ECOS

por Diana Silva | 2013.12.08 - 08:29

Saiu, abrindo caminho pela multidão coberta de casacos e que parecia não ver nem ouvir nada. Estava um frio de rachar naquela noite.
Caminhou, caminhou muito, ate chegar ao parque. Cansado, inclinou-se sobre as grades sentindo na testa o metal frio e ouvindo o silencio nervoso das arvores.
Depois, sentiu um arrebatado desejo de continuar a caminhar em direcção as ruelas da vergonha. Duas mulheres abordaram-no quando ele passou. Outras duas, mais a frente. Chegavam-lhe sons de pragas, gritos, um mundo de sons rasteiros. Acotoveladas ao umbral húmido de uma porta, viu as costas curvadas da pobreza. Sentiu uma compaixão imensa. Era esta comedia de sofrimento que o fazia pensar a gratuitidade e a grotesca necessidade de encontrar um sentido. Como tudo parecia incoerente! Aturdido pela dissonancia entre o optimismo superficial do dia e os factos reais da noite, sentiu uma muito fina dor de estômago. Ao fundo, a distancia, curvava-se uma linha de candeeiros.
Começou, então, a sentir-se terrivelmente mal. Deu uma volta e apressou-se noite adentro. Para onde ia, nem ele sabia ao certo e já começava a amanhecer quando deu por si na Praça Central. Havia algo na delicada ternura daquele amanhecer que lhe parecia inexplicavelmente comovente e pensou em todos os dias que começam em beleza.
O que pensariam aquelas pessoas que ele vira: conheceriam algo do seu esplendor e da sua vergonha? da sua crueldade, das suas inflamadas alegrias, da sua fome terrível, de tudo o que se constrói e se destrói, desde manha ao fim do dia?
Uma certeza ele tinha: traziam consigo um pouco da Arcádia. E invejava-as por tudo aquilo que elas não sabiam.

No momento em que chegou a casa, o céu apresentou-se azul-claro.