Eudaimonia – Consumir

por Rui Macário | 2014.03.23 - 11:37

O acto de consumo é o mais básico e eventualmente mais poderoso elemento de escolha que nos assiste. Consumir, preterindo um bem ou serviço, relativamente a outro, é uma manifestação de poder…

Há poucos dias atrás, acompanhando um grupo de pessoas num café, foram pedidas duas Coca-Colas e uma Pepsi. O proprietário do café informou que Pepsi não havia “(…) e nunca mais cá entra (…)”, tudo por causa do anúncio da Pepsi sueca aquando do Playoff entre a Sécia e Portugal, relativo ao apuramento para o Mundial de 2014, em que o Cristiano Ronaldo era representado amarrado a uma linha de comboio. O “ataque” a um símbolo identitário contemporâneo (para alguém que o considera enquanto tal), resultou numa escolha de consumo (para o proprietário do café) e numa obrigatoriedade de consumo para terceiros (os clientes).

Quando permitimos que outrem assuma as escolhas (ou ausência delas) a que temos acesso ou os parâmetros em que podemos ou entre que podemos individualmente escolher, estamos a aceitar a renúncia ao nosso mais directo sustento enquanto cidadãos: a manifestação das nossas preferências articuláveis num vasto conjunto de outras preferências individuais. Neste caso resulta ou não beber Coca-Cola, ou procurar um outro estabelecimento.

Aceitar ou permitir que quem quer seja imponha – pela democracia de um voto que se torna carta branca plenipotenciária – os parâmetros do nosso “consumo”, é negar o dia-a-dia em prol de uma presença arbitrária manifestada apenas pontualmente. Se votamos em políticos e políticas gerais, não estamos apesar de tudo a aceitar implicitamente toda e qualquer regulamentação ou execução dentro dessas políticas ou vontades individuais desses políticos. No domínio privado é em grande medida lícito decidir o que “oferecer” e o que “impedir”, no público, é perigoso e porventura ilegítimo, salvo se com mandato expresso para tal.

O que queremos realmente e até que ponto estamos dispostos a ir para manifestar que queremos querer?

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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