Elpis

por Sofia Amaro | 2014.01.07 - 15:31

E a Elpis ficou fechada para sempre no jarro  de Pandora, enquanto os infortúnios, que a terra padece, saíram de dentro para atormentar a humanidade,  relata Hesíodo no poema Os trabalhos e os dias . A duplicidade desta esperança, exposta no mito, esconde o mal pernicioso ou o sonho de um dia de advento, um cimélio ou uma maldição. A esperança, a Elpis, nasce desta infelicidade e concomitantemente de uma necessidade em cicatrizá-la, de cauterizar o corte profundo que nos aguilhoa.

Foi assim que eu deixei Portugal. Triste, desiludida, esboroada como a cal que começa a cair com o tempo. As casas abandonadas, os passeios desertados e esconjurados pelo lixo nas ruas, os olhares, com papos de inferno, a namorarem sonhos e bolos, que de reis passaram a rainhas, os ovos que há muito amoleceram, os frutos secos e esverdeados do bolor, guardados de um ano para o outro, o bacalhau e o polvo de um Estado Novo. As lágrimas, essas depressa deram lugar a impropérios, quando ouvi, no soslaio dos dentes, saudações ao Doutor Oliveira Salazar que tanto fez, que encheu os cofres de ouro, sem desemprego, sem jovens estouvados e ordinários, sim estas palavras ouvi-as eu de norte a sul, porque atravessei a conta-quilómetros o país, neste Natal de mais um, neste caso uma, que teve de largar a zona de conforto, na língua bárbara de uma horda que representa, infelizmente, a mentalidade que nos é contígua. E esqueçam o caso da Hungria, da Grécia, do famigerado Tea Party europeu, em que o vaticínio se faz pela via da ignorância. No nosso país para além do tirano Salazar já se ouvem louvores a Hitler, e porquê, porque sim, porque levantou uma economia à lei da bala, bem hajam os obuses, os tanques, os submarinos e os miseráveis belicismos na boca do mundo. Esta é a minha maior desilusão, o meu maior medo, a insipiência do povo adormecido pela casa dos segredos, pelo corte de cabelo “cristianizado”, as bimbys, os louvores futebolísticos e uma televisão que atravessa o pior momento da história. Não me lembro de ver uma programação tão abjecta, pestilenta, constituída de retardamento mental e fealdade como aquela que eu vi no nosso país. Apregoam-se despautérios em horário nobre, reflexo de uma política e cultura acéfalas, sem mais nada para dizer senão vender rendas de bilros de um suposto regime. O estado da nação está vencido pela ignorância, pela apatia, pela crueldade vendida ao peso como as contas de Viana. O playback sinfónico de Portugal no coração adormece um povo, entregue agora aos bichos, bichos que crescem como parasitas.

Esta sociedade está no limite da autofagia, a fome é tanta que se comem a eles próprios e já nem os poucos se salvam, porque os poucos um dia desesperam e vão-se embora, perdem as forças e a voz, ou então desistem rendidos ao destino que lhes foi legado. Deixei Portugal desta vez com o sentimento de ter deixado um país há muito abandonado. Ou se cria um novo tempo seminal, que sirva de âncora para os nossos náufragos, ou o nosso país ruirá e ficarão os destroços de uma história. A Elpis abandonada, a esperança nunca resgatada, acabando por morrer sufocada no meio das palavras mortas.

O homem pode, mesmo assim, antecipar, fazer com que a verdade seja a única possibilidade dentro do espectro do impossível. Este é o único mistério provável no meio de um mar tumultuoso. O Inverno dos nossos dias já fez demasiadas vítimas, é tempo de levantarmos o mastro senão seremos engolidos por essas ondas colapsantes que têm arrastado num vórtice tantos corpos para o fundo do mar.

Sofia Amaro nasceu em Mirandela, Trás-os-Montes. Licenciada em Filosofia, pela Universidade Nova de Lisboa, traça o seu percurso académico na área das Relações Internacionais e envereda por um mestrado em Pedagogia na Universidade de Liége, Bélgica, país onde reside. Tem várias obras transversais à escrita, desde o cinema de animação, como argumentista e guionista do filme A Estrela de Gaspar para a Animanostra /RTP, à banda desenhada para a Pública (suplemento do Jornal Público) e Beraca em co-autoria com Pedro Brito, assim como outras publicações. A última como jornalista na revista belga La Revue Nouvelle. Tem uma relação umbilical com o teatro, dedicando-se várias vezes à leitura de autores como David Lescot ou como autora da peça A Cartografia do Medo. Recentemente publicou O Umbigo de Deus laureado com duas menções honrosas, o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes e o Prémio literário Alves Redol, e em breve termina um novo romance. Como um pêndulo continua a escrever sobre os indícios humanos, a natureza e a relação entre as esferas como um derradeiro sinal de metamorfose.

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