EUDAIMONIA – A avaliação de projectos culturais explicada aos mais novos

por Rui Macário | 2013.12.08 - 19:47

Partindo de uma hipotética nota de imprensa divulgada por um hipotético promotor cultural:
“Atrirei o pau o gato; mas o gato não morreu; Dona Xica admirou-se; do berro que o gato deu (…)” [geralmente acompanhada de uma data, uma aferição de estilo e subjectiva apresentação panegírica, e uma geo-referenciação; pelo menos]

. O que é que motivou o arremesso do objecto e qual a fundamentação da iniciativa e respectivos objectivos?
. O agente que levou a cabo a acção fê-lo de mote próprio ou foi seleccionado por uma entidade para executar a acção? Se neste último caso, quem o seleccionou, como foi promovida a selecção (quais os critérios), e será que seria o melhor/mais adequado agente para o efeito? Haveria outros agentes mais habilitados (formação e/ou experiência) e com melhores garantias de cabal cumprimento dos objectivos inicialmente pretendidos?
. A utilização do recurso em causa (“um pau”) foi contingencial ou propositada? Se contingencial, não deveria ter havido uma melhor planificação da iniciativa e verificação e garantia da existência/disponibilização dos necessários recursos tendentes à execução da mesma? Se propositada, não haveria um outro recurso que melhor cumprisse o fim estabelecido/previsto (e será que foi feita uma rigorosa análise recurso-finalidade)?
. Era objectivo ou era possibilidade, a questão da “modificação do estado” do gato (leia-se “gato” enquanto objecto da intervenção – que bem poderia ser um edifício, rua, cidade, etc.; e “modificação do estado” como alteração do existente: aqui entre gato vivo e gato morto)? O arremesso do objecto foi efectuado para e em termos do cumprimento do objectivo (matar o gato); ou por outro lado, salvaguardando que não ocorreria a hipótese (morte do gato)?
. O público mencionado (Dona Xica) seria o público-alvo da proposta, público espontâneo, ou antes a “vox populi” (que a há) institucional? O público-alvo foi em qualquer dos casos, mobilizado para a iniciativa? Qual o feedback do público e como se recolheu e posteriormente avaliou/tratou a recolha do referido feedback (qualitativa e quantitativamente)?
. De modo mais lato, e cumulativamente, como se aferiu o hipotético cumprimento dos objectivos (globais e intermédios) da acção, assumindo que os havia e que foram – como deveriam ser – tornados públicos antes da iniciativa?
. O resultado final transposto em nota de imprensa consubstancia o objectivo fundamental da premissa base da proposta do projecto? Se sim: mesmo que tenha havido uma tentativa de agressão/assassinato do gato, desde que havendo cumprimento integral da proposta, pelo mais adequado dos agentes, e tendo este utilizado eficiente e legalmente os recursos de que dispôs e assumindo que o público-alvo e/ou público institucional concordou (e concorda) com a pertinência do projecto e sua execução; então será que o assassinato potencial de gatos deve ser replicado em novas iniciativas ou deveríamos antes (enquanto comunidade) ter de nos haver com uma moldura legal (e eventualmente penal) que não permita tudo o que se queira? [A Ética é uma realidade a tratar numa qualquer outra música infantil.]

Este texto foi escrito a partir de uma intervenção realizada num Seminário inter-pares subordinado ao tema geral “Criação e Gestão de Projectos Culturais”. Faltará nestas linhas a explicitação de alguns pontos feita num modelo dialógico.
De todo em todo, a avaliação de qualquer projecto seja ou não de âmbito cultural, deve ser realizada e publicamente discriminada/apresentada. Auto-avaliações e notas de imprensa nada afirmam sobre a qualidade do cumprimento, independentemente – e este é o ponto complexo – da qualidade do projecto a avaliar: um edifício bonito/imponente, não é necessariamente um edifício bem implementado e com qualidade de execução ou sustentabilidade/funcionamento; muito menos um edifício bonito/imponente é um edifício que cumpra o projecto inicial (por exemplo, um estádio de futebol ou uma sala de concertos, cujo valor de construção derrape, e cujo custo de manutenção seja mal aferido ou não garantido por um período de tempo específico).

É nestas várias dimensões que a avaliação entra e faz sentido, separando os vários pontos mas percorrendo-os integralmente. Enquanto comunidade, todos dependemos do acesso, e temos direito ao acesso, à informação, nomeadamente quando as acções têm lugar no espaço público ou dependem de recursos públicos – sendo ainda assim lícito que uma maioria opte por certas acções relativamente a outras.

E no fim, quem avalia? Pois… por aí vai o gato à filhós e se calhar por isso foi agredido com um qualquer cavaco à beira lume.

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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