Em dia Internacional da mulher, um toque de Beatriz Pinheiro

por Anabela Silveira | 2015.03.07 - 22:29

 

 

Em Dia Internacional da Mulher, haverá melhor do que recordar as palavras centenárias de uma viseense na Revista Ave Azul?

Falo de Beatriz Pinheiro – feminista, republicana, escritora, professora – nascida em Viseu, corria o ano de 1871.

Falo dessa quase desconhecida Beatriz Pinheiro.

Falo de Beatriz Pinheiro, a mulher obnubilada pela cidade que a viu nascer, corria o ano de 1871.

Em Dia Internacional da Mulher há que resgatar do esquecimento mulheres que, pelo pensamento, pela pena, pela acção, pela vida, abriram caminhos que hoje já podemos sulcar.

E hoje, quando a diferença salarial entre homens e mulheres não cessa de aumentar, quero que nesse resgate esteja Beatriz Pinheiro:

ela que defendia o direito ao trabalho remunerado, como uma urgência vital para a emancipação feminina

ela que considerava que mulheres e homens deviam auferir salários iguais

ela que via na educação o caminho para um trabalho condignamente renumerado.

 

A este propósito, escrevia no fascículo nº 4, de Abril de 1900, da revista Ave Azul, pág. 197 a 201

 

“É o preconceito, e nada mais, que hostiliza o acesso da mulher ao trabalho em concorrência com o homem, não sofre dúvida […] Daí os gritos de protesto e os risos de desdém com que são recebidos quantos, reagindo contra a rotina, se lembram de dizer que a mulher deve ser educada de outra forma; e que a obrigação do trabalho à mulher, como ao homem, assiste, devendo portanto, como o homem, ser colocada em condições de se desquitar dessa obrigação pela mesma forma que o homem.

A mulher deve saber trabalhar; deve poder e querer trabalhar; deve trabalhar […].

Eu pudera insinuar que essa dura lei da necessidade é afinal a dura lei da natureza humana a que está obrigado o homem – e a mulher também […]

Se apesar de tudo a mulher trabalha e precisa de trabalhar […] franqueie-se-lhe o caminho para que ela possa, sim um tão grande esforço, prover melhor às suas necessidades e às dos seus filhos, quando os tenha, abrindo-lhe, porque não, o campo dos ofícios, das profissões, das artes, das letras, das ciências…

[…]

O que há a fazer é regularizar a divisão do trabalho; seleccioná-lo, largar, ao invés do que se vai fazendo, o campo da acção para a mulher, destinando-lhe muitas das profissões que vêm de há muito sendo exercidas pelos homens, e outras, que sendo em outros tempos partilha exclusiva de mulheres, começaram a ser por homens ultimamente invadidas […]

Se à mulher não falta capacidade […] e se temos de suportar a dura condição e trabalho para ela; porque relegá-la então, e apenas, para os misteres inferiores […]? E porque […] fechar-lhe acintosamente o caminho para um trabalho e mais bem remunerado? E porque, ainda, se ela é, como o homem, um ser dotado de razão, limitarmo-nos a dar-lhe, quando lhe damos, uma sombra de instrução, e não a admitirmos a frequentar, sempre que ela possa e queira, as escolas secundárias e superiores e ainda as escola profissionais, igualmente como o homem, para mais tarde os conhecimentos adquiridos lhe tornem o seu trabalho mais perfeito e mais lucrativo e exercício duma profissão honesta?”

 

Neste 8 de Março de 2015, mais de cem anos passados, como as reflexões de Beatriz Pinheiro se revestem de uma acuidade dilacerante!

Foi professora do 2º ciclo do ensino básico, leccionando HGP. É licenciada em História, Mestre em Historia da Educação e Doutorada em História pela UP. Como investigadora, integra o Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

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