquecemos com frequência que sem estudo/investigação não há preenchimento dos hiatos no conhecimento. Os sarcófagos e as camas, de egípcios e mouros, terão quem lhes afirme a real dimensão do seu existir. Antes de tal acontecer, as festas serão sempre feitas em tom de querer festa, mais do a certa afinação de que quem sabe dever ser em primeiro lugar chamado a manter, e a daí auxiliar a criar, a base para qualquer que possa ser o desenvolvimento das comunidades escassas que povoam o nosso horizonte próximo.

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

Pub