Escolhas

por Rui Macário | 2014.07.13 - 08:32

EUDAIMONIA

Olhando para a quantidade de actividades e eventos que decorrem no país em Junho e Julho, fica-se com a sensação de que nada há que falhe a quem queira escolher. O problema está em haver escolha a mais. Não que isso – a oferta – em si seja algo de errado, pelo contrário; apenas suscita uma consideração preocupante: o que se faz, faz-se para quem e com que sentido? Numa final nota, com que meios?

Ao designar datas para eventos, não se entende de modo claro se os referidos eventos estão a concorrer directamente uns com os outros ou apenas tentam atrair aqueles interessados que se não revejam na oferta existente. De todo em todo chega um momento em que há demasiadas ocorrências sobrepostas e a grande maioria com verbas públicas ou semi-públicas. Cada cidade e cada região cria dinâmicas de atracção e em muito poucos desses momentos aparentemente houve planificação. Não há uma lógica de planificação cooperativa, antes concorrencial, quer se pretenda quer se desenvolva nessa vertente.

De Jazz, por estes dias há três grandes momentos; de artes públicas, uma miríade; de festivais de música em geral, nem se fala; provas e mostras, a perder de conta. A diferenciação está no nome e no espaço geográfico apenas, não no conteúdo intrínseco.

As escolhas são desejadas e saudáveis mas falta a consciencialização de que uma adequação ao longo do ano fará mais pelos eventos próximos geograficamente, no sentido de capitalização da experiência e potenciação dos recursos, que a oferta pela oferta, cabal e impositiva.

De Maio a Setembro (Outubro nalguns casos) o país multiplica-se em ocorrências. Faltam outros seis meses pensados para a mesma valência. Falta solidificar o que será a normalidade dos dias com algo que os transforme em dias passíveis de serem igualmente marcas do quotidiano. Isto, claro, se se pretender um quotidiano de apelos ao invés de um quotidiano de 8h de trabalho diárias e uma explosão estival que faça esquecer o restante.

E se é certo que o ar livre só pode ser optimizado quando as condições climatéricas o permitem, há ainda assim, maneiras de conquistar o espaço comunitário mesmo quando chove ou neva… porque quer chova ou faça sol, as pessoas – aquelas que beberão o vinha ao longo do ano, comerão o queijo e o pão, lerão os livros, ouvirão música no carro ou em casa – existem doze meses por ano. Aqui não se escolhe.

 

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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